quinta-feira, 25 de julho de 2013

As cores nas mandalas

"Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu número é serem postas no seu justo lugar." - Pablo Picasso (1881-1973), artista espanhol, um dos fundadores do cubismo.

Mandala, em sânscrito, significa "círculo". Ela é vista como um espaço sagrado, um espaço protegido, que pode levar à grandes transformações. Carl Jung considera a mandala um símbolo da nossa psique, sendo que quanto mais nos aproximamos do centro, mais fundo mergulhamos no nosso inconsciente. O que há no centro? Aquilo que Jung chama de self, ou si mesmo, que simboliza o equilíbrio, a união de opostos... O contato com o inconsciente sempre nos permite voltar transformados, por isso, quando unimos este objetivo às técnicas artísticas (como o desenho e a pintura), ganhamos o poder de construir e reconstruir a nós mesmos de maneiras mais equilibradas e harmoniosas. Até mesmo o simples fato de desenhar livremente dentro de um círculo já ajuda a pessoa a conseguir ou manter um nível de equilíbrio maior. Talvez você se lembre de uma conversa bem parecida com esta aqui... Clique aqui para rever o primeiro artigo sobre mandalas . Lá falamos sobre o conceito de mandala, seu significado em diversas culturas e os benefícios que o trabalho com mandalas traz, restaurando e mantendo o equilíbrio psíquico. Por isso, desta vez podemos partir do ponto em que paramos no outro artigo. Hoje gostaria de falar sobre alguns aspectos das mandalas. Entre esses elementos, podemos destacar as formas e as cores. Hoje vamos falar sobre as cores e numa próxima ocasião, se houver interesse dos leitores posso escrever sobre as formas.

Mesmo que sinta certo mal estar enquanto desenha ou pinta a mandala,
não pare. São as emoções vindo para a consciência, e deixá-las vir é
fundamental para o autoconhecimento e busca do equilíbrio.
Imagem: Bia F. Carunchio
Quando se trabalha com desenhos, pinturas ou outras formas de artes com objetivos terapêuticos, a análise dos elementos é muito interessante, pois nos dá dados concretos sobre o estado da psique com a qual trabalhamos. Essas análises permite que o terapeuta perceba dados como o nível de equilíbrio psíquico, os tipos de conteúdos emocionais externalizados e reprimidos, a possível presença de transtornos mentais e desequilíbrios e dados da própria dinâmica interior do paciente, isto é, como ele tende a funcionar. Enquanto as formas nos trazem dados "formais" (como atitudes e comportamentos, motivações, etc.), as cores representam nossa esfera emocional, a forma como sentimos e percebemos o mundo que nos cerca - e o nosso próprio mundo interior. Quando utilizamos recursos artísticos terapeuticamente, tendemos a projetar nossos conteúdos interiores no trabalho que criamos. Assim, o primeiro passo é desenhar e colorir a sua mandala ou apenas colorir uma mandala já pronta, se preferir (no fim do artigo anterior tem algumas, e também na nossa página no Facebook - clique! - você pode imprimir e colorir). Depois da mandala pronta, coloquei abaixo algumas informações sobre cores, assim se pode ter uma ideia dos conteúdos emocionais que aparecem com mais ou com menos frequência na sua psique. Lembrando que este trabalho, em casa por conta própria, NÃO substitui consultas psicológicas ou com outros profissionais de saúde, e nem tratamentos ou medicamentos como calmantes, antidepressivos e outros. É apenas uma forma de se conhecer melhor, o que pode, sim, ajudar a manter o equilíbrio psíquico, mas para ter certeza mesmo da sua dinâmica psíquica e do movimento emocional, é preciso ver um profissional e fazer uma avaliação psicológica completa. Dados como a história de vida, a história clínica e os sintomas do paciente podem interferir nesses significados e mesmo no uso de certas cores. Vamos aos dados sobre as cores.

- Vermelho: grande sensibilidade a estímulos, resposta afetiva imediata, tendência à impulsividade. Agitação e dinamismo, podendo levar à ansiedade. Cor ligada à sexualidade. Pode indicar desejo de poder (com tendência à abusos). Competitividade e forte desejo de sucesso.

- Rosa: afetividade. Em adultos, pode indicar um momento em que a afetividade está mais vívida, como quando nos apaixonamos. Indica sinceridade e sensibilidade, valorização da estética. Companheirismo e alegria. Se aparecer em excesso no trabalho de um adulto, em especial o rosa pálido, pode indicar certa imaturidade emocional, uma pessoa um tanto teimosa e "birrenta", cheia de medos e inseguranças que vêm de sua imaturidade. Em crianças o excesso de rosa não tem esse peso, pois se espera um grau de maturidade compatível com a fase do desenvolvimento em que estão.

- Laranja: Liderança. Tendência à sedução, no sentido de ganhar o outro para si, conquistando-o seja afetivamente, seja no plano das ideias. É a cor do fogo, e tal como ele, o laranja representa calor humano e emoção. Em graus equilibrados, indica boa sociabilidade, dinamismo e expressão aberta dos sentimentos. Sensualidade. Boa atividade, ou seja, é a pessoa que não só fala, mas também faz; muito voltada para a realização e atividades práticas, gosta de "por as mãos na massa". Se o tom de alaranjado puxando para o ferrugem aparecer em excesso, pode indicar cansaço exacerbado e mesmo certo desinteresse. Laranja em excesso pode indicar concretude de pensamento, ou seja, certa dificuldade em ir além do esperado ao lidar com emoções e ideias.

- Amarelo: responde aos estímulos de maneira eficaz e tende a pensar na adequação social de suas respostas e comportamentos. Racionalidade e inteligência, boa atividade cerebral, boa comunicação e gosto por aprender coisas novas. Discernimento e certo grau de idealismo. Boa atenção e concentração. Otimismo, é a cor do sol! Pode existir dificuldade em lidar com as emoções, com tendência a racionalizá-las em lugar de apenas vivê-las. Facilidade de comunicação e para trabalhar com grupos, lidera e orienta as pessoas ao colocar-se como um igual. Se for um tom de amarelo pálido, pode indicar medo, ingenuidade e indecisão.

- Verde: sensibilidade, paciência e autenticidade, relações afetivas muito significativas. Pessoa que consegue absorver bem os afetos do mundo externos e vê-los à luz de sua própria dinâmica interna, isto é, dá o seu próprio sentido ao que absorve do mundo. É a cor da ecologia, no sentido literal e simbólico, de pensar sempre no bem de todos com quem convive. Responsabilidade e determinação. Altruísta, e deve ter cuidado para não deixar-se sempre em segundo plano, priorizando os outros. Em excesso, pode indicar ansiedade.

- Azul: É a cor do oceano, e denota profundidade maior ou menor (em termos de emoção, sensibilidade e intuição) de acordo com o tom. Paz interior, harmonia e autoconfiança. Pessoas que usam muito azul com frequência tendem a ver um sentido muito especial na vida, e com isso contagiam aqueles com quem convivem. Sinceridade, grande preocupação com o outro, manifestando isso através de cuidados e carinho. Já o azul bem pálido denota indecisão, uma pessoa muito tímida que interioriza demais os conteúdos externos e guarda tudo dentro de si, podendo se sobrecarregar, pois nem sempre podemos lidar com tudo sozinhos. Azul em excesso, pode indicar o controle racional das emoções, uma pessoa guiada por pensamentos como "posso, mas penso que não devo". 

- Violeta ou roxo: A espiritualidade tem um papel importante na visão de mundo dessa pessoa (não necessariamente uma religião, pode se mostrar na forma de valores éticos bastante fortes, altruísmo, etc.). Criatividade. Tende a olhar para o lado bom de tudo, transformando experiências de sofrimento em fatores positivos que ajudam em seu desenvolvimento. Equilíbrio, carisma e introversão. Pode indicar uma pessoa mais sonhadora. Também é interessante pensar que esta cor é formada pela mistura de vermelho e azul. Isso significa que pode haver certa tensão interna, como a presença de conflitos entre os impulsos afetivos e o autocontrole.

- Marrom: É a cor da terra, e isso se traduz em solidez, foco, alguém que se empenha em manter os pés no chão, a viver no mundo concreto (e se orgulha disso). Bom nível de organização. Ego forte, persistência. Pode se mostrar como uma pessoa muito formal e um tanto rígida, que dá pouco espaço à imaginação e às fantasias. Em excesso, pode indicar teimosia, resistência passiva (por exemplo, a criança que não faz birra, mas também não faz o que foi pedido). Pode indicar, quando usado em excesso, certo grau de melancolia e tendência a comportamentos de obsessividade. Nesses casos, há desequilíbrio da energia psíquica, que pode estar estagnada. É preciso fazê-la circular, aliviando um pouco a rigidez e o formalismo!

As cores neutras são interpretadas pela psicologia como fuga dos estímulos emocionais. Algumas vezes nosso mundo interno pode ser confuso e até assustador. Certa vez um paciente que vivia uma adolescência muito tumultuada expressou isso de forma sábia e sensível: "sei que colorido ficaria mais bonito, mas ainda não me sinto pronto para isso". Então, após algumas sessões de trabalho, ele finalmente trouxe as cores para sua mandala - e as emoções que sentia para sua realidade. É importante saber respeitar o próprio tempo e as próprias necessidades, sem forçar cores/emoções em campos em que ainda não nos sentimos confortáveis com elas. Seguem os significados das cores neutras:

- Preto: É a ausência de cor. Repressão de conteúdos emocionais. Pode indicar grandes desequilíbrios, com agressividade (em especial voltada para si mesmo, pois a emoção é reprimida: sintomas físicos e psíquicos, pesadelos e problemas de sono, medos, baixa autoestima, insegurança, tendência a comportamentos de risco como o abuso de drogas ou mesmo colocar-se repetidamente em situações de perigo, etc.). Pode indicar, ainda, um trauma não superado. Sentimentos de melancolia e tristeza reprimida, se for frequente, é possível cogitar um quadro depressivo. OBS - Falamos aqui de um uso excessivo de preto, e não de um detalhezinho, ok?

- Cinza: Cinza mais claro mostra que a pessoa está em transformação, possivelmente descobrindo novos talentos, habilidades ou características (um contato saudável com a própria sombra). Tons mais escuros indicam sentimento de solidão, desequilíbrio e certa confusão mental. Se for algo ocasional, pode indicar um período de cansaço ou estresse maiores que o habitual para a pessoa. Quem usa cinza em excesso (tons escuros, em especial) tende a "não perceber" os estímulos emocionais da sua realidade para não ter de reagir a eles. A pessoa tende a negar suas emoções e percepções, termos como "não sei" ou "não vi" são frequentes no discurso de pessoas com excesso de cinza em seu trabalho.

- Branco: Soma de todas as cores. Inconstância, vulnerabilidade, impulsividade, desestrutura. Pode indicar uma pessoa "apagada", insatisfeita, que está envolvendo-se numa busca por si mesmo. Se usada em detalhes que harmonizam com as demais cores, pode ser positivo, indicando uma pessoa sensível e ética, que aceita bem a diversidade e tende a ter um bom equilíbrio entre o mundo interno e externo. Se for muito excessivo, a postura interna da pessoa está passando por mudanças.

Quando penso sobre cores, gosto de considerar as expressões linguísticas que as envolvem, como "amarelou de medo", ficou "vermelho de raiva" e por aí vai. Se expressões assim existem, pode ter certeza que se refletem no nosso mundo interno e ajudam a construí-lo, pois interiorizamos o mundo através da linguagem. Como vimos, o significado das cores pode variar não apenas de acordo com os tons, mas também de acordo com cada história de vida e com a maneira como a cor é utilizada. É importante destacar que o nosso movimento emocional não é sempre igual, como o nome diz, é um movimento, está em constante mudança e transformação. A manutenção do equilíbrio psíquico tem por objetivo, entre outros fatores, garantir que esse movimento seja como uma dança fluida e harmoniosa, e não um movimento inconstante e desengonçado. Trabalhar com mandalas é um dos meios possíveis para alcançar e manter este equilíbrio mas, acima de qualquer trabalho ou forma de terapia, é preciso existir o trabalho interior consigo mesmo, ou seja, a pessoa precisa se envolver consigo mesma, com suas necessidades, conflitos e desejos, pois apenas assim ela será uma parte ativa de seu processo de transformação.

6 comentários:

  1. Oi, Bia.
    Abri seu post e fiquei olhando minha mandala do parto. Muito interessante! Fico aguardando o post sobre as formas. Tem muitas estrelas, luas e caracóis na minha mandala.
    Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que legal, Clarissa, os símbolos que vc mencionou são muito ligados ao feminino (criação, o cuidar, o mundo da vida - oposto às burocracias e à rigidez do sistema). Para depois do parto, isso foi bem harmonioso e equilibrado, mostra um bom envolvimento com a situação da maternidade e com o seu bebê. O artigo das formas deve sair logo mais, em janeiro.
      Beijo

      Excluir
  2. Olá! Estou iniciando os estudos sobre mandalas e gostaria de ler seu próximo texto falando sobre a influência das formas geométricas. =) Gostaria de saber se tu pode compartilhar a fonte/referência que você usou pra falar das cores também. Muito boa sua página! Agradeço desde já! Paz e Bem

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada! O texto sobre as formas geométricas http://biacarunchio.blogspot.com.br/2014/01/mandalas-as-formas-e-simbolos.html
      As fontes que uso são os testes psicológicos projetivos (de personalidade), os manuais, estudos prévios e mesmo os estudos realizados com base nesses testes e procedimentos trazem essas informações.

      Excluir