sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ágora - Homossexualidade e aceitação da família

Bia, leio seu blog desde o comecinho e achei as novas colunas muito boas. Seguinte, tenho 16 anos e contei pros meus pais que eu sou gay. Não achava que ia ter coragem de contar mas aí comecei a namorar um menino que amo muito e queria dividir isso com eles. Queria que eles ficassem felizes por mim como sei que iriam ficar se eu namorasse com uma menina. Só que não... Sabe, teve a maior briga aqui em casa. E agora eles querem que eu vá no psicólogo pra parar de ser gay. Eu sou feliz como sou. Ate aceito ir no psicologo, mas pra me entender, pra lidar com essa bagunça na minha vida que ficou desde que contei pros meus pais, não pra virar hetero. Eles não proibiram o namoro nem nada do tipo, meu namorado vem na minha casa e meus pais tratam ele bem, mas dizem que eu deveria ficar com meninas pra ter certeza se sou mesmo gay. O que vc acha?
beijo
JP - São Caetano, SP

Olá, JP.
Em primeiro lugar, parabéns pela sua coragem e determinação. Não é nada fácil contar algo assim para a família. Muito legal também você ter essa vontade de que seus pais saibam do namoro, isso mostra maturidade e confiança para assumir a própria vida.

Acho super saudável ir a um psicólogo para se entender, especialmente na adolescência, que é uma fase de tantas mudanças e de tantas escolhas importantes. Quando a gente se conhece, lida melhor com as situações da nossa vida. Mas saiba que o psicólogo não pode fazer você "virar hétero". Primeiro porque é algo que está além do nosso alcance. Até pouco tempo atrás, a condição homossexual se chamava "homossexualismo" e era vista como crime, que precisaria ser punido, ou como doença, que precisaria ser tratada. A terminação "ismo" denota uma doença ou desvio. Mas hoje não é bem assim. Aliás, não é nada assim. A homossexualidade (e não mais "homossexualismo") é parte da identidade da pessoa. Não é doença, nem transtorno, nem desvio. A identidade é formada ao longo da vida da gente, e nada mais é do que a forma como nos reconhecemos e somos reconhecidos, a maneira como nos identificamos. E a orientação sexual de cada um passa pela forma como vivemos e nos reconhecemos e não por doenças ou desvios. Sendo assim, não há o que tratar. Se você for ao psicólogo, certamente ele dirá isso, pois todos nós psicólogos respondemos ao mesmo código de ética perante ao Conselho Federal de Psicologia.

JP, sobre essa ideia de ficar com meninas só para saber se você é mesmo homossexual, quando você mesmo conta que namora um menino que ama muito e está feliz com isso... achei a ideia bem absurda! Primeiro porque você estaria apenas se sujeitando a fazer algo que sabe que não quer, usando a menina e magoando o seu namorado, e nenhum dos três merece passar por nada disso, ninguém merece. Além disso, se você namorasse uma menina, será que alguém iria te sugerir ficar com um menino para ter certeza se você é mesmo hétero? Acho que não. Pelo menos nunca vi isso acontecer. Os afetos são partes de nós a ser vividas conforme surgem, sem ser impostos ou forçados. Basta que a gente tenha consciência deles e lide de forma tranquila, não são um experimento científico a ser testado e comprovado. Você sabe o que sente, e isso é certo para você. Isso basta.

Independente de procurar terapia ou não (e, se procurar, o psicólogo não pode mudar sua orientação sexual, mas sim ajudar você a compreendê-la e lidar com ela e com as situações da vida), o que precisa acontecer é uma boa conversa entre você e os seus pais. Pela forma como você fala, dá para notar que são uma família onde existe conversa, e isso é bom. Porque a conversa é o primeiro passo para conhecer e respeitar o outro. Os pais fazem o que acreditam que será melhor para os filhos, muitas vezes não se dão conta de que o filho cresceu e já pode escolher o próprio caminho. Cabe ao filho, com maturidade e respeito, mostrar que pode sim tomar as próprias decisões e lidar bem com elas. Aceitar a sua homossexualidade, eles até já aceitaram, só não querem ver. E com uma conversa sincera e madura, você pode ajudar seus pais a superarem esse preconceito.

Lembre-se que o seu maior compromisso é sempre com a sua própria felicidade!
beijo
Bia


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