quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Confie na sua intuição

"Certas coisas se sentem com o coração. Deixa falar o teu coração, interroga os rostos, não escutes as línguas." - Umberto Eco (1932), filósofo e escritor italiano contemporâneo.

Hoje vamos conversar um pouco sobre intuição, num ponto de vista psicológico. Algumas pessoas têm uma visão um tanto mística do processo de intuição, no entanto este é um fenômeno psíquico que acontece com todos nós o tempo todo, mesmo que algumas pessoas não cheguem a perceber. Algumas vezes a intuição é clara, se manifesta como uma ideia clara e racional, por exemplo "vou ao supermercado e tenho a impressão de que vou encontrar minha prima lá." Em outros casos, não existem palavras, como quando temos um sentimento, ou mesmo uma sensação de que algo vai acontecer. Não sabemos como ou por que, às vezes nem sequer sabemos o que é o fato, mas intuímos que as coisas estão mudando na nossa realidade. Outras vezes, ainda, as intuições podem vir na forma de sonhos, visões, impressões...

Intuição vem do latim intuitione, palavra que podemos dividir em in - dentro, e tuere - olhar para. Assim, em linhas gerais, a intuição é um olhar para dentro de nós mesmos. Quando usamos a intuição, chegamos a uma conclusão por vias diferentes das usuais. Não por meio da racionalidade consciente, que nos levaria a concluir alguma coisa através de pesquisas em livros ou na internet, ou apenas perguntando para alguém. Ao contrário, a intuição nos leva a tirar conclusões olhando para dentro de forma não racional. Os primeiros psicólogos seguiam um método de pesquisa chamado "método introspectivo", em que após apresentarem um objeto ou um fenômeno a um sujeito, pediam que ele contasse as primeiras impressões que teve. Supondo que o objeto fosse uma bola de futebol, a racionalidade nos leva a dar a ela um significado que aprendemos nas nossas relações com o outro, um nome, e conclui que "é uma bola de futebol!" Mas nosso lado não racional nos leva a tirar conclusões como "é um objeto redondo", "é feito de certo material, nas cores preta e branca, etc." Para esses primeiros psicólogos este era um jeito muito rico de conhecer o mundo, pois nos permitia ir além dos significados aprendidos, repensando-os.

Só vemos uma pequena parte dos fatos do dia a dia, a maior
parte é captada apenas pelo inconsciente e, quando se mostra
à nossa consciência, nem sempre sabemos de onde vieram.
Hoje este método de pesquisa já não é mais usado, no entanto contei isso para ajudar a pensar na intuição. Se não usamos o lado racional da nossa psique, isso quer dizer que quem está nos dando as respostas é o nosso inconsciente. O inconsciente não tem tempo nem espaço, é livre no melhor sentido da palavra. Logo, quando "olhamos para dentro" procurando chegar a conclusões através do nosso inconsciente, não operamos na lógica do dia a dia, dos significados "certos" e do mundo linear. Trabalhamos com uma realidade onde tudo é possível, pois nela o mundo se mostra de formas bem diferentes, algumas vezes, surpreendentes (observe seus sonhos!). Apesar do método introspectivo ter caído em desuso, os primeiros psicólogos estavam certos quando diziam que antes de darmos um significado (dizer que o objeto apresentado é uma bola de futebol ou que a pessoa que fala comigo é um amigo querido), percebemos os pequenos detalhes daquilo que se mostra (no caso da bola, percebo sua forma, suas cores, etc., no caso do amigo, percebo seu rosto e suas expressões faciais, sua voz e a entonação que dá às palavras que me diz, por exemplo). Assim, antes que a nossa mente consciente e racional dê às coisas do nosso dia a dia um significado, nossa mente inconsciente as percebe. E aí entra a intuição. Quando a mente inconsciente chega às suas próprias conclusões a partir dos dados percebidos no mundo externo, sem a ajuda da mente consciente/racional, dizemos que essa conclusão foi uma intuição. E aí temos a impressão de que sabemos ou desconfiamos de algo antes de que a coisa se mostre ou se concretize. Por exemplo, posso ter a intuição de que o amigo do exemplo anterior virá em breve me dizer palavras boas. E posso saber disso, talvez, antes mesmo de encontrá-lo. No dia a dia não prestamos tanta atenção aos pequenos detalhes, mas nada escapa ao nosso inconsciente! Pelas expressões faciais do amigo, pelos olhares, pelo tom de voz que costuma usar ao falar comigo ou mesmo pelas palavras gentis que escolhe (bem como pela minha própria reação a todos esses fatores), posso concluir algo e dar algum sentido ao que intuí.

Chamamos isso de intuição e, por não termos consciência deste processo (pois quem atuou aqui foi o inconsciente) pode parecer algo mágico ou místico. Mas não é. A intuição é um processo psíquico normal, que todos nós temos, seja frente a acontecimentos marcantes ou mais comuns. Acontece mesmo que a gente não perceba. É importante desenvolver a nossa intuição, pois essa habilidade é um lado nosso como qualquer outro, por exemplo, o uso da linguagem, a capacidade de fazer cálculos ou de interagir com as pessoas. Nunca se deve reprimir ou renegar lados nossos, pois isso causa pequenas "rupturas" na nossa estrutura psíquica, levando ao desequilíbrio e possível adoecimento.

