sexta-feira, 19 de julho de 2013

Ágora - Problemas financeiros e limites

Oi Bia, tudo bem? Me chamo Adriele, moro no Rio e sou professora em uma pré-escola. Gosto muito do meu trabalho, mesmo sendo cansativo adoro cuidar de crianças e acompanhar as novas descobertas que fazem a cada dia. Mas o problema é o salário. Não é que eu ganhe tão mal assim, pois como a escola é de alto padrão, o salário dos professores é melhor... acho que na verdade o problema sou eu, gasto demais com coisas que na verdade não preciso. Um cafezinho, umas besteiras no supermercado, algumas revistas, compras que vou parcelando e de repente perdi o controle e gastei mais do que podia. Tenho muito problema para pagar os cartões de crédito, preciso recorrer a empréstimos de familiares e amigos com frequência e ja até perdi amizade com pessoas que gostava por causa disso. Meu noivo tenta me ajudar, mas ele é tão bonzinho, não tem coragem de me dizer os nãos que algumas vezes sei que preciso escutar. Como posso me organizar melhor? Como controlar esses gastos quando ninguém me diz não? Me sinto muito infeliz e deprimida e tambem ansiosa com essa situação. Muito obrigada. bjs
Adriele S. H. - Rio de Janeiro

Oi Adriele. 
Que situação mais desagradável. Problemas financeiros deixam mesmo a gente se sentindo insegura e ansiosa, pois no mundo em que vivemos é bem complicado conviver com dívidas.

Vamos aos poucos. Primeiro, precisamos conversar sobre limites. Você diz que seu noivo tenta ajudar mas não diz os "nãos" que você mesma já sabe que precisa ouvir. Quando somos crianças, a função de colocar limites em nós é dos adultos que tomam conta da gente. Conforme crescemos, vamos ganhando o direito de decidir por nós mesmos os nossos comportamentos e atitudes, o caminho que desejamos seguir na vida. Mas junto com esse direito, vem o dever, as responsabilidades. Toda escolha, mesmo que bem simplezinha, tem suas consequências, boas e/ou ruins. E se tivemos o direito de escolher, temos o dever de lidar com essas consequências das nossas escolhas. Desde criança, somos incentivados a projetar a autoridade em figuras de poder (pais, professores, instituições, polícia, leis, Estado...) ao invés de percebê-la dentro de nós. Mas a maior autoridade que precisamos seguir somos nós mesmos. O poder sobre a nossa vida está em nós, e junto com esse poder vêm as responsabilidades, entre elas, ter de dizer não a nós mesmos, algumas vezes. Claro que em situações difíceis sempre se pode pedir a ajuda de pessoas próximas como seu noivo, sua família e amigos, abrir a situação e pedir uma ajuda que não seja um empréstimo, mas sim a ajuda de se organizar e de dizer "não" aos gastos desnecessários. Mas é fundamental que você encontre essa autoridade dentro de si, não apenas pensando nos problemas financeiros, mas na vida e nas escolhas de forma geral.

Agora, sobre a questão financeira. É fundamental existir organização, pois só assim se pode perceber o todo da sua realidade e mexer nos aspectos que precisam de mudança. Algumas sugestões:
- Pare agora de fazer empréstimos. Não adianta nada resolver uma dívida arrumando outra nova.
- Cancele os cartões de crédito. Eu sei, são super práticos e é mais seguro pagar no cartão do que com dinheiro. Mas você pode se virar apenas com um, ao menos neste momento de maior dificuldade. Além de baixar os gastos, com apenas um cartão você controla melhor o quanto já gastou e o quanto ainda pode gastar.
- Sei que parece óbvio mas... Não gaste mais do que ganha. Mesmo que for receber o salário amanhã. Não comece o mês já com dívidas.
- Organize um livro de fluxo de caixa. É bem simples, você pode usar um caderninho (ou um arquivo no computador). Coloque a data e anote todos os recebimentos do dia e depois todos os gastos. No fim, coloque o valor total gasto naquele dia (mesmo com um cafezinho) e o total recebido. Além de mapear os seus gastos (assim sabe onde exatamente você se perde e o que poderia ser cortado), dá para perceber bem o dinheiro que temos disponível ainda.
- Especialmente para quem vive em grandes cidades, como é o seu caso, gasta mais pelo custo de vida ser maior. A boa notícia é que as cidades maiores oferecem diversas alternativas de serviços e diversão gratuitas, seja em ONGs, projetos sociais, universidades, SESCs, centros culturais, instituições públicas... Que tal conhecê-las e recorrer a elas? Existem sim muitos trabalhos gratuitos de qualidade.
- Neste momento, diga não e corte todos os gastos desnecessários. Cafezinhos, lanches (você pode levar seu lanche de casa, que além de ser uma opção mais barata, é mais saudável!), as tais "besteiras" no supermercado, evitar ligações pelo celular... Até que a situação mude, vamos nos ater aos gastos realmente necessários. E mesmo quando a situação mudar, é importante avaliar com cuidado antes de gastar. Preciso realmente deste produto ou estou apenas tentando compensar minhas frustrações?

Para terminar, quero falar sobre o sentimento de depressão. Este é um termo que caiu no popular. É normal nos sentirmos tristes, ansiosos ou frustrados nos momentos difíceis da vida, isso não significa que estejamos deprimidas ou estressadas... Depressão é doença! Você, na mensagem que me enviou, não apresenta o discurso de uma pessoa doente: tem planos e consegue ver a alegria e a beleza na vida apesar das dificuldades. Portanto, saiba que numa situação como a sua essa insegurança, esse tipo de sentimento é muito esperado... estranho seria passar por problemas e não sentir nada! O desconforto que você sente é um sinal que sua psique dá de que as coisas precisam mudar. Em atitudes concretas como as que sugeri, pois a questão da realidade externa precisa ser resolvida. Mas também precisa mudar dentro de você, Adriele. Precisa aprender a dizer não, até para si mesma, sem medo de desenvolver sua autoridade e colocar limites. Quando colocamos limites saudáveis, nos damos contornos, nos damos forma - conhecemos quem realmente somos. Precisa repensar seus valores e ir em busca daquilo que acredita que te fará feliz ao invés de se recompensar pelos dissabores e contratempos com gastos, é preciso ir ao encontro daquilo que faz sentido para você - e acredito que seja muito mais do que gastos com revistas e "besteiras".

beijo
Bia


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