terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mythos - Perséfone: Quem você foi antes de se tornar quem você é?

Este é um mito grego do qual gosto muito, pois sua linguagem simbólica nos conta sobre o processo de crescer e abrir nosso mundo para novas realidades, tornando-nos quem realmente somos (ou queremos ser).

Perséfone é a deusa da primavera. Nesse momento do mito, ela é conhecida por Core, que em grego significa "menina". Ela vivia com sua mãe, Deméter (deusa da colheita e da fertilidade). Um detalhe fundamental para que se compreenda o mito: Deméter é, também, o arquétipo da mãe, pois a colheita e a fertilidade estão muito relacionadas ao nutrir, ao cuidar. E sendo o arquétipo materno, não é difícil concluir que Deméter realmente gosta de ser mãe, tanto que esse gosto algumas vezes passa dos limites e cai numa superproteção, que pode fazer a filha se sentir sufocada.

Perséfone chega ao submundo.
Imagem de minha autoria.
Certo dia Perséfone colhia flores num campo com suas amigas ninfas. Elas colhiam lírios, que no mito podemos associar à inocência. De tanto que se divertia, se afastou do grupo sem perceber, atraída por uma flor que nunca havia visto, o narciso. Note que o prefixo da palavra narciso ("nar") é o mesmo de palavras como narcótico, relaciona-se a torpor. Quando a jovem colheu o narciso, uma fenda se abriu sobre a terra e de lá saiu Hades, em seu carro puxado por cavalos negros. Hades é o deus do mundo dos mortos, que havia se apaixonado pela deusa da primavera (do retorno da vida), tão oposta e, ao mesmo tempo, tão semelhante a ele mesmo. Hades raptou Perséfone e levou-a para seu reino no submundo. A fenda na terra se fechou de pronto, fazendo com que aparentemente ninguém soubesse o que havia acontecido.

Outro fato importante para compreender este mito: na Grécia Antiga, era costume que o noivo raptasse a noiva da casa de seus pais, provando assim sua "capacidade" e seu "valor". Neste caso específico, Zeus, o líder dos deuses e pai de Perséfone, havia concordado concordado que Hades desposasse sua filha. Deméter, no entanto, não sabia de nada, e sendo uma mãe cuidadosa e superprotetora, entrou em desespero ao perceber que a filha havia desaparecido. Durante 9 dias, ela percorreu o mundo inteiro procurando por Perséfone, sem encontrá-la. No décimo dia, Hélio teve pena do desespero da deusa e contou-lhe o que havia acontecido. Hélio é o titã que representa o sol. Sendo assim, tanto por sua luz e brilho, como pela posição privilegiada em que cruza o céu todos os dias, ele é quem vê tudo e sabe de tudo. Sabendo do que houve, inclusive que Zeus havia decidido o futuro da filha sem nem ao menos dizer a elas, Deméter perde sua função, perde o sentido que dava a sua vida (ser mãe). Porque perdeu a alegria de viver, Deméter envelhece (ou, por ser uma deusa, transforma-se numa velha) e vaga sem rumo pelo mundo.

Enquanto isso, no submundo, Perséfone se recuperava do susto do rapto, da falta que sentia da mãe e de sua vida de antes, e começava a se acostumar com sua nova realidade. Importante dizer que no submundo, assim como no nosso inconsciente, o tempo passa de forma muito diferente do mundo dos vivos / da realidade externa. Hades é um deus muito temido pelos gregos, as pessoas evitavam até mesmo dizer seu nome, preferindo títulos como "o rico" (em almas e em preciosidades, seja as do inconsciente, seja as riquezas que existem abaixo da terra). Conforme Perséfone o conheceu, percebeu que não era bem assim. Hades era um deus pouco compreendido e também pouco conhecido, já que raras vezes saia do mundo dos mortos. Ela percebeu que ele não era terrível e assustador como diziam, era um homem gentil e maduro, com um mundo interior criativo e cheio de potenciais (a semente precisa ser enterrada - ir para o mundo dos mortos - para que brote e dê frutos).

Andando sem rumo pelo mundo, Deméter chegou a Elêusis, onde as princesas da cidade-estado a encontraram e a levaram para o palácio. Lá, o rei Celeu e a rainha Metanira tiveram pena da velha que perdera a única filha e, sem saber que se tratava de uma deusa, permitiram que Deméter ficasse no palácio, como ama do bebê do casal, Demofonte. O dia a dia no palácio, fazendo algo que gostava, cuidando amorosamente do bebê como se fosse seu próprio filho. Ela se envolveu tanto com a tarefa que resolveu transformar o menino em imortal. Todas as noites, depois que ele adormecia, Deméter o envolvia com néctar (a bebida dos deuses) e o colocava no fogo (relacionado à transformação), fazendo um ritual. No último dia do ritual, a rainha Metanira viu o que acontecia e, horrorizada, retirou o filho do fogo, impedindo a conclusão do ritual. Demofonte continuaria humano, não poderia suprir o vazio emocional deixado pela perda de Perséfone e, percebendo isso, Deméter se revelou como deusa em todo seu esplendor. Ela declarou então que, enquanto não recuperasse a filha, nada cresceria na terra, que ficou coberta de gelo.

