terça-feira, 11 de junho de 2013

Mythos - Eros e Psique: o amor que transforma

Amanhã no Brasil é comemorado o dia dos namorados. E pensando no significado desta data, em relacionamentos e em amor, resolvi fazer o mito desta semana sobre isso, sobre o poder transformador e libertador que o amor e os relacionamentos saudáveis podem ter na nossa vida. Para isso, vamos conhecer o mito grego de Eros e Psique. É uma história longa, mas muito bonita. Me acompanhem...

Havia um rei que tinha três filhas. Todas eram muito bonitas, mas era a caçula, Psique (cujo nome significa "alma" e também "borboleta"), que arrancava suspiros de todos. Todos sempre se apaixonavam por ela, pois além de linda, Psique era uma moça gentil e sensível. Por conta disso, as pessoas começaram a compará-la à própria Afrodite, deusa do amor e da beleza. Com o passar do tempo, ninguém mais frequentava os templos de Afrodite, nem sequer lhe fazia oferendas ou prestava homenagens, passaram a ver a deusa do amor e da beleza como uma criatura distante, enquanto Psique não. Psique vivia entre eles e era gentil e atenciosa com todos. Psique entendia a todos e convivia com eles. É claro que Afrodite não gostou nem um pouco disso... Como uma deusa ou deus pode sobreviver sem que ninguém se lembre dela? Como continuar existindo se nunca fazem rituais ou prestam honras? Vendo sua existência ameaçada, Afrodite pediu a seu filho Eros (em Roma, o Cupido), para que descesse do Olimpo e procurasse a jovem Psique. As flechas de Eros eram irresistíveis, faziam qualquer mortal ou deus se apaixonar. Afrodite ordenou que o filho fizesse com que o homem mais cruel que encontrasse se apaixonasse perdidamente por Psique. Para a deusa, nenhum sofrimento seria maior do que aquele. Eros obedeceu as ordens da mãe e foi até a terra. Mas assim que encontrou Psique, aconteceu um imprevisto. A moça era linda! Eros se apaixonou por ela e decidiu que não poderia fazer um homem cruel se apaixonar por ela, não queria que a amada sofresse. Aliás, ele teria o cuidado de não deixar qualquer homem se apaixonar por Psique!

Cupido e Psique. François Gérard, 1822.
O tempo passou. As irmãs de Psique se casaram e eram felizes. As pessoas continuavam louvando a beleza da jovem, mas ninguém mais se apaixonava por ela. Nem os jovens, nem os homens mais velhos, nem os maus, nem os bons, nem os guerreiros, nem os artesãos ou agricultores... ninguém. Os pais da moça ficaram intrigados. O que havia acontecido? Por que a filha mais bonita era a única que não conseguia se casar? Resolveram consultar o Oráculo, pois lá o deus Apolo falava através de suas sacerdotisas e na certa poderia ajudar. No Oráculo, os pais de Psique souberam que a filha teria sim um amante. Mas seu amante seria uma criatura alada. E mais! Apolo aconselhava que levassem a jovem para o alto de um monte, onde o amante a encontraria. De início, eles se assustaram. Como poderiam entregar a filha a uma criatura com asas? Um monstro, na certa! Mas Apolo disse que o destino de Psique era aquele. E ninguém escapa impune de cumprir o próprio destino, por isso os pais levaram Psique a um monte deserto e deixaram a filha lá. Desesperada e sem poder acreditar que seus pais tiveram coragem de deixá-la naquele lugar deserto, ela chorou por horas a fio, até o cansaço vencer e fazer com que ela caísse no sono.

