quinta-feira, 27 de junho de 2013

Corpo, mente e história: em busca das raízes

"O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma." - Leonardo da Vinci, artista, arquiteto e inventor italiano (1452 - 1519)

Hoje gostaria de conversar com vocês sobre algumas informações mencionadas no evento da PUC-SP em que estive presente na última quinta feira, que teve como tema Psicossomática e Neurociência. Algo que foi dito em todas as aulas e palestras, sem exceção, foi a importância de conhecer a nossa história e a do contexto em que vivemos no tratamento de doenças, síndromes e transtornos do corpo e/ou da mente. Aliás, é interessante a visão de corpo e mente como um só todo. Já falei sobre história de vida em outros textos (para lembrar, clique aqui  e aqui!), mas nunca é demais falar sobre isso, desta vez com o foco nas relações (nem sempre fáceis) entre corpo e mente.

Nossa história nos dá consciência de nossas raízes.
Como ficar em pé, crescer e  produzir sem raízes fortes?
Um fato que noto na prática clínica é que, sempre que peço a um paciente para me contar sua história, ele o faz a partir de certo ângulo. Alguns destacam datas, idades, fases escolares e empregos que tiveram, outros dividem suas histórias com base nas casas e lugares em que já viveram, nos relacionamentos que tiveram, nos períodos de doença, internação e saúde... Isso quer dizer que cada pessoa tem o seu olhar, a sua forma de perceber a própria história e essa maneira como se conta é tão relevante quanto a história contada. Mas, de maneira geral, percebo que as formas que as pessoas escolhem contar suas histórias podem ser de três tipos: com o foco no corpo, na mente ou integrando-os. Quem foca apenas o corpo geralmente é um paciente que chega com problemas de saúde, muitas vezes bem sérios. Conforme avançamos no trabalho com a história de vida, me trazem itens como resultados de exames, medicamentos, bulas... Nem sempre esse tipo de paciente tem problemas corporais, em alguns casos a história contada pelo corpo pode falar de aspectos como esportes, sedentarismo, abuso de drogas/álcool/cigarro, sobre a vida sexual (ou a falta dela) e por aí vai... Pacientes que contam suas histórias apenas  pelo ponto de vista da mente geralmente são pessoas menos concretas. Os maiores focos da história são suas emoções, seus relacionamentos e amizades, a vida social, o trabalho e a carreira, os estudos, a vida espiritual... Nesses dois casos, quando a história acaba de ser contada sempre pergunto e incentivo a pessoa a pensar sobre o outro lado. Contou sobre o corpo... e os relacionamentos, como andam? Como estava o casamento quando começou a beber? Como vão as coisas em casa, na escola ou no trabalho? Contou sobre a mente, mas e o corpo como vai?Fuma? Toma algum medicamento? Como está a vida sexual? Pratica atividades físicas?

O ideal é chegarmos ao terceiro jeito de contar a história, aquele que une corpo e mente num todo único e inseparável... e é aí que pacientes e até alguns colegas podem ficar confusos! Explico. Gosto de perguntas, e vamos pensar nisso com base em uma: onde está a mente? Via de regra, a grande maioria das pessoas aponta para a própria cabeça. É obvio que a mente fica no cérebro, não é, doutora?? O que andam ensinando na faculdade de psicologia?? Mas a coisa não é nada óbvia. Porque a mente é uma parte abstrata de nós, isto é, não há em parte alguma do nosso organismo algo físico e concreto chamado mente. O cérebro, junto com a medula espinhal é a sede do nosso sistema nervoso central, que "comanda" nosso corpo, dos batimentos cardíacos à racionalidade mais refinada. Mas a mente é muito mais do que isso! Vamos pensar nas emoções. O sistema límbico, que fica no nosso cérebro, é responsável pelas emoções. Mas nunca sozinho. O amor, por exemplo. Ninguém ama apenas com o sistema límbico! Amamos com o corpo inteiro. Amamos com nossas lembranças e sonhos... amamos com o olhar, o tato e a audição. Amamos na interação com o ser amado. E tudo isso é parte da nossa mente.

Para os povos da Antiguidade, geralmente corpo e mente não se separavam. Diziam os gregos, povo cujo maior foco era o equilíbrio, que corpo e mente precisavam estar sãos para que houvesse equilíbrio. Para os romanos, a mente era o que permitia criar estratégias (geralmente de guerra, mas não só), e o corpo era o que as colocava em prática. Na Idade Média, a coisa muda. Passa-se a valorizar a alma (do grego psique, também traduzido como mente). O corpo passou a ser visto como um problema, pois afastava a alma de Deus... Nos séculos seguintes, a coisa mudou, mas mudanças não necessariamente significam melhoras. Nos séculos XVI até o XIX, a ciência passa a ser muito valorizada, com suas leis e métodos... o corpo se reduz a uma máquina. E para muitas pessoas, isso é assim até hoje. Repare no cérebro comparado a super computadores ou mesmo em intestinos que funcionam como reloginhos...

Hoje é preciso mudar a forma de olhar para o corpo e para a mente. Como discutimos, a mente está espalhada e espelhada no corpo como um todo, e vice versa. Por que reduzi-la apenas à razão? Por que reduzir o corpo a uma máquina? Somos muito mais do que isso! Nenhuma máquina pode alcançar o ser humano. Talvez em habilidades específicas (admiro as máquinas de calcular), mas nunca nos alcançarão no valor que temos enquanto seres humanos. Deixamos o discurso que nos dizia que somos criações divinas e passamos a adotar um discurso que nos reduz a meros instrumentos de produção (sem valor, senão pelo que produz), e que podem ser trocados quando deixam de produzir. Isso explica muito do preconceito e negligência da nossa sociedade para com idosos e crianças, por exemplo, que vivem fora dessa lógica de produção. Então qual a visão de corpo que poderia nos libertar desse processo? Aquele terceiro jeito de contar nossa história - de explicar nosso lugar no mundo. O jeito que nos faz ver a história não como um aglomerado de fatos, mas como nossas raízes. O jeito que integra corpo e mente, em que ambos têm a mesma importância. O corpo nos permite agir e ser no mundo, nos permite desfrutar dele e assim demonstrar nossa gratidão e nossos afetos sobre estarmos aqui. A mente nos permite elaborar o que sentimos, recordar e sonhar. E nesse processo, nos permite olhar para o corpo e para o mundo com o olhar do sagrado. Não falo de religião, falo do sagrado que esta na mente (e no corpo!) de todos nós: o olhar de profundo respeito (por nós mesmos, pelo outro e pelo mundo), saber ver com os olhos da harmonia. O olhar que nos permite ver na nossa história as raízes das nossas dores e sintomas e, em seus frutos (nos sonhos e planos, na história futura), a cura. Manter o foco no equilíbrio e na conexão corpo-mente. Aí está a cura.

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