sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ágora - Perigos do contato com o inconsciente

Bom dia! 
Estou escrevendo para propor uma discussão para a Ágora. Leio sempre seus textos e vejo o quanto você fala sobre entrar em contato com o inconsciente e em permitir que ele se manifeste. Acho legal o jeito que você fala como se fosse uma viagem ou uma aventura mas queria saber se não existe algum tipo de risco nisso?
Atenciosamente,
Lúcio Silveira - São Paulo


Bom dia, Lúcio!

Gostei da sua pergunta, sei que muitas pessoas têm esse receio de entrar em contato com o inconsciente e ter complicações. É interessante começar pensando sobre riscos e perigos de forma geral. Tudo o que fazemos oferece riscos de alguma forma, mesmo que sejam riscos muito pequenos. Até mesmo conversar sobre algo tranquilo com um amigo querido pode nos fazer lembrar de experiências tristes. Mesmo ficar em casa sentado no sofá não quer dizer que nada de arriscado vá acontecer... Viver é passar por experiências, e isso pressupõe algum risco. Quando fazemos pesquisas científicas em que alguém se candidate a participar do estudo, a pessoa precisa ser informada dos riscos que corre e assinar um documento afirmando que está ciente e que concordou em ajudar no estudo apesar dos riscos. Em psicologia, algumas pesquisas recebem a classificação de "riscos mínimos". Certa vez fiz uma pesquisa sobre ídolos da mídia e pensei em entrevistar pessoas para que falassem sobre seus ídolos. A pesquisa recebeu a classificação de risco mínimo: apesar de ser um tema muito tranquilo de se falar sobre, não conheço a história de quem vou entrevistar e talvez haja o risco do assunto lembrar a pessoa de algo desagradável. Sempre existe um risco, em tudo.

Mas vamos ao inconsciente! Quais os riscos que a descida até o inconsciente pode trazer? Eu diria que depende muito de três fatores: como o contato é feito, o que existe lá e, principalmente, como a pessoa irá lidar com o que encontrar no inconsciente. O ideal é que o contato com o inconsciente seja feito de forma bem planejada e tranquila. Existem técnicas para isso: relaxamentos, técnicas de hipnose, meditações... No nosso inconsciente fica guardado tudo aquilo que não está na nossa consciência, em camadas mais profundas (como o momento do seu nascimento, um trauma muito grande, partes da nossa sombra que ficam muito reprimidas...) ou mais superficiais e que chegam com facilidade à nossa consciência (como detalhes da conversa que tive ontem com um amigo). Isso quer dizer que, de certa forma, o nosso consciente e o inconsciente estão sempre em contato de alguma maneira. O que essas técnicas fazem é dar uma ênfase maior ao inconsciente. Mesmo em hipnoses muito profundas, a consciência é apenas rebaixada, nunca anulada. Isso significa que a pessoa sob hipnose nunca dirá ou fará nada que vá contra seus princípios.

Na minha forma de perceber, o maior risco que o contato com o inconsciente pode nos trazer é o de não sabermos lidar com seus conteúdos, independente de quais sejam eles. Por isso, é preciso ter recursos. Nossos recursos nos fortalecem e nos permitem lidar melhor com os desafios, tanto os do inconsciente quanto os do dia a dia. Recursos podem ser referências de sucesso (a lembrança vívida de que já passamos por algo semelhante e nos saímos bem), habilidades, estratégias, prever as possíveis consequências das nossas ações, ter um plano B, enfim, tudo aquilo que aumenta a nossa autoconfiança. A ironia é que só ganhamos esses recursos conforme vivemos e nos arriscamos. Não existe vida sem risco.

Como controlar esses riscos? Primeiro, não mergulhe sozinho no inconsciente se estiver inseguro. Antes, se fortaleça. A ajuda de um profissional de psicologia pode ser bem vinda. Além do psicólogo auxiliar no processo de fortalecimento, ele pode atuar como um "guia" na sua jornada pelo inconsciente, ajudando a solucionar conflitos que possam surgir. No mais, o contato com o inconsciente é bastante enriquecedor. Esse contato com nosso lado mais profundo aumenta a confiança que temos em nós, pois nos permite descobrir coisas a nosso respeito que nem imaginávamos.

beijo,
Bia


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