Quando despertou, Psique estava na melhor cama que já havia dormido. Deparou-se com muitas servas que tinham a ordem de servi-la bem. Ao longo do dia, percebeu que estava num palácio muito mais luxuoso que o de seus pais ou qualquer outro que já houvesse visitado. Quando, finalmente, a noite chegou, Psique conheceu seu amante. Ele entrou em seu quarto e, como estava escuro, a jovem Psique não conseguia ver seu rosto. Mas ele tinha uma voz tão linda! Ele falou a ela sobre seus sentimentos de amor e deu-lhe um aviso: eles viveriam bem desde que ela nunca olhasse para o rosto dele. Ela ficou curiosa, mas não teve muito tempo para pensar no assunto, pois logo em seguida o homem trouxe a moça para seus braços e beijou-lhe os lábios com ternura. Tiveram uma linda noite de amor e pouco antes de adormecer, Psique pensou que seu amante não devia se parecer em nada com um monstro, mas sim com um belo rapaz. Os dias se passavam em companhia de suas servas, Psique passeava pelos jardins do palácio, lia, divertia-se com música ou com o que desejasse. Mas nunca via o amante misterioso. Apenas no escuro da noite ele visitava sua cama e lhe dava noites com as quais nunca havia sonhado. Apesar da rotina ser agradável, do amante ser maravilhoso e de todos no palácio gostarem de Psique e fazerem de tudo para que ela se sentisse feliz, logo ela começou a sentir falta da sua família. O amante, então, permitiu que as irmãs viessem visitá-la. Elas ficaram impressionadas com a forma como Psique vivia. "Mas ainda assim, é um preço alto demais para ter que se deitar com um monstro." Uma delas disse antes de irem embora.

O comentário da irmã deixou Psique ainda mais curiosa a respeito de seu amante. Quem era ele? Não, não poderia ter a face de um monstro quando falava e a amava como um deus... ou podia? Naquela mesma noite, ela esperou que o amante adormecesse exausto ao seu lado e saiu. Foi silenciosa até o salão principal do palácio, pegou uma lâmpada a óleo e voltou aos seus aposentos. Quando ela se aproximou da cama, não podia acreditar! Deuses, ele era lindo e perfeito! O homem mais bonito que ela já havia visto! Psique não resistiu e curvou-se para beijá-lo. Mas ao fazer isso, um pouco do óleo quente da lamparina pingou sobre o ombro dele, acordando-o de súbito. O amante ficou furioso, pois muitas vezes havia pedido que Psique nunca olhasse para o rosto dele! Agora não havia volta, uma vez que passamos a conhecer uma realidade, não podemos mais fingir que ela não existe. Ele precisou revelar a ela que era o deus do amor, Eros. E, mesmo com o coração partido, teve que dizer que a história deles teria de terminar por ali. Psique tentou argumentar, mas Eros, sendo um deus, assumiu sua invisibilidade e foi embora. Ele foi até Afrodite, pois queria que ela curasse a queimadura em seu ombro causada pelo óleo. Quando a mãe lhe perguntou sobre o acidente, Eros não teve escolha senão contar sobre Psique. Afrodite ficou ainda mais furiosa! Quem aquela garota humana pensava que era? Ela não só ameaçava o culto a Afrodite com sua beleza, mas ainda teve a ousadia de ter um caso com seu filho! A mortal que se preparasse para sentir a ira de uma deusa enfurecida!


Psique só chorava. As servas não entendiam o que havia acontecido com a jovem... era sempre tão alegre e gentil... o que teria acontecido? Psique precisava clarear a mente. Não chegaria a lugar algum chorando daquele jeito. Ela sabia que agora, não apenas havia perdido seu amor, como na certa havia atraído para si a ira de Afrodite. Não tinha escolha, seu caminho era um só: se quisesse que sua vida fosse poupada, ela teria de ir até Afrodite e implorar seu perdão. Talvez tornar-se sua sacerdotisa e servir-lhe pelo resto de seus dias. O vento Zéfiro levou-a até a deusa, que ficou maravilhada pela chance de se vingar da mortal. Psique implorou por sua vida. Afrodite, com um sorriso perverso, disse à jovem que sua vida seria poupada... desde que ela cumprisse com perfeição algumas tarefas. Psique aceitou de pronto. Apesar de saber que dificilmente cumpriria as tarefas, tentar era melhor do que morrer.