Deméter apelou a Zeus para que trouxesse a filha de volta. Ele negou, já havia permitido o casamento com Hades e não poderia trazer a moça de volta para sua mãe. A onda de frio persistia, Deméter dizia que, se não recuperasse a filha, nada mais viveria sobre a terra. Algum tempo passou, os seres humanos, animais e plantas começavam a morrer, seja de fome, seja de frio. Nesse ponto, Zeus já estava preocupado. Se Deméter continuasse com sua greve, a humanidade inteira morreria. E, sem seres humanos, o que seria dos deuses? Quem iria honrá-los e cultuá-los? Como continuariam existindo sem as crenças das pessoas?

No submundo, Perséfone e Hades já haviam se apaixonado e estabelecido um relacionamento, ambos felizes e satisfeitos com a situação. Certo dia, Hermes, o deus mensageiro (e um dos únicos a ter livre acesso ao mundo dos mortos) trouxe uma mensagem de Zeus, que pedia a presença de Hades no Olimpo para decidirem o que seria feito com a situação de seu casamento e das consequências que trouxe para Deméter, para a humanidade e, se nada fosse feito, para os deuses. Hades conversou com Perséfone. Era certo ela continuar lá? Era adequado pensarem em sua felicidade quando o mundo inteiro perecia? Mas, ao mesmo tempo, eles se amavam e não queriam deixar um ao outro... o que fazer? Foi quando tiveram uma ideia. De acordo com as leis do mundo dos mortos, quem comece o alimento dos mortos ficaria para sempre preso a ele. Hades deu a Perséfone uma romã, fruta associada aos óvulos pela quantidade de sementes e pela cor vermelho sangue de seu suco. A deusa comeu algumas sementes de romã, em algumas versões 4, em outras 6 sementes.

De volta ao Olimpo, Deméter percebe que Perséfone está diferente. Não é mais uma garotinha, mas sim uma mulher. Uma mulher forte e que deseja seguir seu próprio caminho, tornando-se a rainha do mundo dos mortos ao lado de Hades. Mas, ao mesmo tempo, Perséfone se preocupava com a mãe e não queria deixá-la sozinha. Diante do ponto de vista da filha, Zeus propôs um acordo: Perséfone passaria no submundo o número de meses por ano correspondente ao número de sementes de romã que comeu (4 ou 6). Os meses que Perséfone passa no submundo, correspondem aos meses de inverno, quando Deméter lamenta a morte da filha. Quando chega a primavera, ela retorna para a terra, vivendo com sua mãe.

Uma curiosidade para terminar este mito. Os reis de Elêusis ficaram tão honrados por haverem tido uma deusa entre eles que construíram na cidade um grande templo para Deméter. Também sentindo-se grata, Deméter ensinou o outro filho do casal, Triptólemo, a cultivar trigo e fazer pão, instruindo-o a passar este conhecimento a toda a humanidade. Todos os anos acontecia em Elêusis uma grande procissão de Atenas até o templo de Elêusis, quando os iniciados presenciavam o mistério da deusa, o Hiero Gamos (casamento sagrado), um poderoso rito de fertilidade e renovação.


Questões para Reflexão:

1- Ao perder a filha para o deus dos mortos, Deméter passa por um processo de luto em suas diversas fases: negação (os nove dias procurando a filha pelo mundo, atuando como ama de Demofonte e tentando fazer o menino tornar-se um imortal para que suprisse o lugar emocional da filha), raiva (deixa de prover a terra com alimentos e cobre-a de gelo), barganha (tenta negociar o retorno de Perséfone com Zeus e com Hades) e, por fim a aceitação (aceita perder a filha para o mundo dos mortos por alguns meses todos os anos). Um processo de luto saudável pode perdurar por até 6 meses. Lembre-se de alguma perda muito significativa que você teve. Como reagiu a ela? E como a superou? As perdas nos transformam. Mesmo depois de superá-las, já não somos mais os mesmos.

2- Quando Perséfone é levada ao submundo, ela vivencia um intenso rito de passagem, deixa o papel da filha para ocupar os papeis de esposa e de rainha. É uma mudança muito significativa mas, para que ocorra, foi preciso permitir a morte de Core (menina). É preciso deixar de colher os lírios e se permitir conhecer o narciso... É preciso comer as sementes de romã... Crescer e amadurecer nem sempre é fácil, independente da idade que se tenha. Porque é preciso deixar um mundo e um modo de vida conhecido e confortável e abrir-se para o novo, para o incerto. Qual foi a transformação mais intensa pela qual você já passou? Quem é você depois disso?

3- Percebo um significado maior nas viagens de Perséfone entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Por que ela alterna seu tempo entre a mãe e o marido? Simples! Porque por mais que a gente se transforme, aquele que já fomos um dia de certa forma continua a existir dentro de nós. A mãe já foi filha. O velho já foi jovem. Talvez o agressor já tenha sido a vítima. A psicóloga já foi apenas uma estudante meio entediada, lendo livros de mitologia numa aula qualquer... O inverno não se vai para que a primavera chegue, mas é o próprio inverno que se transforma em primavera, e chega com a força da vida porque já se permitiu conhecer a frieza da morte. Assim somos nós, nunca deixamos de ser quem costumávamos ser, nos tornamos outros e nos transformamos apenas a partir daquele que um dia fomos, e que sempre marcará nossa identidade. Quem você foi antes de se tornar quem você é?

2 comentários:

  1. Adoro esse mito! Perséfone é uma das minhas deusas favoritas e sempre componho algo com essa deusa quando se aproxima a primavera. Adorei as questões para reflexão, parabéns Bia e obrigada!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu que agradeço, fico feliz de saber que vc gostou. Este também é um dos meus mitos preferidos! bjs

      Excluir