terça-feira, 18 de junho de 2013

Mythos - Hohodemi e Hoderi: os conflitos

Hoje vamos trabalhar com um mito japonês que fala sobre justiça, honra e superação de conflitos. Havia dois irmãos que eram semideuses. O mais velho era arrogante e desconfiado. O mais novo, doce e gentil. Certo dia os irmãos decidiram fazer um pacto de sorte, trocando seus artefatos de caça. Hoderi, o mais velho, deu seu anzol e Hohodemi deu seu arco e flecha. Mas tão logo o negócio foi feito, o irmão mais velho pensou ter sido prejudicado pela troca e pediu para desfazer. Hohodemi concordou. No entanto, pediu que o irmão mais velho ao menos lhe emprestasse o anzol, pois gostaria de pescar. Assim foi feito. O gentil Hohodemi pescou numa ponta do mar, mas teve pouca sorte, não pegou nada. O mar turvo não é bom para pesca, pensou o rapaz. Juntou suas coisas e mudou de lugar. No entanto, no mar claro, Hohodemi teve ainda menos sorte: fisgou apenas um peixe... e esse peixe abocanhou o anzol de Hoderi e fugiu com ele! Quando notou o que havia acontecido, Hohodemi ficou desesperado! O que diria ao irmão?

Como previsto pelo jovem, Hoderi ficou furioso. Gritou para que todo o palácio escutasse que seu irmão era um aproveitador irresponsável! Hohodemi não podia deixar as coisas daquele jeito. Precisava consertar a situação. Sabia que o irmão não aceitaria suas desculpas. Então ele pegou uma de suas preciosas espadas e fez com ela 500 anzóis. Mas o irmão não os aceitou. Queria o anzol perdido e nem um outro. Hohodemi sabia que não poderia recuperar o anzol do irmão. Por isso, em mais uma tentativa de se desculpar e recuperar sua honra, pegou outra espada, ainda mais nobre, e fez mais mil anzóis! "Aqui está, irmão. Mil e quinhentos anzóis. Sei que não é o seu, mas é tudo o que posso fazer para me desculpar e recuperar minha honra e a confiança que você tinha em mim". O irmão, no entanto, voltou a dizer "quero apenas o anzol que te confiei e nenhum outro. Nada mais, nada menos!" Desesperado, Hohodemi voltou à praia. Procurar um anzol no mar seria impossível. Só havia um jeito de restaurar sua honra: praticar harakiri (o suicídio dos samurais, sempre com o objetivo de restaurar a honra ou "limpar o nome da família"). Mas pouco antes que Hohodemi pudesse alcançar sua adaga, apareceu o misterioso deus Shiko Zuchi, que lhe deu um sábio conselho: ao invés de tirar a própria vida, ir até o deus dos mares, pois certamente ele poderia lhe ajudar.

Chegando ao palácio do deus dos mares, Owatatsumi, Hohodemi contou a ele e a sua linda filha o que lhe havia acontecido. O deus dos mares o recebeu muito bem e disse que ele era bem vindo para estar em seu palácio por quanto tempo precisasse. Comovido pela história, o deus dos mares ainda ofereceu a Hohodemi escolher um entre seus valiosos anzóis para dar ao irmão e sanar a dívida. Mas Hohodemi lembrou-se das palavras de Hoderi: precisava ser aquele anzol.

Na terra, três meses se passaram e Hoderi estava inconformado com a irresponsabilidade do irmão. Enviou um servo do palácio para procurá-lo. E o servo não demorou a voltar, trazendo a notícia que Hohodemi e a filha do deus do mar se apaixonaram e decidiram se casar. E viviam felizes. Hoderi ficou furioso, e passou a dedicar seus dias a difamar o irmão.

A vida no palácio do deus dos mares era tão tranquila e boa que Hohodemi esqueceu-se completamente do irmão, do anzol e de sua dívida. Só tinha olhos para sua esposa e ela para ele. E assim viveram por três anos. Certa manhã, Hohodemi se lembrou do anzol! A fúria de Hoderi deveria estar pior do que nunca! O deus dos mares se prontificou a ajudá-lo. Chamou todos os peixes e perguntou se algum deles havia visto o tal anzol. Foi então que um peixe dourado se aproximou e disse que há três anos algo lhe machucava a garganta... O deus removeu o anzol da garganta do peixe e deu-o a Hohodemi, recomendando muita cautela ao devolvê-lo ao irmão. "Esteja pronto tanto para a paz quanto para a guerra", recomendou-lhe.

Quando chegou ao palácio onde costumava viver antes de seu casamento, Hohodemi procurou o irmão para lhe devolver o precioso anzol. Mas, ao invés de receber o irmão e o anzol com alegria, Hoderi ficou mais furioso do que qualquer pessoa poderia ficar! Esbravejava calúnias e lamentos sobre quantos peixes poderia ter pescado nesses três anos, dizia que Hohodemi era um irresponsável e que havia fugido de suas dívidas. E, possesso, correu atrás do irmão que, não querendo lutar com ele, fugiu para a praia. Hoderi fazia danças de guerra e de morte enquanto entrava no mar atrás de Hohodemi. As danças despertaram Namazu, um deus peixe gigante que, ao mover sua cauda, causava terremotos e maremotos. O mar muito agitado fez com que Hoderi se afogasse. Já Hohodemi, que tinha a bênção do deus do mar, pode nadar de volta para o palácio submarino, com a honra e a dívida sanadas.


Questões para reflexão:

1- O mito se desenrola ao redor de um problema (a perda do anzol). Ou melhor, o mito é sobre as estratégias de Hohodemi para solucionar o problema. Ele tenta reparar a perda com objetos substitutos (outros anzóis), tenta se desculpar e, quando não sabe mais o que fazer, pensa em desistir. Então pede ajuda a alguém mais sábio e experiente, no caso, o deus dos mares. Que estratégias você usa para resolver problemas e conflitos? Geralmente quando temos um problema sério à nossa frente, existe uma tendência a agir por impulso. O que seus impulsos te levam a fazer?

2- O peixe que havia engolido o anzol tinha problemas com a garganta. E você, tem ou já teve algo "enroscado" na garganta? Geralmente, esse algo é formado por uma massa de emoções não expressas e palavras não ditas. Um fato sobre as palavras: algumas vezes o não-dito pode ser tão destrutivo quanto o mal-dito. Esteja atento à forma como você tende a se expressar ou a guardar os conteúdos para si.

3- A raiva de Hoderi o levou à própria destruição. Na certa porque a raiva não foi bem trabalhada. Todos sentimos raiva algumas vezes, somos humanos... O que você faz com a sua raiva? Se ela tem o potencial de destruir, também tem o potencial de criar! Experimente expressá-la em palavras ou através das artes. Nesse processo, não se espante se ótimas ideias surgirem do potencial escondido em sua raiva.

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