A primeira tarefa seria separar uma pilha de sementes. Mas não eram sementes comuns. Eram as menores sementes que Psique já havia visto, de papoula, mostarda e painço. Aquela tarefa era impossível! Ela nunca conseguiria! Desesperada, Psique chorou. Chorou tanto que suas lágrimas caíram na terra. As formigas viram as lágrimas e, sentindo o desespero daquela bela jovem, decidiram ajudar. Elas carregaram as sementes e separaram as três pilhas distintas. Afrodite ficou furiosa! Até hoje as formigas tentam escapar de sua fúria, vivendo embaixo da terra!

A noite chegou e Afrodite deu à Psique apenas um pedaço de pão. Dormiu nas pedras geladas do chão e acordou com os primeiros raios de sol. Afrodite sabia que nada destruía a beleza como as privações e a dureza da vida. Era hora da próxima tarefa e desta vez Afrodite tinha certeza de que Psique não escaparia! A tarefa era ir até as ovelhas que a deusa mantinha junto a um rio e colher lã dourada. O problema era que as tais ovelhas tinham cabeças de leão e eram conhecidas por já haverem devorado muitos mortais. Outra vez, triste pelo destino terrível que a aguardava, Psique chorou. Mas logo percebeu que não era necessário arriscar sua vida, pois quando as ovelhas passavam junto de arbustos, um pouco dos fios de lã dourada ficava preso a eles. Psique recolheu dos arbustos tanta lã dourada quanto poderia carregar e levou depressa a Afrodite. Mas a deusa não desanimou. Ela deu um jarro de ouro a Psique e ordenou que ela buscasse água da foz do rio Estige, que separa o mundo dos vivos e dos mortos. A mocinha teria de escalar pedras escorregadias e, se não caísse e se afogasse, provavelmente se queimaria com a água quente... E ela provavelmente não teria terminado a tarefa sozinha. Mas uma águia apareceu, e levou-a em segurança até a catarata, onde ela pode encher o jarro com a água do rio Estige em segurança. Existem alguns boatos de que essa águia seria Zeus disfarçado, uma vez que a águia é um símbolo deste deus.

Cansada do joguinho, Afrodite resolveu terminar de uma vez por todas e enviar Psique diretamente à terra dos mortos. Ela teria de ir até lá e pedir a Perséfone, rainha do mundo dos mortos, um pouco de sua beleza. Poucos mortais foram ao mundo dos mortos e voltaram para contar a história. Só se sai de lá com a ajuda dos deuses. No caminho, Psique encontrou Hermes (algumas versões do mito dizem que encontrou apenas "um guia", mas é provável que seja Hermes, o deus da comunicação, um dos únicos a ter livre acesso ao mundo dos mortos, além de ajudar os viajantes e as "causas perdidas"). Hermes lhe contou que para entrar no mundo dos mortos era necessário pagar Caronte, o barqueiro, pela travessia do rio Estige. Mas Psique não tinha dinheiro. Hermes deu-lhe um bolo de mel, para que o desse a Caronte, pois o barqueiro adorava a guloseima e ficaria feliz em ajudá-la. Caronte ficou encantado com aquela linda jovem que lhe pedia o favor de transportá-la em troca de um saboroso bolo de mel. No mundo dos mortos, Perséfone foi muito gentil com Psique e lhe deu um pouco de sua beleza dentro de uma caixinha, com a ordem de não abri-la, a moça deveria apenas entregá-la a Afrodite. Mas, outra vez, a curiosidade foi maior e, no meio do caminho, Psique abriu a caixa, caindo num sono profundo.

