sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ágora - Criança com muitos medos

Bom dia! Queria perguntar sobre a minha filha. Ela tem 6 anos, é uma criança tranquila e quase sempre é bem madura para a idade. Até pouco tempo atrás era uma criança normal, mas agora começou a ter crises de medo, muito medo de tudo. Acho esquisito que ela tem medo de coisas bobinhas que as crianças dessa idade tem, tipo medo do escuro. Mas também começou a ter medo de ficar sozinha. Antes a Giovana adorava brincar sozinha no quarto, hoje tem um pouco de medo. Até fica, mas só depois de eu lembrar ela de como gostava e que não tem nada lá para ter medo. Acho que o que começou a me assustar é que minha filha começou a dizer que tem medo que eu morra e meu marido também. Não costumamos colocar medos nela, não gostamos disso, queremos que ela cresça e seja uma pessoa independente e feliz. Por que será que ela está assim, se nada diferente aconteceu? Não sei como agir enquanto mãe, preciso de alguma orientação. Obrigada. beijo.
Meire - Petrópolis, RJ


Olá Meire!

O que você me contou é uma coisa bem comum de acontecer hoje em dia com as crianças na faixa etária da sua filha, mais ou menos entre os 6 e 8 anos. Algumas dessas crianças chegam aos consultórios psicológicos com a mesma queixa que você me trouxe: nada diferente aconteceu, os pais quase sempre são amorosos e não excessivamente rígidos ou permissivos na educação da criança, mas existem muitos medos. Esta é a fase em que a criança muda a forma como pensa sua realidade, saindo do pensamento mais "mágico" e fantasioso das crianças menores e entrando numa forma mais concreta de ver o mundo. Sua filha está começando a entrar em contato com a realidade, começando a vê-la de forma mais parecida com a que vemos, e nesse sentido é bastante positivo que ela apresente alguma reação ao que percebe. A questão é: por que a reação da Giovana frente ao mundo é de medo?

Hoje nossas crianças vivem uma realidade muito mais estressante do que as crianças das gerações passadas. Não só o dia dia delas é mais corrido e cheio de compromissos, sobrando pouco tempo para apenas serem crianças, mas a própria realidade exige mais de todos nós. Hoje temos questões como a violência que chegou a um grau inacreditável, a miséria e a fome, a destruição da natureza e outras que podem ser bem difíceis de compreender e de lidar até para nós adultos, imagine então para crianças que percebem a realidade e, ao mesmo tempo, sentem que não podem fazer grande coisa para mudá-la. Claro que nos sentimos impotentes frente a questões como essas. E, muitas vezes, esse sentimento de impotência se mostra na forma de medo.

Mas como lidar com a criança quando ela apresenta esses medos? A primeira coisa que gosto de fazer é dizer a ela que os medos são nossos amigos. Aparecem para nos proteger, sempre que estamos frente a alguma coisa que achamos que pode ser perigosa. O problema do medo é quando ele é excessivo, porque aí ao invés de proteger, ele nos faz paralisar. O próximo passo é dar à criança dados de realidade (e nem pense em fazer isso dizendo que o medo dela é besteira pois não é, para a Giovana, esses medos são muito reais, tanto é que causam uma reação). Comentei que ela começa a ver o mundo de forma mais concreta, mas ainda faz isso pelos olhos de uma criança de seis anos, que não tem a experiência e o pensamento abstrato dos adultos. Ela se assusta porque sabe que nessa idade, dificilmente saberia lidar com as situações em que se imagina, como a solidão, a morte dos pais ou algo desconhecido que pode se esconder por baixo do véu da escuridão. A Giovana precisa conhecer o mundo pelo olhar dos adultos em quem ela confia, como os pais, familiares, a professora... Precisa que esses adultos mostrem a realidade de forma que ela consiga lidar. "Sim, o escuro assusta mesmo, mas quando a gente liga luz, vê que não tinha nada lá para ter medo". "Sim, algum dia a mamãe e o papai vão morrer, mas provavelmente já vamos ser muito velhinhos e você já vai ser grande". Veja bem que não é mentir para a criança, nem apresentar um mundo coloridinho. É mostrar quando existe ou não razão para se preocupar e dar a ela recursos mais saudáveis para lidar com essa preocupação (prevenir acidentes, tomar cuidado, etc.). 

Em alguns casos, a criança pode ter apoios para lidar com seus medos, por exemplo no medo do escuro, pode ser interessante dar para a Giovana uma lanterna para que ela deixe perto da cama e acenda quando acordar durante a noite, assim saberá que não há com o que se preocupar. Em outros casos, como o medo da solidão ou da morte de pessoas queridas, os adultos precisam perceber que o medo da criança reflete o maior medo de todos nós: o medo que nos coloca face a face com a nossa finitude e com o próprio drama da nossa existência, nos levando a questionar o sentido de estarmos vivos. Infelizmente, este é um tipo de medo que a gente apenas aprende a lidar. Ninguém tem garantias de que voltará viva para casa: pode ser atropelada no caminho, pode ser vítima da violência, pode ter um mal súbito... enfim, muita coisa fora do nosso controle pode acontecer. Mas seguimos acreditando que voltaremos vivos, que na manhã seguinte continuaremos aqui, vivendo a nossa vida da melhor maneira possível. O nome disso é esperança. E a esperança vem quando nos envolvemos com o olhar cuidadoso e carinhoso das pessoas amadas, no caso da criança, com o olhar dos pais e cuidadores. A esperança nos permite ter metas, seja ela uma grande meta profissional ou "apenas" passar um sábado gostoso no parque da cidade com a família e os amigos. E tendo metas, a esperança aumenta ainda mais, pois apesar dos medos e de tudo o que pode acontecer, temos algo de bom pelo que esperar e pelo que buscar. Perceba que não se trata de esquecer os nossos medos, mas sim de continuar apesar deles. Vencer os medos nem sempre é deixar de tê-los, é principalmente continuar caminhando mesmo sabendo que eles estão sempre ao nosso lado.

beijos para você e para a Giovana.
Bia


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