terça-feira, 25 de junho de 2013

Mythos - Midas: os resultados das nossas escolhas

O Rei Midas, sobre quem vamos falar hoje, era um homem ganancioso. Estudiosos da mitologia concordam que esta personagem teria surgido do contato entre os povos gregos e os frígios, povo que vivia na Ásia ocidental. Lá pelo século VIII a.C., naquela região da Ásia, havia um rei no reino de Mushki, em grego, Mita, de onde teria vindo o nome Midas, que inspirou os mitos. Vamos a eles!

Dionísio, o deus do vinho e das diversões, tinha um filho chamado Sileno, que raramente era visto sóbrio (na Grécia, Sileno geralmente é retratado como filho de Dionísio; já em Roma, ele é pais adotivo de Baco, releitura romana de Dionísio). O problema é que, quando embriagado (sempre), Sileno se esquecia de onde estava, e isso preocupava muito a Dionísio. Enquanto perambulava pelo reino de Midas, Sileno provou o vinho excelente... e, por ser excelente, o homem não se contentou em apenas provar, bebeu com vontade. Como de costume, ele perambulava alcoolizado pela região. Acontece que lá havia um rio, com um violento rodamoinho, que já havia matado homens sóbrios. Por isso, quando Sileno caiu no rio, teria morrido afogado se Midas não o salvasse.

Muito agradecido, Dionísio disse que recompensaria o rei dando-lhe o que desejasse. E Midas, que como eu disse era muito ganancioso, pediu que daquele dia em diante, tudo o que ele tocasse se transformasse em ouro. Prevendo uma catástrofe, Dionísio lhe perguntou se estava certo disso, e Midas confirmou muito animado. E assim foi feito. No início, Midas adorou a novidade... transformava flores em ouro, objetos, pequenos insetos... Mas, como Dionísio previra, a bênção logo se tornou maldição. Tudo tem dois lados. Midas teve fome, mas quando tocava qualquer alimento, pão, fruta ou carne, a comida era transformada em ouro! Tentou comer com a ajuda de utensílios, mas a comida virava ouro assim que chegava aos seus lábios! O homem entrou em desespero... Quando a filha veio consolá-lo e o abraçou, Midas transformou a jovem numa estátua de ouro! Desesperado, Midas suplicou a Dionísio que lhe retirasse aquele poder. Tudo tem limites e, em alguns casos, ultrapassar certos limites pode ser ameaçador para a nossa própria existência... Dionísio lhe recomendou que se lavasse no rio Pactolo, e assim a magia se desfez. Desde então, misteriosamente, há muito ouro nas margens desse rio.

Após algum tempo, Midas se envolveu num concurso musical, do qual participava o deus Apolo (deus que conduz o carro do sol, deus civilizador e que segue os princípios da "justa medida", algumas vezes é mostrado ainda como deus da música). O juiz do concurso, o deus Tmolo (das montanhas, algumas vezes deus do rio) deu o prêmio a Apolo. Mais uma vez querendo o que não era seu, Midas foi ao deus Tmolo tirar satisfações! Cansado da discussão, Apolo interveio e transformou as orelhas de Midas em orelhas de asno. Em outras versões, Midas era o juiz do concurso e, por não dar o prêmio a Apolo, este lhe transformou as orelhas em orelhas de asno. De todo modo, independente de como tudo aconteceu, o fato é que as orelhas de Midas já não eram as mesmas. Por muito tempo, Midas escondeu suas orelhas sob um gorro. Apenas seu barbeiro conhecia a realidade e jurou guardar segredo, sob ameaças de morte por parte do rei. Mas a cada vez que ia cortar o cabelo de Midas, o barbeiro mal conseguia segurar as risadas! Gente, aquilo era engraçado demais para ser mantido segredo! O pobre homem tinha que dizer a alguém! Então o barbeiro foi até a margem do rio e cavou um buraco. Enfiou a cabeça no buraco e gritou para as profundezas da terra: "Midas tem orelhas de asno!" Por algum tempo, nada aconteceu. Mas logo um pequeno arbusto nasceu naquele buraco e, não demorou muito, o arbusto cresceu e ficou forte. E então o arbusto gritava para quem quisesse ouvir: "Midas tem orelhas de asno!" O rei Midas mandou arrancar o arbusto e matar o barbeiro. Mas continuou com suas orelhas de asno.


Questões para reflexão:

1- Midas sofreu com o toque de ouro porque o quis sem conhecer seus próprios limites. Ele não respeitou a si mesmo, tomando para si mais responsabilidade do que poderia suportar. Algo similar já aconteceu a você? Costuma assumir para si "bênçãos" ou responsabilidades que não são suas? Muitos dos conflitos psíquicos se manifestam no corpo sem que tenhamos consciência do que está por trás do sintoma. Costuma ter problemas na coluna (problemas de postura, dores, etc.)? Respire fundo. Quando soltar o ar, relaxe seus músculos. Sinta a questão saindo junto com o ar. Solte os músculos e solte junto as responsabilidades que não são suas!

2- Toda benção pode ser uma maldição: só sabemos se é uma "sorte" ou um "azar" vendo as consequências, não a coisa em si. Todo discurso pode ser usado como forma de opressão ou de libertação, dependendo dos argumentos que se use junto dele. Tudo tem dois lados. E, sempre, todos os lados da situação precisam ser conhecidos. Só existe autonomia, só somos livres, quando escolhemos. E só escolhemos de verdade quando conhecemos a fundo uma situação, com todas as implicâncias e possíveis consequências.

3- Para os gregos, sempre que um ser mitológico é retratado com alguma parte do corpo de animal, isso demonstrava que aquela criatura era inferior, tinha em si algo de bestial e sem a razão dos humanos e deuses. Lembrem-se que, para os antigos gregos, a razão e o equilíbrio são valores fundamentais. Acontece que o ser humano traz dentro de si tanto o potencial para a razão e para o equilíbrio quanto para as maiores bestialidades. Como você lida com esse equilíbrio? É saudável permitir que os dois lados se expressem. Isso pode ser feito tranquilamente através das artes (desenhos, modelagens, danças, música...). A arte nos ajuda a expressar conteúdos geradores de tensão de maneira mais tranquila.

4- Um comentário sobre os boatos: eles crescem e ganham força como o arbusto do mito. E, independente de serem verdadeiros ou falsos, Midas continuará com as orelhas de asno.

2 comentários:

  1. Dizem que uma mentira quando é dita muitas vezes ela acaba virando verdade.
    Para o boato basta um sopro.

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    1. É, boatos se espalham como fogo no mato seco. Temos que sempre ter ética com as nossas palavras: podem ser um milagroso remédio ou o mais terrível veneno, já dizia Sócrates!

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