terça-feira, 3 de setembro de 2013

Mythos - O pequeno grão de bico: força de vontade

Hoje vamos trabalhar a nossa força de vontade, aquele impulso que nos faz continuar mesmo quando tudo a nossa volta parece ir contra nós. Força de vontade é aquilo que emerge quando estamos numa situação difícil e mais ninguém, além de nós mesmos, acredita que somos capazes de resolvê-la. Para isso não vamos usar um mito, mas sim uma história folclórica (que faz a mesma função dos mitos pois também usa linguagem simbólica), um conto de uma região da Itália chamada Abruzzo, de onde vieram meus pais (esta é também uma homenagem a eles, mesmo de longe, espero que se sintam abraçados!). Este era um dos meus contos preferidos quando eu era criança, e a lembrança de ouvi-lo com tanta frequência na voz sempre bem humorada e dramática do meu pai mexe comigo até hoje. Espero poder contar essa história para vocês de forma tão significativa como ele fazia nas noites de tantos anos atrás.

O Pequeno Grão de Bico era um menino muito pequeno para a idade dele. Tão pequeno que cabia na palma da mão de seus pais e quando ia a algum lugar distante, viajava no bolso de alguém. Mas mesmo sendo pequeno, o Pequeno Grão de Bico era um menino esperto. Ele gostava muito de brincar nos campos e de ajudar os pais a cuidar dos animais. Quando chegava o inverno, nevava muito na região montanhosa em que ele e sua família vivia, e naqueles dias, o Pequeno Grão de Bico brincava na neve com seus amigos e depois iam todos para dentro de casa para se aquecer perto do fogo. Naquele tempo não existia aquecedor, por isso era muito importante ter sempre um estoque de lenha por perto durante o inverno rigoroso das montanhas.


Certa noite, a pequena casa onde a família morava ficou sem lenha e o fogo, dançando tímido, não duraria muito mais tempo. Acontece que naquele inverno os pais do Pequeno Grão de Bico ficaram doentes e não podiam sair no frio da nevasca que estava para cair. O menino olhou ao seu redor e se viu sozinho com os pais muito gripados. Pela primeira vez ele estava sozinho num momento difícil e precisaria dar conta da situação. Talvez se ele queimasse alguma outra coisa no lugar da lenha, pelo menos naquela noite... mas o que? A casa onde viviam era muito simples e não podiam apenas queimar o que tinham! Podia queimar papéis velhos, mas o menino sabia que além de fazer muita fumaça, o fogo de papel apagaria depressa... Foi quando o Pequeno Grão de Bico viu que a única forma de vencer um problema é enfrentando-o. A mãe viu o filho se agasalhar e perguntou onde ia. Já era noite, começava a cair uma nevasca e o menino era pequeno demais para sair sozinho com um tempo daqueles! Além disso, ele estava acostumado a andar sempre no bolso dos pais e na certa não saberia se virar sozinho. Quando ele avisou que ia buscar lenha, os pais ficaram muito apreensivos. Por um lado, não queriam que ele saísse e corresse tantos riscos. Por outro lado, sabiam que a única forma da família não congelar de frio era deixando que ele fosse.

Quando chegou ao estábulo, os animais estranharam o menino aparecer assim, no meio da noite. Ele explicou a situação e logo ouviu comentários sobre o que pretendia fazer. As galinhas achavam que o melhor era estar numa cama quentinha numa noite fria como aquela, e quanto mais cedo, melhor. As ovelhas concordaram e disseram que ele deveria voltar para casa e se enrolar num cobertor de lã bem quente. As cabras lembraram que estava nevando e o Pequeno Grão de Bico poderia se perder na neve, e como seus pais ficariam tristes e sentiriam sua falta, pois o menino era a alegria da família! E o burro falou que por um bom motivo até sairia, mas tinha medo de sair sozinho com aquele tempo, pois a neve cobria os caminhos e ele não saberia voltar para casa sem ter as pegadas para seguir... "Mas eu sei como voltar!" Disse o menino, já subindo pelo animal. Os outros bichos disseram que ele era muito pequeno e cairia de cima do burro quando ele corresse, pois nunca havia ido para tão longe sozinho. Mas ele tinha um plano: enrolou-se na orelha do burro, assim além de ficar quentinho e seguro, poderia dizer o caminho até a casa do lenhador com mais facilidade!

E assim partiram. Enfrentaram o vento forte e a nevasca. O Pequeno Grão de Bico tinha um ótimo senso de direção, por isso ensinou ao amigo um caminho rápido e seguro. Quando chegaram à casa do lenhador, o homem não podia acreditar que o menino teve coragem de ir até lá numa noite como aquela! Sabendo das notícias sobre os pais dele e que a família estava sem lenha, o homem vestiu seu casaco e carregou o burro com alguns feixes de lenha.

Chegando em casa, os pais do Pequeno Grão de Bico estavam muito apreensivos, e ficaram felizes de ver o menino voltar bem e com lenha suficiente para a família se aquecer. Depois desse dia, todos souberam que mesmo pequeno, ele era capaz de grandes feitos, pois tinha boa vontade, estratégia e bons amigos.


Questões para Reflexão:

1- Caber na palma da mão dos pais é um símbolo poderoso de proteção. É preciso primeiro se sentir pequeno e protegido para depois ser grande. Só cresce quem um dia já foi pequeno, é subindo os degraus do nosso desenvolvimento que nos tornamos grandes e mais maduros e, para isso acontecer, é fundamental o olhar amoroso de pessoas significativas. De quem você recebeu esse tipo de olhar quando pequeno? E hoje em dia, de quem você recebe?

2- Desafios são fantásticos, pois nos permitem crescer conforme nos sentimos capazes de fazer algo que antes duvidávamos. Guardamos a experiência de superação como uma referência de sucesso, isto é, uma lembrança muito forte e vívida de que podemos dar conta das exigências da vida. Lembre-se dos maiores desafios que enfrentou e das estratégias que usou para superá-los. Experimente reviver em seu corpo as sensações que teve ao vencer o desafio.

3- O Pequeno Grão de Bico nos ensina a ser o herói da nossa própria história. É nos desafios, conforme criamos nossas estratégias e as colocamos em prática, que sentimos que somos não apenas o herói da história, somos também os donos dessa história, e podemos escrevê-la da forma que mais nos satisfaz. E nesse processo, podemos nos tornar a pessoa que gostaríamos de ser.

2 comentários:

  1. A força de vontade como está dizendo nos dá uma força maior que achamos que somos capaz.
    O desafio por algo maior nos impulsiona para atingi-lo.

    Quem diria hein? O burro que ajudou a resolver o problema. Eu não conhecia esta estória. Achei muito legal.

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    1. Obrigada, Claudio! Este conto é bem pouco conhecido mesmo, mas acho bastante simbólico para as pessoas do nosso tempo. Precisamos aprender a nos ver e a nos colocar mais como nossos próprios heróis. Haha o burro que ajudou... Como dizem, todos tem algo a ensinar!
      Bjs

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