sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Ágora - Como falar de sexo com a minha filha?

Olá, Bia. Meu nome é Alex e sou de Minas Gerais. Perdi minha esposa a 10 anos e desde então crio meus filhos sozinho, eles são minha maior riqueza. Mas as crianças crescem. Meu filho mais velho já tem 16 anos e é um bom rapaz, faz planos de estudar direito. O problema é minha filha mais nova, que tem 11 anos. Ela é uma menina tranquila acho que na verdade o problema sou eu, vejo que o corpo dela está mudando e sei que logo vai se tornar uma mocinha. O meu problema é que não tenho a menor ideia de como conversar com ela sobre essas mudança e também sobre sexo.  Com o meu filho foi mais fácil, mas com ela eu me sinto muito envergonhado de falar sobre isso mas sei que preciso falar. Até podia pedir pra minha irmã falar isso com ela, mas a gente se ve pouco porque ela mora em outra cidade, além disso acho que é meu dever como pai. Tenho medo que se eu não disser nada ela não vai saber lidar com essas coisas de mulher ou que alguém se aproveite da inocência dela. Muito obrigado.
Alex - Minas Gerais


Olá, Alex!

Sei como é difícil para um pai ou uma mãe criar filhos sozinho/a. Cada fase da vida deles nos traz novos desafios e novas necessidades, nos fazendo repensar nossas próprias posturas e ideias frente à vida. Você está muito certo ao dizer que é preciso, sim, falar com a sua filha sobre as transformações da puberdade e também sobre sexualidade. Aliás, acho importante que se fale sobre esses temas mesmo para crianças pequenas, respondendo com sinceridade e naturalidade as suas perguntas. Costumo orientar meus pacientes que têm crianças ou adolescentes para que a conversa sobre o corpo e sobre sexualidade seja uma rotina na família, e que seja tratada com a naturalidade de um assunto de almoço de domingo.

Sua filha provavelmente também percebe as mudanças que acontecem no corpo dela. No começo, o ideal é manter uma postura aberta, para que ela se sinta bem caso queira perguntar algo ou conversar. Não vai ajudar muito se, ao conversar com a menina, você estiver mais ansioso do que ela com a situação. Ela perceberá essa ansiedade e entenderá que a sexualidade é algo para se envergonhar ou para manter uma postura tensa, e isso não é legal, não vai fazer bem a ela. Por isso, antes de tudo olhe para si mesmo e sinta as transformações que já estão ocorrendo na sua família com naturalidade. Como você mesmo disse, as crianças crescem, e logo você deixará de ser pai de uma menininha para se tornar o pai de uma mulher linda e forte. Acostume-se a esse seu novo papel.

Conversar com os filhos (sobre sexualidade ou sobre o tema que for) não pode ser uma "aula" em que os adultos falam e eles apenas escutam meio constrangidos. Precisa ser um diálogo, uma conversa em que todos podem falar o que pensam e sentem. Para isso, é preciso que exista uma relação de confiança, uma relação aberta em que os adultos se mostrem receptivos a ouvir as crianças e adolescentes. Além disso, é importante respeitar o momento deles, respondendo ao que perguntarem de forma sincera e clara e, muito importante, informando de acordo com a idade dos filhos. Se a menininha de 5 anos pergunta sobre menstruação, a resposta não precisa ser tão detalhada quanto se a filha de 11, já na puberdade e prestes a menstruar, resolver conversar sobre o tema, pois as necessidades de cada fase são diferentes. Isto é, a criança precisa entender sobre o que estamos falando, sem ficar sobrecarregada com informações que ainda não fazem sentido para ela.

Antes da conversa, Alex, sugiro que você pense muito bem sobre suas próprias ideias a respeito da sexualidade e sobre a sua visão de mulher. Essas ideias dos pais interferem bastante na forma como os filhos vão lidar com isso ao longo da vida. Quais ideias e valores você quer passar para sua filha? Quais crenças a respeito da sexualidade feminina você acredita que a tornará uma mulher mais em paz com ela mesma? Algumas vezes nós adultos temos ideias mais rígidas, transmitidas a nós pelos nossos pais, e a eles pelos nossos avós, e assim por diante. E, quando repensamos, vemos que nem sempre essas ideias ainda servem para o mundo de hoje. Ou mesmo que sirvam, algumas vezes concluímos que não são esses valores que farão nossos filhos felizes e realizados.

Outras sugestões: você pode comprar ou emprestar na biblioteca da sua cidade um livro próprio para a idade dela que fale sobre puberdade e sexualidade, para ela aprender mais sobre o próprio corpo. Existem até mesmo livros de anatomia com ilustrações bem didáticas das transformações que o corpo passa nessa fase, próprios para crianças e adolescentes. Outra opção é, depois que ela menstruar, levá-la a uma ginecologista para que ela converse e tire suas dúvidas. Lembrando que essas opções NÃO substituem a conversa com a família, que é sempre fundamental para que os jovens se sintam aceitos e seguros. Para terminar, há algum tempo conversei aqui na Ágora com a Gabi, uma menina de 12 anos que queria saber mais sobre menstruação, talvez seja interessante para vocês. Clique aqui para ler.

beijo,
Bia


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