sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ágora - O consultório de psicologia

Bom dia, Bia!
Meu irmão está prestando vestibular esse ano e ele quer entrar em administração. Mesmo eu sendo um pouco nova (tenho 14 anos) fiquei super animada por ele e por mim também. Aí já comecei a pensar em qual profissão quero seguir e acho que quero psicologia. Eu li o seu artigo sobre as áreas da psicologia e me interessei muito pela clínica. Queria entender melhor como funciona, como é o dia a dia de um psicólogo no consultório? Como os psicólogos andam no dia a dia, usam avental como os médicos, tem que usar branco ou alguma roupa especial? Como é o consultório por dentro? Sei que parecem perguntas bobinhas, mas nunca conheci ninguém que fez psicologia e sou muito curiosa!!! Muito obrigada! beijinhos
Juliana - São Paulo


Bom dia, Juliana!

Uma das coisas que me atraiu para a clínica foi a variedade, pois cada nova pessoa que nos procura traz com ela um mundo cheio de novos significados e novas possibilidades. Essa amplidão de caminhos e de potencialidades é, para mim, uma das maiores belezas da clínica psicológica.

Para começar, vamos explorar onde estamos. Como é o local de trabalho do psicólogo clínico? Em geral, temos a sala de espera, como em qualquer outra clínica, e o consultório. No consultório, os elementos podem variar de acordo com as preferências do psicólogo, a linha teórica pela qual ele conduz os atendimentos e também o público que ele atende. Por exemplo, na sala lúdica, para atendimento de crianças, é comum ter uma mesinha e cadeirinha apropriadas para o tamanho dos pequenos, brinquedos, livrinhos infantis, um ponto de água (usada em algumas atividades) e um chão lavável, o que permite a expressão mais livre por parte da criança. Já na sala de adultos, o cenário muda! Poltronas confortáveis, assim como uma mesa onde se pode fazer atividades gráficas e testes psicológicos. Alguns psicólogos preferem apenas a mesa e as cadeiras, como num escritório. Outros gostam de ter um divã para que o paciente se deite. A decoração das salas de atendimento, de forma geral, é o mais neutra possível, favorecendo a interiorização e atuando como uma "folha em branco" na qual o paciente pode projetar seus conteúdos internos tranquilamente.

Agora vamos olhar para os psicólogos... Você gostaria de saber "como eles andam". Não, não usamos o jaleco, a não ser quando trabalhamos em hospitais. Algumas clínicas com diversas especialidades diferentes exigem que todos os profissionais de saúde usem o jaleco, e nesses casos, nós usamos. Mas num consultório apenas de psicologia, não se usa jaleco. Essa atitude é uma forma de mostrar aos pacientes (e à sociedade) que não estamos tratando-os do ponto de vista médico. Diferente dos tratamentos médicos, no tratamento psicológico não se usa medicamentos. O paciente de psicologia precisa ser um sujeito ativo em seu processo de tratamento e autoconhecimento. Sem o jaleco, essa mensagem se transmite mais facilmente, mostrando que não somos uma autoridade distante dizendo ao paciente o que fazer. Prefiro pensar nos psicólogos como intérpretes da linguagem/comportamento que são apresentados na clínica, bem como uma espécie de "guia" pelo mundo interior, que pode apontar caminhos possíveis, mas respeitando que a decisão de qual caminho seguir e como segui-lo sempre será da própria pessoa, pois apenas ela mesma pode viver a vida dela. Mas voltando ao assunto, como "anda" o psicólogo clínico? Sem jaleco, com roupas comuns. Quem atende crianças geralmente usa roupas que facilite a interação com os pequenos (muitas vezes é preciso sentar no chão, jogar bola junto com eles e outras atividades um pouco mais agitadas), como sapatos mais baixos e calças. Independente de que tipo de paciente se atende, é interessante dar preferência a algo mais discreto, deixando aqueles esmaltes mais coloridos, a maquiagem mais pesada e as roupas mais chamativas para os finais de semana e momentos de lazer.

Como é o dia a dia? No geral, os pacientes frequentam o consultório uma vez por semana, sempre no mesmo dia e horário, pois isso é parte do processo terapêutico. Quando estabelecemos um dia e horário fixo para a pessoa, ela ganha um espaço só dela, para falar sobre aquilo que mais a angustia. Muitos dos pacientes que nos procuram não têm um espaço-tempo assim fora do consultório, então isso é muito importante e precisa ficar claro para a pessoa que aquele momento é dela. Esse horário fixo, ajuda o paciente a se sentir seguro e acolhido, pois ganha um tempo-espaço para existir sendo ele mesmo, além de fazer com que ele se prepare para o momento do atendimento.

Mas o que exatamente é feito dentro da sala do psicólogo? Isso depende de quem é o psicólogo, qual a linha teórica que segue e quem é o paciente. O atendimento infantil é feito geralmente de forma mais lúdica, usando desenhos, argila, histórias e brincadeiras, pois a criança se expressa melhor assim. Claro, de tempos em tempos são realizadas sessões com os responsáveis pela criança, para que recebam as informações sobre o andamento do processo, sejam orientados e tirem suas dúvidas. Já o atendimento com adultos acontece com base principalmente na fala. Algumas linhas psicanalíticas mais tradicionalistas estimulam que o paciente fale mais e o terapeuta apenas pontue suas interpretações em alguns momentos. Mas hoje em dia a maioria dos psicólogos trabalha de forma mais interativa, como uma conversa mesmo. Dependendo da linha teórica seguida pelo profissional e do caso atendido, outros elementos se incluem nos atendimentos, como análise de sonhos, técnicas corporais, relaxamentos, etc.

Basicamente é isso. Para terminar, dois pontos fundamentais. O primeiro é a ética, o sigilo. Isso significa que os psicólogo não pode expor o que acontece no atendimento sem que o paciente autorize. E, mesmo quando autoriza, o caso é exposto sem informações que possam identificar sobre quem se fala (nome, lugar onde trabalha ou estuda, dados irrelevantes para a compreensão do caso, etc.). Mesmo quando atendemos crianças e damos uma devolutiva aos responsáveis, não se fala sobre o que a criança fez ou disse, mas sim sobre como percebemos o processo. O segundo ponto é a importância do psicólogo ter passado por um processo terapêutico. Como mexer na escuridão dos outros se não conhecemos bem os caminhos e percalços da nossa própria escuridão? Conheça muito bem o seu mundo interior antes de se aventurar pelo de outras pessoas.

Espero ter contribuído.
beijos,
Bia

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2 comentários:

  1. Nunca fiz terapia, não que eu ache uma bobagem como muitos, apenas não senti vontade.
    Meus filho fez quando criança e minha filha, que é pequena faz.
    É um tema que conheço pouco.
    Bjs

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    Respostas
    1. Terapia está mesmo longe de ser uma bobagem, Cláudio. A única forma de começar a nossa transformação é olhando para o nosso interior. Sei que sou suspeita para dizer, mas recomendo a todos que em algum momento façam terapia, não porque "precisem", mas porque todos merecem dar esse carinho a si mesmos!
      bjs

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