quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Convivendo com segredos

"Que os segredos, amiga minha, também são gente; nascem, vivem e morrem." - Machado de Assis (1839 - 1908), escritor brasileiro.

Todo mundo tem segredos. Não é questão de ser tímido, introvertido ou, como muitos gostam de acusar hoje em dia, de não ser autêntico. Temos segredos porque separamos nossa vida entre pública e privada. Neste ponto, cabe dizer que aquilo que é visto como público ou privado varia de acordo com o grupo social e a época. Um exemplo claro é a religião. Por muito tempo, a religião foi vista como parte da vida pública: no ocidente cristão, era a Igreja que cuidava de documentos e registros de nascimento, casamento e morte. Era ela quem promovia boa parte das festas e eventos sociais, em muitas cidadezinhas, era na igreja que a  população se reunia para discutir questões pertinentes à comunidade e era ao redor se seu calendário e datas comemorativas que a rotina das pessoas se organizava. De poucos anos para cá, conforme muitas religiões, filosofias de vida e ideologias passaram a coexistir dentro do mesmo espaço social, a religião vem sendo cada vez mais colocada no campo da vida privada. No Brasil, durante o último CENSO houve relatos de pessoas que se recusaram a responder aos pesquisadores sobre a religião que seguiam alegando que isso era muito pessoal e que o Estado ou quem for nada tem a ver com isso.

Mas este não é um artigo sobre religião. Este é um texto sobre segredos. E cada um guarda em segredo aquilo que acredita ser pertinente manter para si mesmo ou para um pequeno grupo de pessoas de confiança. Todos temos nossos segredos. E ao contrário do que se pode pensar, tê-los não tem nada a ver com desconfianças ou desconsiderações. Dependendo dos valores de cada pessoa, de seu jeito de ser e de sua história, existem aspectos da vida que a pessoa pode se sentir pouco confortável para comentar, ainda que com uma pessoa querida.

Os segredos mais escuros podem nos conduzir a lugares surpreendentes!
Vivemos numa cultura em que se prega fervorosamente que todos precisam ser super extrovertidos e falar sobre tudo com todo mundo, afinal, as pessoas precisam se abrir! Mas a vida nem sempre é por aí. Em boa parte das vezes, não é. Do ponto de vista psicológico, não há problemas em ser uma pessoa mais introvertida, mais "fechada", muito menos há problemas e ter segredos, desde que a pessoa lide bem com isso. Porque nem sempre temos a necessidade e/ou a vontade de dizer certos detalhes da nossa vida a outras pessoas. Como psicóloga eu diria que manter segredos são ruins quando afetam a vida de outras pessoas (ou a nossa) de forma mais significativa, ou quando quem guarda o segredo não consegue lidar com ele sozinho e acaba se machucando ou se colocando em risco.

Um ponto fundamental: podemos guardar um segredo de quase todos. Só não podemos guardar segredo de nós mesmos. Porque o segredo que guardamos da gente mesmo fica tão bem guardadinho, escondido lá nas profundezas da psique que logo começa a nos fazer mal. O segredo, ou o conteúdo inconsciente, precisa aparecer, pelo menos para nós, e se relutamos em olhar para ele da forma como é, começará a se mostrar em sintomas, tensões e conflitos.

Para evitar isso, é fundamental manter livres as estradas de acesso entre consciente e inconsciente, em especial mantendo uma atitude receptiva para consigo mesmo. Mas ao se falar sobre segredos, tem mais um detalhe muito importante: conhecer bem os seus limites e as suas fronteiras entre o público e o privado. Reflita: o que é público para você? Ou seja, que tipo de coisas a respeito de si ou da sua vida você gostaria que os outros soubessem ou não se importaria se viessem a público? Esse tipo de informação em geral está dentro do que é aceito pela sociedade ou pelo grupo com o qual convivemos. Costumam fazer parte dele informações sobre nossa vida profissional, detalhes mais superficiais da nossa vida familiar, esportes e atividades que gostamos de fazer no nosso tempo livre, o filme que fomos assistir no cinema no último final de semana, etc. Dependendo do grupo em que estamos, essas informações podem ser mais aprofundadas ou mais superficiais. Essas são as informações que permitem que as outras pessoas comecem a nos conhecer e formem uma imagem de quem somos.

Alguns segredos são compartilhados com pessoas ou grupos de confiança (geralmente familiares e amigos mais íntimos, o psicoterapeuta e os grupos terapêuticos, talvez alguns vizinhos e colegas mais próximos... Entram aí detalhes mais íntimos da nossa vida pessoal e familiar, como contratempos e surpresas (boas ou ruins) que vivenciamos, alguns dados sobre como nos sentimos e sobre a nossa saúde, acontecimentos do dia a dia, alguns conflitos que enfrentamos... Esses pequenos segredos permitem que as pessoas da nossa confiança nos conheçam um pouco mais intimamente, assim eles podem olhar para nós e ver além do que aqueles detalhes superficiais permitem supor.

O que é privado para você? Quais ideias, sentimentos e vivências você não gosta de expressar? Por que? É importante conhecer esse nosso lado ou, no mínimo, ter uma boa noção de que tipo de segredos guardamos (até de nós mesmos). Algumas informações nós conhecemos e apenas guardamos para nós mesmos. Já outras são tão conflitivas para nosso lado consciente que o inconsciente nos protege mantendo-as para si e lidando com elas como pode. Ele faz isso mostrando-as de forma simbólica em nossos sonhos e sintomas, por exemplo, mas também nos nossos desejos, em situações que se repetem na nossa vida, nos conflitos que enfrentamos e até mesmo projetando esses conteúdos e sentimentos sobre outras pessoas. Neste campo podem entrar emoções e ideias que não aceitamos em nós e pensamos que os outros também não aceitariam, exemplos comuns são certos conteúdos ligados à raiva e a alguns medos antigos. Podem entrar aí também as vivências traumáticas e dolorosas, como estupros, abusos e violências de todo tipo que a pessoa tenha sofrido, conflitos que não consegue admitir que existem, ter passado por acidentes graves, perdas repentinas e muito dolorosas, crises muito intensas, entre outros.

Respire bem fundo e diga a si mesmo que permite que seus "segredos" se revelem para você de forma saudável. Permita-se conhecê-los, permita que esses conteúdos venham. Sem grandes julgamentos ou cobranças, apenas se sinta receptivo. Se for algo muito pesado para lidar sozinho, divida o segredo com alguém em quem você confia. Se for preciso, se a situação te machuca, busque ajuda de um profissional. E não, você não vai "traumatizar" o psicólogo, como estive ouvindo por aí! Este profissional foi treinado para olhar para as faces que nem a própria pessoa quer ver, ele sabe transitar entre o mundo consciente e inconsciente e pode ajudar a lidar com o que emerge, em especial quando os "segredos" envolvem experiências traumáticas de abusos e violências, situações fora do nosso controle com as quais precisamos lidar ou mesmo as consequências desastrosas de uma escolha que não foi bem pensada. Por mais terrível que seja um segredo, ele é o que é: apenas mais uma informação. E as informações nos afetam de maneiras diferentes dependendo da forma como escolhemos lidar (ou não lidar) com elas.

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