terça-feira, 30 de julho de 2013

Mythos: O deus desconhecido: a angústia do não ser

Hoje vamos conversar sobre um mito do povo Romano. Aliás, diferente das outras semanas, hoje não temos exatamente um mito a ser contado. Mas havia um costume muito interessante em Roma, o culto ao deus desconhecido. Como já comentei outras vezes, os romanos eram um povo cujo maior foco era a conquista. Chegaram a conquistar todos os territórios ao redor do Mediterrâneo. Uma coisa muito interessante sobre esse povo é que eles tinham a mente bastante aberta às culturas dos povos que conquistavam ou com quem conviviam de algum modo. Se achavam a ideia boa, adotavam! Por exemplo, com os etruscos (povo da Península Itálica), os romanos aprenderam a construir templos e outras obras de engenharia, como um tipo de ponte (utilizando arcos em sua construção, o que tornava a obra mais resistente) e um sistema de esgoto avançado para a época; além disso o povo etrusco influenciou na troca da monarquia romana pela República (apenas mais tarde Roma passou a ser um império). Culturalmente, é provável que a maior influência tenha sido dos gregos, pois a religião romana era, em boa parte, uma releitura da religião grega. E já que chegamos ao campo da religião e dos mitos, uma curiosidade interessante: antes de construírem templos, o local onde os romanos faziam seus cultos era a casa, cultuando principalmente os espíritos de antepassados, sempre cultuados perto do fogo. Esses espíritos familiares eram chamados lare (de onde vêm palavras como lar e lareira). Mas este tema fica para uma próxima vez.

Esquema de um templo romano. Repare que o altar é o elemento em destaque, onde eram feitos os sacrifícios e oferendas. Em alguns casos, as paredes eram decoradas com encenações do mito da divindade homenageada. Era frequente ter de subir degraus para se chegar ao templo (o cristianismo herdou isso, muitas das igrejas católicas ficam no alto de uma escada), subir os degraus para entrar no templo simboliza um caminho, deixar o mundo comum, do dia a dia, e entrar no mundo dos deuses.
Quanto aos mitos, muitas pessoas pensam que os deuses dos romanos eram os mesmos dos gregos, o que não é verdade. Uma releitura é bem diferente de uma cópia. Ao adotar deuses e deusas de outras culturas, os romanos precisavam interpretar aqueles mitos e cultos, e ao interpretar, não há como não dar o seu próprio olhar ao fato, transformando-o em algo único e diferente daquele que lhe deu origem. Com a expansão do território romano e o contato com mais povos, os romanos conheceram ainda mais deuses. E foi então que se passou a cultuar o deus desconhecido. Quem era ele? Ninguém sabe, nem mesmo os romanos... Mas a ideia por trás do culto era bem prática: quando conheceram diversas culturas, os romanos perceberam que seus deuses não eram únicos, existiam muitos deuses! E cultuá-los ou não, trazia grandes consequências para os romanos. Caso não prestassem os cultos adequados às deusas da terra e da colheita, por exemplo, o povo romano corria o risco de ter uma safra pobre, problemas climáticos, invernos rigorosos demais, etc. Caso alguém falecesse e não prestassem as homenagens devidas aos deuses ligados à morte e ao submundo, a alma do falecido vagaria por muito tempo pelo limiar entre os mundos dos vivos e dos mortos até encontrar a paz...

Mas e se eles deixassem de prestar culto a algum deus, não por negligência, mas por desconhecimento? Não se poderia nem mesmo prever as consequências, pois ao não conhecer o deus em questão, também não seria possível saber qual era o seu domínio. Resolveram a questão construindo altares em honra ao "deus desconhecido". Os cultos eram simples. Todo ritual é a encenação de um mito (discurso). Assim, quando o deus em questão não é conhecido, seu mito também não é. E sem um mito, como criar um ritual e um sistema de culto? Complicado. Os romanos resolveram de vez a questão ao criar um sistema bem simples: um altar dedicado a esse deus, onde as homenagens seriam feitas na forma de oferendas. Assim, ofereciam sangue de animais sacrificados, para o caso de ser um deus mais ligado às batalhas ou à morte, por exemplo, mas também ofereciam pão, leite e mel, para o caso de seu domínio ser um pouco mais tranquilo, como as colheitas a fartura, bem como ofereciam flores para o caso de ser algum deus ligado a renascimentos e estações do ano, e por aí vai... No fundo esta foi a forma que os romanos encontraram para lidar com as incertezas, com o desconhecido. Isso mostra um grau de maturidade grande, pois existia a compreensão de que se não conhecemos algo, isso não significa que a coisa não exista e menos ainda que não interfira na nossa vida. Ter essa consciência e tomar atitudes preventivas demonstra maturidade e estratégia.


Questões para Reflexão:

1- A motivação dos romanos ao construir templos para o deus desconhecido nos fala sobre uma situação comum na vida de todos nós: a forma como lidamos com o desconhecido e as consequências que pode trazer. E você, como lida com aquilo que não conhece? Em quais áreas da sua vida você mais teme o contato com o desconhecido - e suas consequências?

2- O deus desconhecido não era conhecido porque não se sabia sua história, e assim, não podiam supor se existia ou não. Conheça sua própria história. É este conhecimento que nos permite existir em todo o nosso ser, não apenas enquanto corpo e mente, mas como seres inseridos num contexto que nos influencia e que, ao mesmo tempo, também podemos influenciar. Ter consciência da nossa história nos permite transformar nosso presente e futuro, pois nos mostra que somos seres ativos e autônomos na construção da nossa história, do nosso mito.

3- Quando os romanos decidiam que tipo de oferenda levar ao altar do deus desconhecido faziam algo que hoje chamaríamos de planejamento estratégico. Isso é bem simples. Apesar de não saber quem era o deus em questão, os romanos podiam supor, e faziam isso observando os detalhes a sua volta (como se os campos ou talvez o clima precisasse de atenção). Você usa este tipo de planejamento estratégico na sua vida? Como você costuma fazer?

4- O maior risco que um deus desconhecido corre é o risco de não ser, de "não existir", e a angústia que isso traz. Não apenas deuses da mitologia correm esse risco. Você consegue identificar personagens, lados seus, que são como o deus desconhecido? Aqueles lados nossos que até desconfiamos que exista, mas que pouco sabemos sobre ele? Tenho uma proposta: conhecê-lo. Tudo o que não conhecemos sobre nós está no mundo do inconsciente. O que precisamos fazer aqui é permitir que o inconsciente se revele. Você pode fazer isso com atividades artísticas, meditando e observando que sensações, emoções e pensamentos surgem ou mesmo "pedindo" que esse seu lado desconhecido (algumas vezes chamado de sombra) se mostre em seu sonho. "Convide" a sombra quando estiver na cama, pronto para adormecer, com uma frase curta e simples como "minha sombra é bem vinda nos meus sonhos desta noite". Conhecer-se é a melhor maneira de ter o poder de escolher o próprio caminho.

2 comentários:

  1. Este Deus realmente é desconhecido.
    Eu curtia mais mitologia Grega e não a romana, vai ver que é por isto que sou tão leigo.

    Eu procuro sempre fazer humor de textos que escrevo sobre acontecimentos. Acho que temos que superar e rir na cara de quem pratica atrocidades. Ah! Claro, de vez em quando dar umas porradas porque ninguém tem sangue de barata - rss

    No teu caso acho que foi mais elogio do que preconceito kkkkk

    Bjs

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    1. hahaha acho que sim... :)
      E com certeza o humor é um sinal de superação e maturidade nesses casos.
      bjs

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