Já curado de suas feridas e desesperado para ajudar a amada, Eros escapou do olhar de Afrodite e correu para socorrer Psique. Ele fechou a caixa e despertou a moça com um beijo. Disse então que ela deveria ir até Afrodite e entregar a caixa sem medo. Enquanto ela foi, Eros conversou com Zeus sobre seu amor por Psique e a situação desagradável com Afrodite. A resposta de Zeus foi simples e muito sábia: "Quando o amor físico (Eros, em grego) e a alma (Psyche, em grego) estão unidos, nem mesmo os deuses podem separá-los". Então Zeus mandou chamar Psique e lhe deu ambrosia, o alimento dos deuses, que a transformou em imortal. Desde então o casal vive feliz entre os deuses. Afrodite, por sua vez, ficou tão aliviada da jovem não viver mais na terra (e dos humanos retomarem seu culto), que no fim acabou sendo uma sogra muito simpática!


Questões para reflexão:

1- Além de achar este mito muito lindo, gosto dele por ser um dos poucos mitos gregos em que a mocinha é a heroína da história. Quem conhece um pouco de mitologia grega talvez já tenha notado que quase sempre que temos uma heroína e não um herói, a "busca" dessa personagem está relacionada às emoções ou à própria busca interior (com raras exceções). Entretanto, isso é apenas a forma como as buscas eram vistas na cultura grega antiga. As buscas humanas existem em todos os setores da vida, independente do sexo, gênero, orientação sexual, etc. É muito importante conhecer nossas buscas, pos só assim, tornando-as conscientes, é que podemos transformá-las em metas... e uma vez que sejam metas, estamos livres para ir ao encontro delas! Quais são suas buscas? Não falo das metas comuns, mas daquelas que urgem dentro de nosso coração de forma que não conseguimos fazê-las calar. Escreva sobre elas. Se não conseguir colocá-las em palavras, respire fundo, feche os olhos e volte-se para o seu centro. Então expresse a busca através de desenhos ou colagens. Pode não ser consciente, mas a busca está sim sendo expressa. Com o desenho feito, procure falar/escrever sobre ele, em especial sobre as sensações e sentimentos que sua obra (enquanto a expressão do seu inconsciente) te causa.

2- Repare bem nas tarefas que Afrodite deu à Psique: concentração (separar as sementes); solucionar um problema muito arriscado/difícil (trazer lã dourada); lançar-se ao desafio, envolver-se (buscar a água da foz do rio Estige); adentrar no inconsciente e tomar contato consigo mesma (falar com Perséfone, que no mito de hoje fez o papel da guia interior); tomar contato com a própria realidade interna (abrir a caixa), uma experiência tão intensa que a transforma (adormece e depois é despertada por Eros), da qual sai renovada (transforma-se em imortal). Este é o caminho de todas as nossas buscas. Nem sempre é algo tão dramático como no mito, mas é algo que pode ser percebido na nossa realidade externa ou mesmo em movimentos internos. Procure perceber, tendo consciência de sua(s) busca(s) como foi ou está sendo este caminho. Em qual parte dele você está, quais são mais difíceis ou mais tranquilas para você.

3- Sobre relacionamentos. O mito de hoje nos conta que um ponto fundamental dos relacionamentos é a confiança. Enquanto Psique confiou em Eros, tudo estava bem. Entretanto, apesar do relacionamento ser agradável, não era transparente, pois uma das partes (Eros) escondia algo da companheira (o rosto - a máscara que usa nas relações). Conhecer a realidade pode trazer conflitos, mas apenas assim, olhando para ela e solucionando os conflitos que surgem é que se pode estar verdadeiramente com o outro. Os melhores relacionamentos são aqueles em que ambas as partes se envolvem por completo. São estes os que nos transformam para melhor, pois suas dádivas e desafios nos ajudam a conhecer o que existe de melhor em nós e no companheiro(a).

4 comentários:

  1. Poxa, adorei! Mesmo!
    A muito tempo já havia me "esquecido" desse mito e lê-lo com tais reflexões é maravilhoso!
    Vou "roubartilhar" esse também.
    Muito obrigada Bia e meus parabéns.

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  2. Eu sou fã da mitologia Grega.
    Fiquei preso no texto.

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