terça-feira, 2 de julho de 2013

Mythos - Mani: Renascer

Alguns leitores pediram mais mitos brasileiros, por isso hoje trouxe um mito dos índios Guarani, uma das etnias indígenas mais presentes na América do Sul, incluindo grande parte do Brasil e de outros países, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O mito que veremos hoje fala sobre os renascimentos, aquelas fases da nossa vida em que nos renovamos de tal forma que parece que nos tornamos outras pessoas, o que geralmente acontece após uma grande crise.

Em certa aldeia de índios Guarani, a filha do cacique (o líder da tribo) ficou grávida. No início o cacique ficou furioso com a filha, pois ao invés de lhe dizer quem era o pai da criança, a jovem apenas dizia que não sabia, pois nunca havia namorado qualquer homem. O pai, é claro, não acreditava. Ele brigou com a filha e  chegou até a rogar pragas, implorando aos deuses que punissem a filha por sua teimosia em não lhe contar quem era o pai de seu bebê. Mas certa noite, o cacique dormiu e sonhou. No sonho, aparecia um sábio que lhe dizia que a filha não estava mentindo, e mais! A criança que ela trazia no ventre salvaria todo o povo. Arrependido, na manhã seguinte o cacique fez as pazes com a filha. Ao fim da gravidez, nasceu uma menina linda, mas ao contrário de todos na tribo, a pele da criança era clara, tão branca como nem o cacique, nem o pajé, nem qualquer pessoa na tribo já havia visto. Toda a tribo ficou curiosa para conhecer a criança de pele branca, que recebeu o nome de Maní. O pajé, ao olhar para Maní disse ao cacique e a sua filha que a criança trazia em si muita magia e que realizaria um grande feito, salvando todo o povo. O cacique lembrou-se do sonho e ficou intrigado, mas não disse nada.

O primeiro ano se passou tranquilo. Maní era uma criança saudável e tranquila, todos na tribo gostavam de ficar perto da menininha. Ela aprendeu a andar e a falar depressa, era esperta e muito alegre. Mas certa manhã, algo aconteceu. As mulheres da tribo correram para a oca (casa) em que Maní e sua mãe viviam assim que ouviram os lamentos da jovem. A garotinha estava morta. O pajé tentou usar suas ervas, seus feitiços e orações, mas nada dava resultado e ele logo percebeu que não havia o que fazer. Maní não havia estado doente ou coisa assim. A criança que salvaria a tribo apenas se deitou para dormir, fechou os olhos e morreu. Junto com as esperanças de todos.

A mãe de Maní decidiu enterrar a filha ao lado de sua oca (em outras versões do mito, a menina é enterrada dentro da oca). Como era costume em seu povo, todos os dias a jovem regava a sepultura da filha. Em pouco tempo, nasceu uma planta que ninguém na tribo conhecia. A planta cresceu depressa, mas não deu frutos ou folhas comestíveis. Queriam arrancá-la, mas a mãe não permitiu. Arrancaram assim mesmo e a planta voltou a nascer. E de novo, e de novo... até que pararam de arrancar. Após mais algum tempo, as raízes da planta cresceram tanto que saíram da terra. Logo viram que a raiz era comestível e muito saborosa. Deram ao novo alimento o nome de manioca (oca de Maní), que se tornou mandioca, alimento básico na alimentação dos povos nativos. E assim, Maní salvou seu povo, alimentando a todos.

Como sei que muitos leitores não vivem aqui, para quem não conhece, esta aí ao lado é a mandioca! É uma raiz muito saborosa e rica em nutrientes, com a qual se faz farinha, sopas, bolinhos fritos, doces, bolos, pães... Também é consumida cozida ou frita, como petisco. Repare que apesar da casca ser escura, a parte comestível da mandioca é clara como a pele de Maní!

Em outra versão, certa noite uma linda mulher chegou à tribo. Seu nome era Maní e sua pele era muito branca. No início todos desconfiavam dela, pois nunca haviam visto alguém com a pele branca... Mas a moça era bondosa e gentil e se mostrou digna de confiança. Ela cuidava de todos na tribo e tal como na outra versão, certa manhã a mulher foi encontrada morta, sem sinal de doença ou de violência. Foi enterrada e de seu túmulo nasceu a mandioca.

Mani é cultuada como a deusa da mandioca e do amendoim. É uma deusa representada como uma mulher de pele muito clara, uma deusa bondosa e que alimenta a todos que necessitem. Não apenas com mandioca ou alimentos, mas com esperança, com a certeza de que sempre haverá fartura.


Questões para reflexão:

1- O que te alimenta? Claro que não estamos falando de comida... O que te sustenta e te da forças para continuar mesmo durante as crises e fases mais difíceis da vida? Isso que nos sustenta (uma atividade, uma crença, um ideal, uma meta, um sentimento...) geralmente está relacionado ao sentido que damos à nossa vida.

2- Que áreas da sua vida você gostaria ou sente que precisa passar por um renascimento ou ser melhor alimentada? O que é necessário morrer para que isso aconteça? Se não souber responder com palavras, pegue papel e alguns lápis de cor. Comece traçando um círculo, de preferência numa cor escura ou terrosa. Ah, um círculo grande, certo? Pode usar um prato como molde. Agora sim, desenhe dentro do círculo. Faça seu desenho da forma mais livre possível, sem pensar muito. Desenhar dentro do círculo é uma atividade que nos permite colocar para fora as nossas emoções mais profundas, pois nos sentimos seguros (o círculo está relacionado à proteção, ao "estar no útero da mãe").

2- Nas duas versões do mito, após morrer como pessoa, Maní ressurge como deusa (note que a planta e o alimento são vistos como representações da deusa, e não como seres divinos em si). Após um acontecimento que foi ao mesmo tempo doloroso para a mãe e para a tribo e iniciático para Maní (pois a morte também é um rito de passagem), é que se dá a transformação. Perceba que todo o mito é contado do ponto de vista dos humanos vivos. Não sabemos o que acontece a Maní após sua morte e como ela se torna deusa ou se já era uma deusa desde seu nascimento. Tudo o que sabemos é que após a morte da criança e o surgimento da mandioca, a deusa Maní passa a ser cultuada. Assim são as transformações mais profundas da nossa vida: nem sempre sabemos explicar com palavras como aconteceram, só percebemos a distância entre o que somos e o que costumávamos ser.

4 comentários:

  1. Esse mito é muito especial pra mim, foi o primeiro que eu pesquisei para a escola rsrsrs.
    Engraçado como não pude evitar de lembrar de outros sacrifícios como este, como Jesus entre outros que deram a vida pela humanidade.

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    1. Tendo ideias aqui para um futuro texto... o "deus" que morre. Se a gente reparar bem, muitas culturas tem uma personagem assim. Ou o "rei" que morre, o sacrifício do lider, do "melhor" da tribo ou da aldeia, que garantiria a sobrevivência do grupo por mais um ciclo. São mitos muito fortes, que trabalham a gratidão e também os ciclos de vida-morte-renascimento, algo bem transformador.

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    1. Muito obrigada, Cristina. Que legal que gostou.
      bjs

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