segunda-feira, 22 de julho de 2013

Matéria sobre relacionamentos amorosos e sexualidade na 3a idade

Hoje gostaria de dividir com vocês o texto da jornalista Joyce Moysés, que foi publicado ontem, dia 21 de julho de 2013 na Revista AT do jornal A Tribuna, em Santos. É uma matéria sobre relacionamentos amorosos e sexualidade na terceira idade, para a qual dei depoimento técnico enquanto psicóloga. Confira a matéria a seguir.


Prorrogação de amor e sexo

O amor está no ar para quem já experimentou e quer sentir de novo e de novo. Não há começo nem fim para a sexualidade e a troca de carinho, tampouco idade. Leia e comprove. 

Joyce Moysés 

Os avanços tecnológicos na Medicina surtiram efeitos fabulosos. E um deles foi oferecer a todos nós uma longevidade que até uma década atrás não imaginávamos ter. Você já parou para pensar que ganhou a chance de respirar por pelo menos mais 25 anos que as gerações passadas? Fato é que o crescente envelhecimento da população trouxe novos comportamentos, condutas e desejos. Como o de prolongar os prazeres do afeto e da sexualidade, contrariando a sentença antiga de que lugar de idoso é dentro de casa, afundado no sofá, dormindo com a tevê ligada. Vide a declaração recente da atriz Suzana Vieira, 70 anos, a apaixonada Pilar de Amor à Vida, de que, enquanto fizer mulheres que dão beijo na boca, estará satisfeita com seus personagens na TV. E o bafafá em torno do biquíni da Betty Faria? Há poucos meses, a atriz rebateu as críticas lembrando que não vai se envergonhar de ter envelhecido nem abafar seu prazer, alegria, humor.


Também passou da hora de liquidar com o mito de o sexo perde o encanto na terceira idade. Cerca de 50% das pessoas acima de 60 anos, de ambos os sexos, estão fazendo amor a cada 15 dias pelo menos, segundo pesquisa da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira, gestora do hospital paulistano Albert Einstein. “Aquelas que já tinham uma vida sexual satisfatória antes da menopausa, geralmente não sentem tanta diferença na diminuição do desejo”, afirma Carmen Janssen, sexóloga, palestrante e membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. No seu projeto “Maturidade, Muito prazer”, cerca de 65% das mulheres na faixa dos 60 anos declararam que fazem sexo e que não pretendem abrir mão do prazer enquanto puderem, segundo a expert, que recebe em seu consultório várias mulheres maduras, geralmente viúvas ou separadas, em busca de um novo amor.


“O cérebro precisa de estímulos de prazer para gerar mais prazer”, avisa Aparecida Favoreto, psicóloga, terapeuta sexual e mestre em Saúde Coletiva. “Felizmente, em Santos há muitas atividades para pessoas da terceira idade promovidas pelas faculdades, prefeitura, ONGs”, diz ela, que faz sua parte coordenando uma roda de conversa sobre amor, sexo e relacionamento todo último sábado do mês na Cafeteria Ao Café, no bairro do Boqueirão, às 8 da noite (é gratuito, chama Café na Kama, e tanto jovens quanto idosos estão convidados!). “Mas o Brasil, no geral, ainda não acordou para a necessidade de um investimento social voltado para a terceira idade, com espaços de lazer, atividade física adequada, orientação sexual... É ridículo ir a um baile, pensar em arrumar namorado(a)? Nada disso. É possível chegar aos 80 anos com ótima disposição física e mental."


Ter uma visão mais moderna sobre a sexualidade na maturidade é fundamental, pois são vários os aspectos positivos, segundo Carmen Janssen. Os filhos já cresceram, não há perigo de gravidez nem pressa. E o casal pode se curtir com muito mais tranquilidade, principalmente se ambos tiverem saúde e se souberem se adaptar

às mudanças fisiológicas que foram surgindo ao longo dos anos. “É muito importante que o casal valorize o carinho e o erotismo. Não se trata de forçar o desejo, mas de criar uma atmosfera propícia para que ele se desenvolva”, continua a sexóloga Carmen, sugerindo a todos assistirem ao filme Um Divã para Dois, lançado em 2012.


Decidida a acabar com o tédio em seu casamento de 30 anos, a atriz Meryl Streep (63 anos) encarna uma dona de casa que faz sexo oral no escurinho do cinema, treina a técnica levando bananas para o banheiro e decide procurar um famoso terapeuta de casal. Para isso, convence o marido - um contador que gruda os olhos na tevê, dorme no quarto de hóspedes e deixou há muito tempo de dar atenção à mulher. Nas sessões um tanto incômodas, os dois têm de falar de suas fantasias e fazer exercícios de resgate do toque (como um massagear o corpo do outro)... Numa entrevista coletiva, Streep declarou: "Este filme é uma oportunidade para falar intimamente de coisas que têm importância para gente da nossa idade de uma forma como não se vê no cinema.”


