terça-feira, 16 de julho de 2013

Mythos - Oxum: a cura através do amor

Atendendo a alguns pedidos, hoje vamos trabalhar com uma deusa da mitologia africana, Oxum. Essa deusa também é muito cultuada no Brasil, em religiões de origem africana como o candomblé e em religiões com influência de elementos afro, como a umbanda. É cultuada ainda em outros países da América, como Cuba e Haiti. Quando os europeus trouxeram povos africanos para a América como escravos, eles trouxeram uma rica bagagem cultural, da qual fazia parte um sistema religioso baseado no culto aos Orixás, divindades da natureza que, juntas, garantiam a harmonia do mundo.


Oxum é uma orixá relacionada ao amor. Acredito que os leitores já devem ter notado quantas deusas e deuses são relacionados ao amor. Afrodite, Eros/Cupido, Hathor... É interessante perceber que o amor não é sempre o mesmo, tem diferentes faces, existem muitas formas de amar. Oxum está relacionada tanto ao amor materno (sob a proteção desta orixá ficam as mulheres grávidas e as crianças que ainda não sabem falar, bem como a ela se relacionam a fertilidade, o parto e a maternidade), mas também ao amor familiar (na África, as escolhidas de Oxum costumavam atuar como conselheiras em casos de conflitos familiares e/ou doenças) e ao amor apaixonado, pois esta orixá é sempre retratada como uma mulher muito bonita e sedutora, rege a beleza e a intimidade. Além do amor, Oxum é a orixá das águas doces. Na África, há um grande rio que leva seu nome, sendo que a orixá e o rio são a mesma entidade. É ainda relacionada ao ouro e às riquezas, sejam elas materiais ou mesmo a riqueza emocional de ter uma vida plena de amor.

Conta o mito que Oxum desejava Xangô, orixá dos raios e trovões. Disse então à Obá, orixá guerreira das águas revoltas e esposa de Xangô, que ele preferia a comida dela, Oxum, a de Obá. A esposa então ficou ávida para saber qual o segredo culinário da linda jovem. Oxum pregou-lhe uma peça: disse que colocava partes de seu corpo na comida. Obá foi cozinhar para o marido e cortou a própria orelha, misturando-a ao prato que preparava. Xangô ficou possesso! Não apenas o sabor era horrível como a esposa estava mutilada. Quando Oxum apareceu para espiar a situação do casal, Obá a atacou. E no embate, ambas se transformaram em rios. Conta-se que até hoje, no ponto em que o Rio Obá encontra o Rio Oxum as águas são muito revoltas e não se misturam.

Conta outro mito que certa vez uma linda princesa se afogou nas águas do Rio Oxum. Todos ficaram muito tristes com a morte da jovem, mas tiveram uma grande surpresa. Logo após o enterro, a princesa reapareceu, coberta de jóias de ouro e com roupas magníficas, presentes de Oxum. E ela reviveu transformada.


Questões para reflexão:

1- Oxum é uma divindade que cruzou um oceano. Esse símbolo, de deixar a terra natal e se estabelecer em outra é muito forte e traz profundas transformações: a Oxum que se cultua na África é diferente da Oxum que se cultua no Brasil, por exemplo. Claro que a base é a mesma, mas pequenas mudanças aconteceram, como se a orixá se adaptasse à sua nova terra e seus filhos adaptassem os cultos à nova realidade. Pensando nisso, gostaria de propor a você que pesquisasse a história da sua família. Oxum é uma orixá muito ligada à família. De onde vem sua família? O que você sabe sobre sua terra ancestral e a cultura de lá (práticas, crenças, mitos, costumes, história...)? Você mantém essas práticas hoje em dia? Por que sim ou por que não? Caso mantenha, quais alterações a prática original precisou sofrer para se adaptar ao novo contexto? Nesta pesquisa, você pode falar com membros mais velhos da sua família e/ou recorrer a documentos.

2- Vamos construir uma linha do tempo! Você vai precisar de um pedaço grande de papel (papel craft é o ideal, se não tiver, pode ser cartolina), algumas canetinhas e material para desenho. Use as informações que você conseguiu na atividade anterior e construa a linha do tempo da sua família. Você pode incluir eventos básicos (nascimentos, mortes, casamentos, separações, imigrações...) e também eventos complementares, que dão o colorido à história da família (outros eventos, como viagens, formaturas, festas, mudanças de casa, de trabalho, doenças, perdas, ganhos...). Quanto mais eventos, melhor. A ideia é que, ao construir a linha, a pessoa se aproprie da própria história (no caso, da história da família). Você pode colar fotos, ilustrar com desenhos, enfim, é uma atividade totalmente livre. Aliás, se membros da sua família quiserem participar desta atividade, a linha pode ser construída por todos juntos, isso costuma ser bastante proveitoso.

3- Oxum é muito ligada ao corpo e à beleza. Para este exercício, você vai precisar de um espelho (melhor se for grande) e privacidade. Tire suas roupas e se admire no espelho. Sem vergonha e sem julgamentos de feio/bonito. Apenas olhe para o seu corpo. Olhe para cada pequena parte isolada, começando pelos pés e terminando no rosto. Cada pessoa é única. Cada pessoa é linda do jeito que é. Qual é sua beleza? Onde ela mora? Você a conhece? Usa a sua beleza a seu favor ou a esconde?

4- Olhando a fundo o significado de Oxum, podemos pensar na cura através do amor. No último mito, após se afogar no Rio Oxum, a princesa retorna coberta de ouro (metal ligado simbolicamente ao sagrado e às transformações profundas) e com lindas roupas (uma nova roupagem, nova forma de perceber a realidade). Convido você a entrar no rio. Sente-se confortavelmente em algum lugar silencioso onde não será interrompido. Veja-se na margem de um rio refrescante e convidativo: o Rio Oxum. Tire suas roupas e entre no rio. Sinta a água envolver seu corpo... como é a sensação? A água é gelada ou menos fria? Vá mais fundo, apenas a sua cabeça está para fora do rio. As águas do Rio Oxum passam por você e carregam com elas tudo aquilo que já não tem mais lugar na sua vida: sintomas, medos, crenças limitadoras, situações, emoções, lembranças... Permita que as águas sábias te limpem, veja essas coisas deixando seu corpo na forma de um líquido escuro. Respire fundo e afunde a cabeça no Rio Oxum enquanto prende a respiração. Quando não aguentar mais, volte à superfície e respire fundo, como a criança que respira pela primeira vez. Você se transformou. Vire-se para a margem e caminhe em direção a ela, transformado e coberto das jóias do ouro de Oxum. As suas jóias são suas referências de felicidade, sucesso e boa saúde. Podem ser ainda características que você talvez precise, como autoconfiança, melhorar a autoestima, falar mais o que pensa, aprender a dizer "não", etc. Enquanto se seca ao sol, agradeça às águas pelo presente e pela ajuda. Veja como as jóias brilham. Elas são suas e pode usá-las sempre que precisar. Enquanto o sol te seca, sua pele absorve suas "jóias". Agora elas são parte de você.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Não duvido! Bem a sua cara ser filha de Oxum...
      Hummm... pensando aqui em como ficaria ver os orixás como arquétipos (me aguentem com os arquétipos!! Ainda vou falar deles por aqui!).

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  2. Uma das melhores coisas na minha vida foi aprender a dizer não!! O resto foi mais fácil. rs....rs....

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    1. hahaha é bem difícil no começo, mesmo... Mas saber dizer não quando queremos é um respeito e também um carinho com nós mesmos. Além de economizar um bom tempo e energia psíquica!

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