terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mythos - Macária: aceitar os fins com doçura

Na mitologia grega existem duas figuras que recebem o nome de Macária. Uma era filha de Herácles e Dejanira. A outra, que é sobre quem vamos falar hoje, é a deusa da boa morte. Talvez a ideia de "boa morte" soe estranha aos ouvidos das pessoas deste tempo. A morte representa, na nossa cultura, um fim. Hoje costumamos negar a morte, como se ela não acontecesse, a não ser de forma muito distante, na frieza dos hospitais. A morte, para nós, foi desumanizada. Quando não é algo distante, é algo banal, como se as vidas valessem quase nada e pudessem ser descartadas ao acaso em acidentes que poderiam ser evitados ou na violência diária das grandes cidades. Parece até que hoje as pessoas não esperam por uma morte, mas morrem um pouquinho todos os dias, morrem conforme são tratadas como nada, como se nem ao menos fossem pessoas. Morrem um pouquinho a cada dissabor e a cada sonho perdido, morrem conforme as desesperanças assumem o lugar dos sonhos.

Para os antigos gregos, a visão de morte era bem diferente da nossa. Como para boa parte dos povos antigos, a morte não era um fim, mas um recomeço. Após a morte, as almas iam para o submundo e lá podiam ter diferentes destinos, como os Campos Elísios, caso a vida tivesse sido ética e justa, os Campos de Asfódelos, onde as almas esperavam por um julgamento, o rio Lethe, onde as almas podiam beber de suas águas e renascer; o Tártaro, local onde ficavam presos os piores assassinos, onde também estavam presos os titãs que perderam a guerra contra os deuses (esta é outra história); a Ilha dos Abençoados, para onde iam as almas que chegavam aos Campos Elísios por três vezes, entre outros lugares. Assim, na Grécia Antiga a morte era apenas mais um evento, não era marcada como um fim ou uma ruptura.

Mas vamos ao mito! Macária, como mencionei, era a deusa da boa morte. Seu nome significa "aquela que é abençoada". Ela era filha de Hades, deus do mundo dos mortos, e de Perséfone, deusa da primavera e rainha do mundo dos mortos. Provavelmente vem daí a ideia de "boa morte", quando a frieza do submundo encontra a esperança da primavera. Macária sentia grande compaixão pelos mortais, especialmente os de bom coração, que viviam uma vida justa. Esses mortais, a deusa não permitia que Tânatos (deus da morte) levasse. Ela mesma ia buscá-los. Macária tinha a habilidade de caminhar entre os mortais sem ser vista ou percebida, a não ser pelo moribundo. Era representada como uma mulher atraente, de pele branca e cabelos negros e, junto com ela, dizem, vem um perfume de flores da primavera. Ela sempre levava o moribundo com muita gentileza, colocando-o num estado de profunda paz e tranquilidade, algumas vezes, levava-o durante um sono tranquilo. Além disso, Macária nunca abandonava as almas. Depois da morte, acompanhava os ritos funerários, caminhava ao lado do morto até o submundo e ficava com a alma durante o julgamento. Quase sempre, as almas acompanhadas por Macária eram levadas para a Ilha dos Abençoados.


Questões para reflexão:

1- Os gregos não viam a morte como um fim. Nossa cultura vê a morte ou de forma artificial, ou de forma vazia. E você, qual a sua visão da morte?

2- Pense nas pessoas que perdeu. Como você lidou com essas perdas? Quando alguém que amamos morre, uma parte nossa morre junto. Todas as vivências, as trocas de confidência e de afetos parece que se tornam quase míticas. Passam a fazer parte de outra realidade, que não é mais a realidade de todos os dias. Claro que sentimos a falta do outro, mas sentimos também a falta de quem éramos quando estávamos junto de quem se foi.

3- Como você vê os fins e as transformações? Agora não falamos de morte, mas das mudanças e fins que acontecem na vida de todos: o fim de um relacionamento, as mudanças grandes e pequenas no nosso dia a dia, seja na vida pessoal, profissional, amorosa, familiar... Você aceita os fins/transformações com resistência ou com a doçura de quem é conduzido por Macária? Quando algo chega ao fim, algumas vezes é inútil tentar prolongar a permanência. Soa artificial e desumano. Algumas vezes é mais sábio apenas deixar que as situações sigam seus caminhos e lidar com os fins, tendo a certeza de que, como Macária nos ensina, cada fim carrega consigo a esperança de um recomeço.

4 comentários:

  1. Obrigada Bia, as questões para reflexão vieram em uma boa hora.

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    1. Eu que agradeço. Vivencie a perda, mas não se apegue a ela a ponto de não perceber o recomeço. bjs

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  2. OMG!! Como eu amo essa deusa!!

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