Um ponto importante é que nosso inconsciente e nosso consciente estão em diálogo constante, ou seja, eles trocam informações entre si. Da mesma forma, nosso mundo interno precisa trocar informações com o mundo externo. Algumas vezes, os acontecimentos no mundo externo e interno coincidem. Quando você lê sobre um autor e alguém comenta sobre ele. Quando você está com alguém no pensamento e a pessoa escreve ou telefona. Quando alguém diz ou faz algo que você pensava em dizer/fazer. A esse tipo de acontecimento se dá o nome de "sincronicidade", são as coincidências significativas que acontecem na vida da gente, basta estar atento para percebê-las. É um fenômeno semelhante à intuição, perceba que o mecanismo é o mesmo: o inconsciente percebe dados do cenário (físico ou psíquico) em que estamos e conclui o que pode acontecer. A maior diferença é que a sincronicidade é imediata, tanto o fato interno (ideia, pensamento, emoção, sensação) quanto o externo (o que aconteceu) se dão quase que simultaneamente, sincronicamente. Ao passo que a intuição é mais como uma conclusão, uma grande probabilidade de que a situação se desenrole conforme o nosso inconsciente sugere com base nos dados que percebeu.

O nosso consciente e o inconsciente não percebem
o mundo da mesma forma... olhe com atenção!
Sabendo agora o que é intuição, como se manifesta e também a importância de desenvolvê-la e de permitir que ela se mostre no nosso dia a dia, trago algumas sugestões de como desenvolver a intuição. Basicamente, toda função psíquica pode ser habilitada através do treino. Veja as crianças na escola. Quando fazem cálculos ou escrevem uma redação estão habilitando as funções psíquicas de cálculo, linguagem, pensamento abstrato, atenção, coordenação motora fina... Com a intuição é a mesma coisa, a melhor maneira de desenvolvê-la é permitir que o inconsciente se mostre. Algumas pessoas têm medo desse contato mais profundo com o mundo do inconsciente. Se este for o seu caso, antes de começar o treino é fundamental vencer este medo. Não existe motivo para temer um lado nosso, em especial quando sabemos que ele pode contribuir muito para o autoconhecimento e, assim, para uma vida mais saudável e equilibrada. Estas são algumas sugestões:

- O primeiro passo é permitir que as intuições venham. Não reprima suas impressões, sonhos mais significativos, sensações... Nem diga a si mesmo que são loucura ou bobagens, pois não são, são partes de você e da sua vida.

- Talvez você queira escrever um diário de sonhos e trabalhar com ele, para começar a libertar o seu inconsciente e estabelecer com ele uma relação amigável. Clique aqui para ler o artigo Criando o diário de sonhos.

- A arte, como já disse algumas vezes, é uma forma bem interessante de abrir um contato com o inconsciente. No caso da intuição, é interessante dar preferência à formas de arte que não passem pela linguagem verbal ou por estruturas mais rígidas. Aliás, quanto menos estruturas, melhor! Sugiro desenhos e pinturas bem livres, pintura a dedo, modelar argila, mexer com areia, danças sem uma coreografia a seguir...

- Meditar também pode ser uma boa ideia, pois nos permite focar por alguns minutos no mundo interno e não apenas no exterior. Veja aqui Como meditar e os benefícios da meditação.

- Quando tiver uma intuição, explore-a. Faça o consciente conversar de forma amigável com o inconsciente. Questione-se, por exemplo, sobre o que seria a sensação, qual o sentido dela para você, etc. Provavelmente o inconsciente não responderá com palavras e ideias racionais, pois ele não fala a mesma linguagem que o consciente. Mas esteja atento às sincronicidades e sonhos!

- Algumas pessoas gostam de anotar num caderninho suas intuições e sincronicidades. Além de reforçar o elo entre consciente e inconsciente, fazer essas anotações é um jeito do consciente se apropriar do material inconsciente e ainda dizer a ele que as informações são bem vindas.

- Independente de como escolher habilitar sua intuição, lembre-se que o mais importante é a periodicidade, ou seja, precisa dar atenção a isso sempre, assim a psique se acostuma a trabalhar também dessa maneira e não apenas racionalmente.

Para terminar, quero deixar claro que ter intuições, venham elas na forma que vierem, é um processo normal da psique saudável. Quanto mais intuições ou sincronicidades nós vivenciamos, isso significa que nosso contato com o mundo do inconsciente é maior. Isso é muito bom, pois significa que conseguimos integrar bem nosso lado consciente e inconsciente, o racional e o emocional... Toda atividade que permite abrir uma porta para o inconsciente ajuda a desenvolver a intuição, pois ela nada mais é que a manifestação de que existe uma relação de amizade com nosso mundo interior.

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