sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ágora - Suicídio: quando a vida pesa demais

Bia, não sei mais o que fazer. Tenho um amigo e gosto muito dele. Desde quando a gente era mais novo ele sempre foi um garoto mais quieto, mais triste, mas é uma pessoa boa e tem diversas qualidades, só ele que não vê. O problema é que de uns tempos pra ca ele está muito triste mesmo, acho até que ele deve estar com depressão. Ele não quer sair de casa nem pra fazer coisas que antes gostava de fazer, está sempre irritado ou então muito triste, mas sempre quando tento falar com ele, ele diz que não sabe por que se sente assim. Ele tem 21 anos, devia estar fazendo várias coisas, mas esta de licença do trabalho e parou a faculdade. Não se diverte, come muito pouco, os poucos amigos que tinha foram ficando pra tras, ele está um trapo! E semana passada eu tentava falar com ele, convencer a comer pelo menos um pouco e foi aí que ele me contou que algumas vezes planeja formas de se matar. Ele me contou várias, descreveu todos os detalhes! Diz que essa vida é pesada demais, que ele se sente cansado e triste, que é uma vergonha pros pais dele (não é, os pais dele amam ele e se preocupam), que ia ser melhor pra todo mundo se ele não existisse. Bia, isso me deixou muito assustada! Não posso perder meu amigo, gosto dele demais e me preocupo muito. Por favor ajude a gente.
Cecília M. - Guarulhos, SP

Oi Cecília,

Sei como é triste ver uma pessoa de quem a gente gosta nessa situação. A gente se preocupa, sofre junto, fica angustiada... Minha primeira orientação é dizer que sim, seu amigo muito provavelmente tem um quadro sério de depressão, pois além de ideias suicidas, existe até mesmo o planejamento. Ele precisa procurar um psicólogo e começar um tratamento o quanto antes. Aliás, provavelmente será necessária uma parceria com um psiquiatra, para que o seu amigo seja medicado. Os dois lados precisam ser vistos: os medicamentos receitados pelo psiquiatra vão ajudar a controlar os sintomas da depressão; mas curar não é apenas abafar sintomas, seu amigo precisa também da psicoterapia, precisa descobrir por que se sente assim, em qual ponto de sua história a vida sonhada se distanciou tanto da vida real que esta se tornou um fardo pesado ao invés de um caminho agradável.

Cecília, saiba que o tratamento de pacientes graves não é tão simples. Não basta apenas frequentar o consultório do psicólogo, do psiquiatra e de outros profissionais envolvidos no tratamento. Ele precisa se envolver com a cura. Em casos mais leves, esse envolvimento nem sempre é fácil. Em casos graves, é ainda mais complicado. Ele vai precisar de muita ajuda e apoio. E falo de diversos tipos de apoio. Desde aquela parte mais concreta, como lembrar o seu amigo das consultas e de tomar os remédios, até a parte que geralmente acham mais complicada: dar a ele o apoio emocional que ele precisa neste momento, mesmo que ele diga que não precisa disso e que quer ficar sozinho. Costumo dizer aos familiares dos meus pacientes graves que não basta vir às consultas, para o sucesso do tratamento, preciso da ajuda da família e dos amigos, preciso que todos se envolvam com o paciente e com seu tratamento e atuem como parceiros neste processo. Não basta passar uma ou duas horas por semana no meu consultório, pois ele tem depressão todos os dias e horários, e não apenas durante as consultas enquanto trabalho com ele. O apoio emocional que a família e os amigos podem (devem!) dar inclui ajudar a pessoa a ver a vida com outro olhar, e não com o olhar da depressão. É fazer-se presente na vida da pessoa, por mais que ele esteja irritado ou diga que não quer sair nem ver ninguém. Algumas vezes esse é o único "não" que ele pode dizer no momento. É convidar para estar junto, seja numa caminhada leve, para sentar-se à mesa no momento das refeições ou mesmo para uma simples conversa na luz do sol (estudos mostram que tomar sol por alguns minutos todos os dias pode ajudar bastante em casos de depressão). A vida fica pesada demais quando nossa única escolha passa a ser entre continuar existindo ou deixar de existir.

Outro ponto fundamental é ajudar o seu amigo a ver esperanças na vida. A depressão se instala quando aquela vida que desejamos viver está muito distante da vida que realmente vivemos, seja por fatores concretos (acontecimentos fora do nosso controle, consequências desastrosas das nossas escolhas, etc.), seja por darmos à nossa vida um olhar austero e pessimista demais. É importante ter esperanças. Esperança nos empurra para frente, nos leva a perceber que existe algo além do aqui e agora... aí fazemos planos, e se temos planos, nos empenhamos em fazer o nosso melhor, em fazer dar certo. A esperança ensina que existe algo além do aqui e agora e além de nós mesmos, nos leva a buscar, a movimentar a vida. É a esperança que nos mantém no caminho.

Boa sorte ao seu amigo, Cecília. Depressão tem cura. Com o tratamento certo ele pode sim perceber que a vida não precisa ser ruim e pesada e que, apesar dos contratempos que todos temos, existem esperanças, existem bons momentos e, principalmente, existem pessoas queridas para dividir conosco as belezas e angústias desse caminhar.

beijo
Bia


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2 comentários:

  1. É muito complicado uma situação destas.
    Não sei muito o que dizer.
    É triste.

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    Respostas
    1. Muito triste, mesmo, Claudio. Mas tem jeito. Com empenho e envolvimento se pode sair da depressão.

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