quinta-feira, 6 de junho de 2013

O sol interior: reconhecendo o poder em si mesmo

"Não basta saber, é preciso também aplicar; não basta querer, é preciso também fazer." - Johann  von Goethe, escritor alemão (1749-1832)

Este artigo começou a partir de uma conversa com um de meus pacientes sobre poder. Não aquele poder da Justiça ou o poder do Estado. Nem o poder de uma instituição (empresas, escolas, instituições religiosas, etc.). O poder sobre o qual vamos conversar hoje é muito mais sutil. Algumas pessoas nem sequer percebem que ele existe. É o poder do dia a dia. O poder que temos sobre nós mesmos, sobre nossas vidas, nossos corpos e nossos caminhos.

O primeiro ponto é: de quem é esse poder? Por absurdo que pareça, muita gente sente dificuldade em encontrar o poder em si mesma. Ou mesmo em assumir que encontrou. E aí podem acontecer dois tipos de situação. A primeira, a pessoa que transfere seu poder para outros. Só vai a uma festa, por exemplo, se os amigos "forem também", mesmo que esteja com muita vontade de ir. Na hora de escolher a profissão, pensa nos desejos da família, no que aprovariam. Antes de decidir mudar de emprego, fica inseguro pensando em tudo o que "os outros" podem achar... Veja bem, não estou dizendo que nunca devemos considerar a opinião dos outros. Devemos sim. Não só porque eles podem ver a situação de forma diferente de nós, mas também porque muitas das nossas atitudes podem interferir na vida deles. O problema começa quando delegamos completamente o nosso poder para outras pessoas e passamos a agir apenas com base na opinião delas. O segundo tipo de situação acontece quando a transferência desse nosso poder para os outros é mais discreta. Algumas vezes vem camuflada na forma de competições ou de admirações exageradas, a pessoa coloca quem admira num patamar tão alto, tão inatingível, que esquece de perceber que essa pessoa também tem problemas e pontos fracos, esquece que ninguém é perfeito. E aí, seja por competição ou admiração, passa os dias correndo atrás do que o outro aprovaria e valorizaria, ou então tentando ser melhor do que ele, conforme o caso. Busca-se a superação sim, porém não de forma autônoma, mas para corresponder às expectativas que pensa que esse outro tem. De quem é o seu poder?

Nosso poder é o poder de fazer escolhas,
e com elas decidir sobre os nossos caminhos
Foto de minha autoria.
Isso nos leva a mais uma pergunta. Quem está em primeiro lugar na sua vida? Nunca deixo de me surpreender quando faço essa pergunta e a pessoa não me responde "eu!". Normalmente falam sobre os filhos, em especial o do meio, coitadinho, que tem bronquite. Ou sobre os pais já idosos. Ou sobre o chefe, ou os clientes, ou a esposa, marido, namorado... Aliás, mesmo em crianças pequenas se pode perceber esse movimento. Com crianças, o trabalho psicológico é mais lúdico, baseado em "brincadeiras" e desenhos, entre outros métodos. Muitas vezes a criança já demonstra essa questão de não assumir o próprio poder, o que posso ver num desenho sobre a família, por exemplo. Muitas crianças nessa situação desenham suas famílias e não se esquecem de ninguém. Colocam até mesmo aquela tia que mora em outra cidade, o irmão que pega no pé dela e até o animalzinho de estimação. Mas não desenham a si mesmas. E isso é muito triste, pois fica mais visível do que nos adultos o problema que não assumir nosso poder pode causar: não existimos! Até podemos estar lá também, mas não fazemos parte. Não porque os outros não nos aceitem, mas porque nós mesmos não nos consideramos.