Como sexualidade é uma expressão pessoal, algo que está em todo o nosso ser, e não apenas o ato sexual, não tem hora para começar nem terminar. Portanto, não precisa ir embora com a menopausa feminina e a andropausa masculina. Nas palavras de Beatriz F. Carunchio, psicóloga e neuropsicóloga, mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP: “Ao mesmo tempo em que nossa sociedade cobra que todos demonstrem ter uma rotina entre os lençóis bastante intensa, é preconceituosa quanto à orientação sexual, práticas na cama e até mesmo fases da vida. Na terceira idade, desfrutar da sexualidade e de relacionamentos amorosos, além de ajudar a manter a saúde física e psíquica, cultiva o sentimento de não estarmos sós, de que temos alguém com quem dividir as belezas e os conflitos do dia a dia”.



 Novos corpos e papéis

Verdade que fatores como a aposentadoria, as mudanças do corpo e a saída dos filhos de casa podem mexer com a estrutura do casal. “Conforme amadurecemos, ganhamos novos papéis e perdemos alguns. É comum que as pessoas demorem um pouquinho para se acostumar, da mesma forma que também pode ser difícil para o(a) companheiro(a) reconhecer a mudança dos papeis do outro, continuando a exigir as atitudes e os comportamentos de antes”, explica Beatriz, aconselhando como ponto crucial a prática da conversa sincera, em que o casal fala e escuta com liberdade e respeito as ideias e os sentimentos do outro. “Não é só gritar as mágoas. É estar atento às palavras que são ditas, pois são sempre carregadas de sentido e de história. E, assim, o casal se conhece e se reconhece a cada dia, mantendo a cumplicidade, o movimento e tudo mais que

os unem.”


Carmen Janssen complementa: com orientação médica, exercícios físicos mantêm o fortalecimento dos músculos e dos ossos, além de proporcionar a saúde geral e trazer mais disposição física e mental. E Aparecida Favoreto ressalta que resgatar o romantismo e o espírito de diversão de quando eram jovens também é salutar: “Que tal o casal se arrumar para sair, passear pela orla de mãos dadas, trocar beijos na matinê do cinema, dançar juntinho? Também indico aos meus pacientes exercícios como um dar banho no outro, começando por ensaboar as costas. Mas aviso: intimidade não é tirar a roupa, é abrir a alma. Assim como oriento a cuidar com carinho da própria individualidade. Para alguns, a vida às vezes parece tão sem prazer! É preciso levantar o astral, cuidar do psicológico para sentir-se bem na própria pele. Porque, aí, a pessoa consegue estar bem com o outro, tem brilho, encantos, energia”.


Beatriz lembra-se de ter atendido uma mulher na faixa dos 55 anos, que tinha muitos problemas no relacionamento com o marido, incluindo na área da sexualidade. Apesar de ouvir que precisaria transformar a si mesma (seus comportamentos, as palavras que usava e o jeito de olhar para a vida), ela insistia em esperar que uma atitude diferente partisse do outro. “Em casos assim, costumo incentivar antes de tudo que a pessoa se conheça. Sugeri até usar um espelhinho para ver suas partes íntimas, mas ela reagiu com susto. Contou que, até mesmo na hora do banho, costumava tirar a roupa de costas para o espelho para não olhar para o seu corpo. Difícil querer um relacionamento gostoso com alguém quando a pessoa não se sente à vontade nem com ela mesma - e não quer mudar isso.”



Quando a pessoa se volta para o seu íntimo, se envolve com ela mesma e com a realidade em que vive, a situação muda. “Como no caso de uma mulher que, aos 83 anos, procurou ajuda, pois sentia muitas dores e caminhava para um quadro depressivo sério”, exemplifica a neuropsicóloga. Viúva por duas vezes, há muitos anos havia desistido de tentar de novo, alegando não ser mais uma mocinha. Mas, no fundo, sentia demais a falta de um relacionamento amoroso, de um companheiro. Conforme trabalhamos sua história, seus amores, suas perdas... e o processo terapêutico evoluiu, as dores e a depressão melhoraram, a paciente sentia-se mais revigorada diante da vida e decidida a encontrar o terceiro marido! Alguns meses depois, ela se casou com um homem na faixa etária dela, também viúvo, também com o desejo de encontrar uma companheira. E são felizes

juntos”, finaliza Beatriz.


Matéria publicada no Jornal A Tribuna, no dia (21/07/2013), em Santos, SP.


Joyce Moysés é jornalista e escreve semanalmente na Revista AT, além de dar palestras sobre as transformações trazidas pelas mulheres no mercado de trabalho, sociedade e cultura.

Email da autora - joyce@joycemoyses.com.br

2 comentários:

  1. Belo texto, e minha parte preferida:
    ''Quando a pessoa se volta para o seu íntimo, se envolve com ela mesma e com a realidade em que vive, a situação muda.''
    Parabéns!!!!

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    http://l-desconhecido.blogspot.com.br/2013/07/dessa-vez-dessa-vez-quero-ser.html

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    1. Muito obrigada,Vanessa! Fico feliz de saber que gostou. Vou passar no seu blog! :)
      Beijos

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