quinta-feira, 20 de junho de 2013

Quando não somos levados a sério

"Não espere por uma crise para saber o que é importante na sua vida." - Platão, pensador grego (427 a.C. - 347 a.C.)

Em algum tipo de contexto, já deve ter acontecido com você. Já aconteceu com todo mundo. Pensamos que somos parte de algo, geralmente um grupo (família, equipe de trabalho, relacionamento afetivo, grupo de amigos ou grupos mais amplos). Então algo fora da ordem dos dias comuns acontece... e descobrimos que não fazemos parte. Nunca fizemos. É como se a gente não existisse. Ou porque não somos aceitos. Ou porque não somos notados. Ou porque, estrategicamente, aquilo que representamos não tem valor e não é interessante para o grupo. Ou simplesmente porque "não era" para estarmos lá.

Aqui no Brasil, na minha época de criança, existia um termo para isso. Fulaninho é "café com leite". Geralmente era uma criança menor ou mais nova ou com algum tipo de dificuldade, que estava brincando também, mas as regras e benefícios do grupo maior de crianças não valiam para o tal do café com leite. Estava lá, mas ao mesmo tempo não estava. Ah, e geralmente ninguém contava para a criança mais nova que ela era café com leite. Deixavam a coitada imaginar que também estava lá brincando, que o grupo precisava dela e contava com ela... Mas que decepção! De repente você descobria que tudo o que você tinha feito, todos os seus esforços, todos os riscos que correu não valeram de nada. Porque era como se você fosse um ser humano de segunda categoria. Não estava lá convivendo com os outros. Você não contava. Só ocupava espaço.

Aquele momento chato em que a pessoa descobre que não é o que pensava ser...
Pelo menos para mim, poucas coisas são mais revoltantes do que descobrir que não somos parte. Ser café com leite na vida... Não somos considerados. Aquele momento no trabalho em que você se dá conta de que sua opinião nem sequer é ouvida. No jantar em família, quando você fala e alguém fala mais alto (geralmente sobre algo irrelevante aos seus olhos). Quando você percebe que não tem um lugar no grupo, seja esse grupo qual for. Seus deveres cumpridos não são reconhecidos e seus direitos não existem.

Percebo na prática clínica, e também nas minhas vivências e conversas com amigos, que geralmente a primeira atitude numa situação dessas é questionar. Por que não faço parte? Muitas vezes nem sequer somos parte de algum tipo de minoria que faça com que pessoas sem noção tenham algum tipo de preconceito. Então por que não somos aceitos? Muitas vezes ficamos tão envolvidos pela situação que tentamos encontrar o problema na gente mesmo. Talvez se fosse mais simpático, ou mais extrovertido ou mais pontual? Se eu me vestisse diferente ou levasse a vida mais a sério? É o meu sotaque? A minha origem? Minha condição social ou minha profissão ou minha idade?

Convido o leitor a dar um passo para trás. Vamos nos afastar um pouquinho da situação. De longe, ganhamos visão do todo e não apenas de uma parte da situação. Temos um grupo maior e uma pessoa ou grupo menor à margem. Acreditando que pertence ao grupo maior ou tomando consciência de que nunca foi parte dele, sempre viveu numa bolha ou num tipo de vácuo existencial. Vamos organizar! Observe e descreva para si mesmo o grupo maior. Quem são? O que fazem? O que planejam ou valorizam? Depois, olhe para a pessoa ou grupo menor. Quem é? O que faz? O que planeja ou valoriza? Geralmente ao fazer este exercício, esbarramos nos valores. Algumas vezes os objetivos até que são bem parecidos... mas quando chegamos na parte dos valores a coisa muda. E como muda!

Em especial, é interessante observar os valores pessoais/grupais. Nenhum tipo é melhor ou pior do que o outro. Os valores nos dão nossas referências, nosso "mapa" nos caminhos pela vida. Sei que já falei sobre isso em outros textos. Meus pacientes sabem o quanto toco neste assunto. Mas precisamos ter consciência dos nossos valores. Claro, muito dificilmente vamos encontrar grupos ou pessoas exatamente com os mesmos valores que os nossos. O ponto é que quando os valores não são semelhantes, é muito difícil que o outro/o grupo nos aceite.

Aliás, a questão aqui não é sermos aceitos. Ninguém pode obrigar o outro a aceitar nada, porque aceitar é uma postura interna e particular de cada um. Faz parte do olhar que damos a algo, a alguém ou a uma situação, e apenas nós podemos dar o nosso olhar. Mas é preciso existir respeito. Respeitar, sim, é um comportamento. É algo que deveria vir antes da escolha.pessoal. Respeito e consideração. Não é respeitar porque valoriza x, tal como a pessoa/grupo em questão. É respeitar porque é um ser humano como qualquer outro, com seus direitos de tomar as próprias decisões. É respeitar a centelha de vida que existe em cada pessoa, aquilo que nos torna criaturas capazes de olhar para o outro e mesmo com tudo diferente, reconhecer nele um semelhante. O resto é café com leite!

2 comentários:

  1. Belíssimas considerações, Bia. Se todos lessem, entendessem e aplicassem o q vc fala nesse texto, as pessoas se respeitariam mútua naturalmente. Cabeça aberta e vaidade sob controle é algo q pode salvar esse mundo!!! Excelente texto, parabéns!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Falou tudo, Helga, cabeça aberta e vaidade sob controle...
      Que legal que vc gostou, muito obrigada!!
      Bjs

      Excluir