quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Beleza, autoestima e a menina mais feia de Esparta

"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla." - David Hume (1711-1776), filósofo escocês.

Quero começar contando a história da menina mais feia de Esparta. Esta história foi escrita por Heródoto, historiador de tanto prestígio, e não consegui descobrir se é verdadeira ou uma lenda. No entanto, neste momento isso não faz diferença, mesmo porque os povos antigos viam seus mitos como uma realidade, logo o que temos em mãos é uma história, um discurso (mythos). Conta Heródoto que havia em Esparta uma menina muito feia. Seus pais ficavam tão constrangidos que mantinham o rosto dela coberto por um véu. A ama, entristecida pela situação, levava a criança todos os dias ao templo de Helena (importante dizer que Helena tinha uma ligação importante com Afrodite, a deusa da beleza e do amor). No templo a ama colocava a menina em frente à estátua da deusa e implorava para que ela se tornasse mais bonita. Certa manhã, quando as duas voltavam do templo, uma linda desconhecida pediu para ver a criança (na certa, a deusa disfarçada de mortal). A ama negou, pois a menina era muito feia e a reação que a mulher certamente teria seria mais uma vergonha para os pais dela. Mas a mulher insistia tanto que a ama acabou cedendo. Quando a mulher olhou para a menina, tocou-lhe a face com delicadeza e disse que se tornaria a mulher mais bela de Esparta. E assim foi feito.

Hoje vamos conversar sobre beleza. Não só aquela que vem de dentro, mas também sobre a beleza de fora, mesmo, do corpo. Olhar no espelho e gostar do que vê é algo que contribui muito para que se tenha uma autoestima saudável. Vamos fazer um exercício. Você vai precisar de um espelho e de um lugar com privacidade. Tire suas roupas e olhe-se no espelho. Se for um espelho grande, melhor ainda. O que você vê? Que tipo de características passam pela sua mente ao olhar para o seu corpo? Agora mantenha o foco em cada parte, sempre com atenção às características que surgem. Comece pelos pés, pernas, coxas, genitais, e assim por diante, sem esquecer nenhuma parte. Se possível, anote as características de cada parte (ou use um gravador). Podem ser características mais concretas (bonito, feio, gordo, magro, moreno, etc.) mas também podem surgir características mais abstratas. Tudo é válido, pois tudo isso conta sobre você. Ou melhor, essas características contam sobre a forma como você se vê. Nem sempre nos vemos da maneira como realmente somos.

O que você vê quando olha no espelho?
Agora vamos trabalhar com essas informações que você colheu. Comece percebendo qual a parte do seu corpo que recebeu mais características negativas? E a parte que recebeu mais elogios? Para o nosso inconsciente, tudo é simbólico. Assim, a forma como vemos cada parte nossa conta muito sobre o valor que damos ao que essas partes representam. Por exemplo, o cabelo está muito ligado à sexualidade, no caso das mulheres. Os pés podem ser interpretados como o poder de trilhar os seus caminhos, guiar a sua vida. Já as mãos podem representar as realizações, são elas que nos ajudam a transformar o mundo ao nosso redor, seja plantando, construindo, carregando coisas, escrevendo artigos... Mas, voltando ao exercício, observe essas partes de você outra vez, com mais cuidado. Elas são realmente da forma como você as descreveu? Já comentei outras vezes o quanto a linguagem é importante. Vamos tentar mudar as palavras, olhando para as partes "menos queridas" de seu corpo com outras palavras. Não palavras opostas às usadas, mas palavras que contem sobre a forma como são sem que isso soe depreciativo.

Voltando um pouco no tempo, podemos ver como a ideia de beleza não é natural, mas sim é construída em cada sociedade e em cada época, de acordo com a forma de vida de cada povo e com aquilo que é valorizado. Quem gosta de arte pode observar obras de diferentes épocas e origens e assim perceber o quanto a ideia de beleza muda. Um exemplo é o tipo de corpo retratado. Se hoje muitos consideram um corpo magro um ícone de beleza, há algum tempo atrás não era assim, as pessoas magras eram vistas como mais fracas e doentias, o bonito era ter o corpo um pouco maior. O bronzeado também mudou. Se em tempos antigos ter a pele bronzeada era sinônimo de status social mais baixo (pois a pessoa bronzeada provavelmente era mais pobre e trabalhava no campo, exposto ao clima), hoje é sinônimo de saúde, de alguém que se cuida e que pode dispor de algum tempo para se divertir ao ar livre. As ideias se transformam, os conceitos mudam.

E, sabendo disso, porque hoje tantas pessoas são tão revoltadas com o espelho? Hoje os valores nem sempre são pensados em conjunto entre todas as pessoas. Muitas vezes as referências e seus valores já vêm prontinhos, dados de bandeja pela mídia. Basta ligar a TV, abrir o jornal, entrar na internet, para ser bombardeado de ideias prontas. Entre muitas, ideias sobre a beleza e a estética. Só pelo motivo do sentido dado à beleza e dos conceitos do que é belo ou feio já virem prontos, esse movimento já seria alienante, pois não somos nós quem decidimos o que achamos bonito ou feio, mas a mídia que decide por nós, nos convencendo disso de forma tão sutil, com imagens coloridas e argumentos com tanto apelo emocional, que somos levados a acreditar que certas características são mais desejáveis do que outras porque realmente pensamos assim, e não de tanto vermos essas imagens e de tanto assimilarmos esses conceitos desde quando éramos muito novos. No meu ponto de vista, o cenário é ainda mais preocupante. A grande maioria da mídia tem por objetivo gerar lucro. Ora, se veicular informações sobre como pessoas com determinadas características são lindas permite vender mais produtos (cosméticos, vestuário, adornos, cirurgias plásticas e tratamentos estéticos, bens de consumo, etc.) para que todas as outras pessoas atinjam um ideal, é o que a grande mídia fará. Isso vai muito além da beleza. Essa dinâmica de ter um ideal de beleza único e cobrá-lo como se fosse um crime não corresponder a ele (ou pelo menos buscá-lo) faz com que a pessoa assimile que existe um jeito certo/belo de ser e os jeitos piores, mais feios e com menos valor, e que para estar inserido socialmente, é preciso chegar ao ideal. Mesmo que doa. Mesmo que pareça impossível. Mesmo que no final, eu me olhe no espelho e descubra que já não sou mais eu.

Gente, isso é uma crueldade! Preciso contar que resolvi escrever este texto porque andei recebendo mensagens de jovens perguntando sobre beleza e autoestima. Quem não está no padrão, muitas vezes é excluído e vítima de bullying e outras violências. Ou ainda adoecem, seja com distúrbios alimentares como a bulimia e anorexia, seja outros transtornos psíquicos ou psicossomáticos vindos dos conflitos e do sentimento de tristeza e de menos valia. Isso me entristece, principalmente quando olhei para a foto dessas pessoas e vi que eram, sim, bonitas. Não estão no padrão da mídia, mas são bonitas, cada uma a seu modo. São bonitas porque seus olhos têm vida.

Veja outra vez as características que você colheu no nosso exercício. Quais te fazem sentir mal? Voltando à história/mito da menina mais feia de Esparta, é interessante perceber que o que mudou a beleza da criança foi o fato de ter sido tocada pela deusa. Foram as palavras dela que tocaram a menina de tal forma que sua realidade se transformou. E as palavras de todos nós têm esse poder transformador. Se quiser mudar sua realidade, mude suas palavras e seu discurso/mythos. 

2 comentários:

  1. Sensacional o seu texto Bia. Infelizmente estamos inseridos em um mundo onde as aparências ganham mais destaque do o caráter. Há inúmeras pessoas que estão machucadas emocionalmente por não conseguirem a "imagem" que corresponder aos requisitos impostos pela sociedade.

    Acabo por me tornar seu seguidor. Se puder também me dar uma força e curtir minha fan page

    Aqui está: https://www.facebook.com/oivalfnocinema
    www.cineprise.com.br

    Muito obrigado e novamente meus parabéns por este maravilhoso projeto.

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    1. Olá, Flávio, muito obrigada!
      Vou lá conhecer seu trabalho, sim.

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