A seguir, trago algumas ideias sobre o que fazer para tomar seu poder em suas mãos.
- O primeiro passo é aproximar-se de si mesmo. Se você se identificou com alguma parte deste artigo, talvez seja o momento de investir um pouco mais em autoconhecimento. Você pode fazer isso com a ajuda de um terapeuta. Mas independente de buscar essa ajuda, é preciso agir. Traga o poder para si. Se expresse sem medo, seja falando, escrevendo, através de música ou outras maneiras de arte. A arte é muito indicada, pois através dela podemos expressar conteúdos nossos que estão nas profundezas do nosso inconsciente.
- Mantenha o foco nas suas escolhas! Elas acontecem o tempo todo e sua vida só terá a sua cara se cada pequena escolha for bem pensada e decidida com consciência. Eu sei que é difícil. Mas é só assim que a nossa vida será, de fato, nossa. Porque sempre que nos deparamos com uma bifurcação no nosso caminho, se não tomamos a decisão de ir por um dos lados, outra pessoa fará isso por nós. E as consequências podem não ser boas. Claro que quando nós mesmo escolhemos também existem riscos. Mas, ao fazer uma escolha consciente, levamos em conta esses riscos e possibilidades. Não somos pegos de surpresa por um dragão ao entrar numa caverna, mas entramos na caverna com a ideia de enfrentar o dragão. E isso muda tudo.
- Estabeleça suas metas e o que precisa fazer para ir até elas. A caminhada pela vida nunca é aleatória. O que buscamos? Onde desejamos chegar? Tenha isso claro para si. Pode ser uma meta de vida, como formar uma família ou ter uma velhice tranquila... ou pode ser uma meta mais a curto prazo, como sair com os amigos no final de semana ou dar uma escapadinha no meio da tarde para tomar sorvete. Não importa, o fato é que precisamos ter metas se quisermos chegar a algum lugar. Precisamos planejar essas metas com cuidado e dedicação. Ah, e não tenha apenas uma meta, tenha várias. Em diversos setores da vida. Metas nada mais são do que sonhos que estão sendo colocados em prática. E nada anula mais o poder pessoal de uma pessoa do que matar os próprios sonhos.

Para terminar, vou ensinar uma técnica simples, mas poderosa. Este é um exercício de visualização, que pode ser feito como uma meditação dirigida. Costumo usá-lo com meus pacientes, em especial em casos de não assumir o próprio poder, ter dificuldade em fazer suas escolhas, enfim, insegurança. Mas também temos conseguido bons resultados em casos como depressões e síndrome do pânico, justamente por ajudar a pessoa a sentir o próprio poder, o calor do "seu" sol. Exercícios de imagem são poderosos, pois falam direto ao inconsciente. 

Vamos começar! Sente-se confortavelmente, mantenha a sola dos pés em contato com o solo. Sinta esse contato, sinta-se aqui e agora. Feche os olhos e faça três respirações profundas, inspirando pelo nariz e expirando pela boca. Sinta cada parte do seu corpo relaxar. Em especial, sinta seus pés, ventre, ombros, pescoço e testa relaxarem. Muitas tensões se acumulam nessas áreas. Continue sempre respirando profundamente, lentamente. Agora, imagine que há um pequeno sol dentro do seu peito. Um pontinho de luz e calor em meio à escuridão. Esse sol cresce, até preencher todo o seu peito. Sinta seu poder. Sinta seu calor. Veja a luz do seu sol iluminar cada parte do seu corpo, aquecendo, curando, dando forças... Veja a luz do seu sol se derramar a partir de você, ao seu redor, e depois veja como ela se espalha pelo ambiente, iluminando tudo ao seu redor. Você tem luz própria!

Tome o "seu sol" todos os dias, pelo menos uma vez. Sugiro fazer isso pela manhã, para começar o dia confiante e consciente do seu poder. Você pode repetir esse exercício sempre que quiser ou precisar, como antes de uma situação em que precise se sentir capaz de tomar suas decisões e agir em sua vida, sempre que precisar se sentir confiante. É fundamental ter consciência e/ou recuperar esse nosso poder. E é importante saber que o maior poder que alguém pode ter é o poder de fazer as próprias escolhas. Porque sem elas, nós não somos quem somos. Sem nosso poder de escolher, não somos ninguém.

2 comentários: