terça-feira, 20 de agosto de 2013

Mythos - Iemanjá: saiba dizer "não"

Hoje vamos trabalhar com Iemanjá, uma deusa, ou melhor, orixá, da cultura africana, muito popular no Brasil, ela é cultuada por exemplo no candomblé e na umbanda, e sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes, da Glória e da Conceição. Para quem não sabe, na religiosidade africana, o mundo material é uma extensão do mundo espiritual, portanto, esses dois mundos podem se comunicar e interagir. Há um deus supremo chamado Olorum, que só entra em contato com o ser humano através dos orixás, divindades relacionadas à natureza que, juntas, garantem a harmonia do mundo. 

No Brasil, Iemanjá é cultuada como a rainha do mar, é homenageada no dia 02 de fevereiro (especialmente na Bahia, onde nesse dia as pessoas se vestem de branco e vão à praia, oferecendo flores, velas e outras oferendas a ela) também é muito lembrada na passagem do ano (principalmente no Rio de Janeiro, quando as pessoas vestidas de branco vão à praia levar suas oferendas, tomar banho de pipoca e pular 7 ondas, para garantir um novo ano cheio de proteção e bênçãos).

Iemanjá é a orixá ligada ao mar, à fecundidade e à maternidade (de crianças a partir do momento que já sabem falar e dos adultos). Diferente de Oxum, ligada à maternidade de crianças que ainda não falam, que personifica a mãe sempre doce e amorosa, Iemanjá é uma mãe mais disciplinadora, que ama, mas que também coloca limites e pune quando necessário, como o mar, que nos oferece vida, mas que, quando revolto, pode causar grande destruição. De todo modo, independente de como a maternidade é vivenciada, note o quanto ela é importante na cultura africana, uma vez que é representada por mais de um orixá. A partir daí se percebe que a vida é um valor central para esses povos, por isso a maternidade, a fertilidade, a mulher e a sexualidade recebem destaque nos mitos/discursos e na forma de perceber a realidade.

Um detalhe importante: na África, Iemanjá é a orixá do rio que leva seu nome. Quando os povos africanos chegaram ao Brasil, claro que o rio ficou para trás. No entanto, Iemanjá os acompanhou e passou a ser orixá ligada ao mar. Há uma lenda que conta um pouco desta transformação. Iemanjá era uma linda mulher casada com o rei Oduduá e, com ele, teve dez filhos orixás. Por amamentar tantas crianças, seus seios aumentaram e ficaram um pouco mais flácidos do que antes. Iemanjá não era feliz nesse casamento e certo dia, enquanto caminhava, conheceu o rei Okerê. Eles se apaixonaram e Iemanjá disse que se casaria com ele desde que o novo esposo nunca risse de seus seios. Ele concordou e assim foi feito. Por algum tempo, foram felizes, mas certa vez Okerê estava bêbado e riu dos seios de Iemanjá. Ela se ofendeu e, muito magoada, fugiu. Ele corria atrás dela e para conseguir fugir, Iemanjá transformou-se num rio, que desaguaria no mar. Mas Okerê percebeu e, para pegá-la, barrou o caminho do rio transformando-se em uma grande montanha. Iemanjá, desesperada, recebeu ajuda de seu filho Xangô (orixá dos raios, trovões e tempestades, ligado à justiça por punir os malfeitores), que cortou a montanha (Okerê) ao meio, permitindo que Iemanjá chegasse ao mar. Ela tornou-se, então, a rainha do mar.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que chama a atenção no mito de Iemanjá é sua transformação: de rainha em rio, ou de orixá de um rio específico na rainha do mar. As transformações acontecem nos períodos de grande crise. No primeiro caso, quando fugia de um marido abusivo. No segundo caso, Iemanjá deixou de ser orixá de um rio específico para ser rainha do mar quando o povo africano foi escravizado e trazido à força para o Brasil. E você, de quais formas já se transformou? Procure se lembrar das maiores crises que já viveu (violências e abusos sofridos, ameaças, doenças graves, crises financeiras ou grandes problemas no trabalho, conflitos familiares mais sérios, etc.). Como você era antes e em quem você se transformou ao atravessar a fase conturbada?

2- Iemanjá nos fala também sobre a importância de saber dizer "não" e colocar de forma clara os nossos limites. Ela faz isso ao cuidar de seus filhos, sendo uma mãe que sabe ser amorosa e ao mesmo tempo exigente e, se preciso, rigorosa. Ela deixa seus limites claros quando sai de casamentos que a faziam infeliz e se torna a rainha do mar. Você sabe dizer "não"? Como você se sente quando precisa colocar seus limites, isso é algo natural ou gera angústia e ansiedade? Apenas sobrevivemos às crises quando sabemos colocar de maneira clara os nossos limites (seja com palavras ou com ações), pois é isso que nos permite afirmar (para nós mesmos) quem somos e quem pretendemos ser. Essa é a ação/afirmação que nos transforma, pois nos tira do papel de vítima indefesa e nos lança no campo da ação. Aí sim as crises atuam como transformadoras, como rituais de iniciação e/ou de passagem para uma nova forma de vida, em que podemos agir com maior autonomia; tal como Iemanjá se tornou rainha do mar, nos tornamos rainhas ou reis da nossa própria história.

2 comentários:

  1. Muito bom!! Adorei o texto. No inicio sempre é difícil dizer não, mas com o tempo, os anos ....rs...rs... , aprendemos que uma das melhores coisa na vida é aprender a colocar nossos limites.Falar um não na hora certa nos poupa muito aborrecimentos e situações indesejáveis.O medo de dizer não é muitas vezes é difícil de superar, mas quando superamos e paramos de sofrer a cada vez que dizemos "Não" ! Isso é libertador!!! bjs

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    1. Dizer "não" é libertador! Amei sua definição!! bjs

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