quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Você sabe lidar com a abundância?

"Não é o que possuímos, mas o que gozamos, que constitui a nossa abundância." - Provérbio árabe.

Esses dias estive pensando sobre prosperidade, sucesso e abundância. Vivemos num mundo que incentiva todo tipo de excesso mas, de forma bastante irônica, não sabe lidar com a abundância. Confuso? Talvez devamos começar esta conversa dizendo o que entendemos por excesso e abundância. São conceitos bem parecidos, pois ambos os casos significam que a necessidade foi suprida e há algum excedente. Abundância é ter mais que o suficiente para suprir as necessidades, já o excesso é uma abundância que nunca satisfaz, pois o excesso nunca é o bastante.

Não é de hoje que o ser humano acredita que será mais feliz possuindo mais coisas, mais suprimentos, mais relacionamentos, mais experiências... Mas até que ponto nosso foco é a abundância e quando esse movimento passa a demonstrar que entramos no campo do excesso? No meu ponto de vista, o excesso começa quando paramos de desfrutar da abundância. Pense numa pequena comunidade rural. A abundância nas colheitas é muito desejada e bem vinda, pois garante que o grupo poderá se manter durante períodos de inverno e/ou de seca até a próxima colheita. O que é muito diferente da "abundância" dos nossos supermercados modernos e urbanos, em que tudo vira um produto disponível para ser consumido a qualquer hora do dia e época do ano. O consumismo é um sinal claro de excesso, não necessariamente de abundância.

Cornucópia: um antigo símbolo de abundância.
Mas os maiores conflitos começam quando as questões decorrentes do excesso chegam ao campo das experiências e das relações humanas. Faça uma experiência. Vá a uma festa, ou lembre-se de alguma que foi. Mas tem que ser uma festas dessa com muitas luzes, música alta que nunca para, muitas pessoas... Saia da festa para tomar um ar. É muito interessante essa experiência, pois o mundo, a nossa realidade, passa e parecer pobre em estímulos. Por mais linda que esteja a noite e o céu estrelado. Mesmo que você tenha saído para um lindo jardim. Mesmo que esteja ao lado de alguém especial. A pessoa sente como se tudo isso (ou apenas isso?) já não fosse o suficiente. Precisa de mais e mais estímulos, precisa sentir-se viva de uma forma quase desumana. Só assim sente que tem experiências dignas de serem lembradas. Esquecem que o que vale a pena ser recordado é aquilo que nos toca o coração, e que quase sempre esse toque vem das coisas mais simples.

Entramos assim no campo das relações humanas. Quem quer ter sabe lá quantas centenas de amigos nas redes sociais? Mesmo que não conheça um terço deles. Mesmo que nem saiba de onde vêm, o que gostam de fazer ou o que sonham para o futuro. Mesmo sabendo, lá no fundo, que os "amigos" também não sabem metade da pessoa que eles são e, pior, nem se importam em saber. E que bom se a coisa fosse apenas do mundo virtual. Você precisa fazer contatos profissionais, mesmo que esteja com grandes problemas pessoais - o mundo não quer saber disso, e contatos nunca são demasiados. Você precisa ser super simpático, extrovertido e sociável. Que história é essa de passar o sábado chuvoso em casa vendo filme com tão poucas pessoas? Tem um mundo imenso lá fora. Você precisa conversar com todas as pessoas de quem nunca mais lembrará o nome ou o rosto. Você tem que ter muitos amigos, muitos compromissos, muita experiência sexual e casos amorosos, você precisa deixar de ser quem é e mostrar que é legal e que se movimenta bem nessa "realidade". Pare! Será que precisa mesmo? Um segredo que ninguém conta: tudo o que é excessivo perde seu valor. A abundância é bem vinda e buscada. Mas o excesso é algo que quase nos oprime. O excesso transforma a leveza e a alegria sincera da abundância numa obrigação.

Busque a abundância, mas nunca permita que ela se torne um excesso. Tenha muitas experiências se isso te faz bem, mas viva-as de verdade, esteja presente em casa uma delas. Tenha muitos amigos se gosta de se sentir sociável e cercado de pessoas, mas conviva com eles, dedique-se a conhecê-los e se deixe conhecer. Trabalhe e ganhe dinheiro, mas não deixe que o brilho da moeda ofusque o brilho dos seus olhos. Tenha relações amorosas quando elas te fizerem feliz, mas tenha sempre claro que o que importa aqui é a felicidade e não a história para contar depois na rodinha de colegas. Eduque suas crianças para a vida, mas permita-lhes um tempinho para "apenas" serem crianças, elas só têm estes poucos anos para fazer isso e terão o resto da vida para serem pessoas focadas, esforçadas ou o que for.

O que separa a abundância do excesso é o sentido que damos a eles. Quando nossas experiências, relacionamentos, posses, atividades e etc. (independente de quantas forem) fazem sentido na nossa vida, estamos falando de abundância. Se forem vazios, são um excesso. Apenas ocupam espaço e tempo - o mesmo espaço-tempo que gastaríamos fazendo algo que nos deixa bem. Deixamos de ser quem somos para parecer alguém que imaginamos ter mais valor nesta realidade. Por quanto tempo vamos nos desrespeitar desse jeito?

Aprendemos a lidar com a abundância quando deixamos de pensar apenas na quantidade e percebemos a qualidade daquilo que vivemos ou temos em nossas vidas. E, nessa nova forma de perceber, passamos a dar um sentido pessoal às coisas, relacionamentos e pessoas. Construímos uma vida mais com a nossa cara. E isso, esse brilho nos olhos, é mais valioso e lindo de ver que qualquer excesso plastificado.

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