terça-feira, 9 de julho de 2013

Mythos - Kinich Ahau: trazer a sombra para a luz

Como algumas pessoas já sabem, hoje temos um mito da civilização Maia. O povo maia foi um povo pré-colombiano que vivia na América Central. Era uma civilização bem desenvolvida: estudavam o céu e os fenômenos da natureza (prevendo fenômenos como terremotos com precisão espantosa), tinham seu próprio sistema de calendário e de marcação do tempo (o que significa que estudavam e valorizavam a história), possuíam linguagem escrita e tinham até mesmo um sistema de água encanada! Ao contrário de diversos povos nativos, os maias não eram nômades, eram fixos no espaço em que viviam, onde construíam cidades com praças, templos e diversos tipos de edifícios com arquitetura característica, para os mais diversos fins. Os descendentes dos maias sobrevivem até hoje, e alguns de seus idiomas ainda são falados em certas regiões.

O mito que eu gostaria de contar é o de Kinich Ahau. O domínio deste deus é bastante vasto: é o deus do sol, da música e da poesia, mas também das doenças e da finitude da vida (lembrem-se que o sol nasce e também se põe). Geralmente era representado como um homem maduro ou já idoso, com um espiral saindo da ponta de seu nariz e, algumas vezes, com barba. A jade era uma pedra muito utilizada em suas representações, bem como cores solares (amarelo, vermelho, laranja...). Kinich Ahau era ainda associado aos guerreiros maias (fortes e implacáveis como o sol quente da América Central) e aos governantes e líderes, que tinham uma ligação especial com este deus (note que ter essa ligação é bem diferente de ser o representante do deus na terra ou uma personificação, como muitos povos antigos consideravam seus líderes).

Kinich Ahau é um deus que considero muito interessante pelo seu poder de mudança. Durante o dia, ele é o sol (para os maias, a mesma palavra era usada para dizer tanto "sol" quanto "dia"). À noite, se transforma em jaguar e vaga pela escuridão. Ele era o próprio sol, por isso, se não estava no céu, na certa estaria em outro lugar - envolvido em outras atividades. É interessante perceber que o jaguar é um dos principais predadores da região em que viviam os maias. E fica o mistério no ar: por que o sol, aquele que governa e permite que a vida se mantenha, à noite, nas sombras, se transforma no maior dos predadores? Até mesmo os deuses têm sua sombra! É nas sombras do nosso inconsciente que se escondem lados nossos que não se mostram à consciência. Como são esses lados? Como seria viver com eles? Só saberemos se fizermos tal como Kinich Ahau e nos permitirmos vagar pelas sombras de tempos em tempos!


Questões para reflexão:

1- Como o mito sugere, é saudável dar tempo e espaço para que a sombra se revele. Você pode fazer isso através da arte, do contato com os sonhos ou da análise simbólica de seus comportamentos e/ou sintomas. Experimente.

2- Todos temos outro lado. Ninguém é apenas o que demonstra ou o que acredita ser. Carl Jung chamava de "sombra" esse nosso lado desconhecido. A sombra sempre aparece de alguma forma. É importante trazê-la para a luz, para a consciência. Apesar dela nunca se tornar completamente consciente, é nesse processo de descoberta que descobrimos quem realmente somos. Algumas pessoas entendem que na nossa sombra está o nosso lado "ruim" e isso não é verdade. Pelo menos não é completamente verdade. Lá também estão características e habilidades que não tivemos a chance de desenvolver. Por exemplo, uma pessoa muito insegura na certa tem um lado bastante confiante na sombra - e pode se beneficiar muito por trazê-la para a luz! Qual é o seu outro lado? O que se esconde ou se ofusca por trás das luzes de sua consciência?

3- Kinich Ahau é o sol que traz luz e calor, seguindo uma trilha certa pelo céu a cada dia; mas é também um jaguar, predador que vaga pelas sombras da noite e por caminhos incertos. Ele transita entre diferentes mundos e, quando isso acontece, se transforma. Por quais mundos você transita? Que nova "forma" (papel, função, cargo, características, etc.) assume em cada um desses "mundos"?

4- Sente-se confortavelmente: vamos meditar! Feche os olhos e respire profundamente. Sinta o ar entrar e preencher o seu corpo. O ar é purificador. Você pode imaginar que o ar entra com a cor azul, que se espalha por cada parte do seu corpo. Respire fundo, concentrando-se na respiração (sensação e som) e na cor azul que entra em seu corpo e te preenche. Imagine que, ao soltar o ar, partes de sua sombra, características suas despertam nas profundezas da psique vêm à luz de sua consciência, trazidas pelo ar que sai. O que você vê, ouve ou percebe? O que chega até você com o ar que entra e sai? De que cor o ar sai? O que emerge com ele? Faça essa respiração por alguns minutos (três minutos é o suficiente para pessoas que não têm o costume de meditar; se você está acostumado, pode fazer por mais tempo). Abra os olhos. Pegue papel e lápis de cor e desenhe sem pensar demais, sem se preocupar com a beleza do desenho ou com o que você está fazendo. Este é o desenho que veio da sombra. Finalizar com o desenho é importante para trabalhar (ainda que via inconsciente) os conteúdos, emoções, pensamentos e sensações que emergiram da nossa sombra. Uma vez que a sombra se revela, precisa ser trabalhada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário