terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mythos - Baba Yaga: aceitando os ciclos

Hoje vamos conversar sobre uma figura muito comum nos contos de fadas russos e no folclore dos países do leste europeu, Baba Yaga. Sua interpretação muda um porco conforme a cultura, por exemplo, enquanto nos contos russos ela é uma bruxa má, no folclore da Hungria, por exemplo, Baba Yaga é uma fada boa. Em todos os casos, no entanto, essa personagem tem pontos em comum: é representada por uma mulher muito idosa ("baba", em russo antigo, significa velha, feiticeira e contadora de histórias/sábia - isso revela como a mulher idosa é/era percebida nessas culturas). Como tantas feiticeiras de contos de fadas, ela vive numa cabana na floresta. Mas há uma peculiaridade sobre a cabana da Yaga, ela é construída com os ossos dos mortos e tem pés de galinha, por isso a casa pode mudar de lugar com frequência, confundindo e surpreendendo os viajantes desavisados.

Imagem: Nik-Ants, deviantArt.
Outra coisa interessante sobre a Baba Yaga é o seu lado destrutivo. Ela não apenas tem uma casa construída com ossos dos mortos, mas também devora crianças. Além disso, viaja montada num almofariz (um objeto no qual se mói grãos e outros alimentos). Isso sugere a questão do sacrifício. Em tempos passados, o sacrifício era muito mais explícito do que hoje, pois era literal. Em diferentes culturas, pessoas e/ou animais eram sacrificados como forma de garantir proteção ao grupo, transformações, e diversos outros fins. Algumas vezes, como a história da Yaga mostra, produtos como grãos (e, mais tarde, pães e bolos) eram "sacrificados", assim como leite, vinho e mel e outros alimentos, que eram oferecidos a diversas divindades como forma de agradecimento ou de fazer algum pedido, compartilhando o que o grupo tinha de melhor e que poderia agradar à divindade em questão. Nos dias de hoje ainda fazemos sacrifícios, embora geralmente sejam mais simbólicos, como no campo dos comportamentos e atitudes.

Em nossa vida, os aspectos da nossa personalidade que não são vivenciados de forma construtiva, acabam por se mostrar de maneiras destrutivas, seja na forma de sintomas, crises, conflitos, acidentes... Baba Yaga nos mostra, ao viajar num almofariz, a importância de alimentar a nossa vida. Os grãos que seu almofariz é capaz de moer não se sacrificaram ao acaso, e sim com o objetivo de nos fortalecer, nos alimentar, enfim, manter a nossa vida. Da mesma forma, a casa construída com ossos mostra que aqueles aspectos nossos que parecem "mortos" ou profundamente adormecidos podem ser a nossa maior base. Se unimos a imagem da morte ao almofariz, temos a morte/sacrifício como um portal para grandes transformações (lembre-se que, ao serem moídos, os grãos se tornam farinha, cujos produtos são a base alimentar de muitos povos). Assim, os fins de ciclos (representado na figura mitológica pela imagem da anciã) ganham um potencial transformador, preparando-nos para novas etapas, novos ciclos e renovações diversas.


Questões para Reflexão:

1- Como você lida com as mudanças da vida? Existe algum medo ou receio nesses momentos? Algumas pessoas vêem o começo dos ciclos com bom ânimo, outras com incerteza. Já o fim dos ciclos podem ser vivenciados como transformadores, portas para novos começos, ou como fins absolutos, fazendo com que a pessoa se feche para os recomeços. É normal ter certo receio dos fins, afinal, não sabemos o que vem pela frente no novo ciclo, é difícil trocar o conhecido pelo incerto... Mas esse sentimento não pode ser forte o bastante para nos paralisar, precisamos ser nutridos pela Baba Yaga, precisamos nos manter fortes e confiantes no futuro. Isso acontece através do planejamento da finalização e do novo ciclo, bem como mantendo o foco na sabedoria acumulada no ciclo que termina. O que esse ciclo te ensinou e será levado para as próximas etapas de vida?

2- A pessoa sacrifica algo ou a si mesma sempre que transforma aquilo que será sacrificado em algo sagrado. O que cumpre função sagrada para você? Não estamos falando (necessariamente) de religião ou espiritualidade. Quem ou o que está em primeiro lugar na sua vida? Podemos viver por muitas coisas... mas o que é tão importante para você a ponto de valer seu sacrifício, sua morte (simbólica)? O que te nutre?

3- Perdemos o contato com o envelhecimento. Vivemos numa realidade em que todos "precisam" ser (ou parecer) sempre jovens. Juventude virou sinônimo de saúde e beleza, como se não existisse estética no processo de envelhecer e nas pessoas mais idosas... Quantos anos você tem e quantos anos tem a sua mente? E o seu coração? Um problema vindo desse conflito com o envelhecer é a questão da sabedoria. "Baba" significa idosa, mas também sábia e feiticeira (aquela que transforma). Como um rosto que fica eternamente na casa dos 20 e poucos anos pode aprender e se transformar, como pode demonstrar a sabedoria conquistada nos anos vividos? Por que negamos esse presente? Quando não nos permitimos envelhecer, nos negamos a maior transformação pela qual podemos passar: viver a nossa história.

4- Vamos fazer um breve exercício. Sente-se confortavelmente e respire fundo. Enquanto expira, relaxe todos os músculos do seu corpo. Repita a respiração mais duas vezes. Veja-se em frente a uma senhora muito idosa. Não tenha medo de olhar para ela. Repare em seus cabelos brancos e ralos. Repare na pele muito enrugada, nos movimentos vagarosos... Repare na sabedoria que existem nos olhos dela. Aproxime-se dela. Ela sabe quem você é e sabe tudo sobre você. Converse com ela. Conte algo que te angustia, abra seu coração. No fim da conversa, ela te dará um conselho sábio, junto com algum objeto. Guarde esse objeto no seu coração, aproxime-o do seu peito e veja-o integrar-se a você. Respire profundamente. Ofereça, também, um presente para a sábia. Despeça-se e abra os olhos. Saiba que ela estará sempre com você. Sempre que precisar, basta respirar profundamente e conectar-se a ela.

5- Baba Yaga, como vimos, é uma figura poderosa de transformação. A casa de ossos mostra algo aparentemente morto que é usado de forma construtiva, tão viva que até se move (graças aos pés de galinha, a casa da Yaga muda sempre de lugar). Quais aspectos em você ou em sua vida parecem "mortos" ou profundamente adormecidos? Uma vez identificados, é fundamental fazer as pazes com esses pontos seus, permitir que se mostrem de forma criativa. Quem sabe justamente esses aspectos se tornem sua maior força, seu refúgio? Permita-se transformar aquilo que precisa ser transformado, e permita-se também integrar esses aspectos, aproveitando-os de forma construtiva. Nesse potencial para integração e transformação está a essência da sabedoria de Baba Yaga: finalizar os ciclos para que se possa recomeçar.

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