quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Permita-se caminhar no seu tempo

"Independência é aceitar a si mesmo antes da aprovação alheia." - Martha Medeiros, escritora brasileira contemporânea.

Vou começar o artigo de hoje contando dois momentos que vivi na última semana. No primeiro eu estava em um museu de história natural. Logo na entrada, havia um magnífico esqueleto de dinossauro, imponente, como se desse as boas vindas a cada visitante. Ao redor dele, inúmeros visitantes observando, estudantes fazendo anotações, e entre tantas pessoas, um menino me chamou a atenção. Devia ter uns 4 ou 5 anos e dizia super animado a quem quisesse ouvir que aquela era a primeira vez que ele via um dinossauro de verdade (ou ao menos o esqueleto...), o quanto ele adora dinossauros e como estava feliz. Ao seu lado, o pai tentava puxá-lo pela mão dizendo que não tinham tempo e que, se o menino não andasse logo, não poderiam ver a sessão dos insetos. Em pouco tempo, o pai apenas segurou a criança no colo e caminhou apressado para o corredor dos insetos. No segundo momento, eu esperava um elevador. Ao meu lado, uma mulher na faixa dos quarenta anos fazia o mesmo com dois menininhos que tinham uns 3 anos. O elevador chegou e todos entramos. Tentei apertar o botão do andar em que ia descer e um dos meninos me impediu dizendo que não. A mãe sorriu e me explicou "ele adora apertar os botões! Quer saber em qual andar você vai descer." Disse ao menino que ficaria no dois. A outra criança disse "o mesmo que nós." Todos esperamos pacientemente até o menino encontrar o botão com o número dois, ficar na pontinha dos pés e, finalmente, apertar o botão. Agradeci. Na saída, demos "tchau" e as crianças nos acompanharam dizendo "tchau tchau" de tempos em tempos, enquanto a mãe esperava pacientemente que eles acenassem e recebessem de volta um aceno enquanto caminhávamos pelo corredor.

O dinossauro que o menino gostou.
O que essas duas histórias têm em comum? O tempo e a falta dele! Ou melhor, a forma como lidamos com o nosso tempo. Em atitudes tão simples, e sobre as quais provavelmente não vão mais pensar depois que passarem, essas duas famílias ensinaram valores muito diferentes às suas crianças. Enquanto a família do elevador ensinou a seguir o próprio ritmo, a respeitar a si mesmo e as próprias necessidades, a família que estava no museu ensinou sua criança a correr, passando por cima dos próprios desejos em favor daquilo que os outros preferem ou do que se espera dela. Insetos, dinossauros e elevadores a parte, quando transportamos os mesmos comportamentos para outros cenários, já com pessoas mais velhas, temos: pessoas que se permitem ser quem são, que se respeitam e são atentas aos próprios desejos e necessidades; e pessoas que passam a vida correndo contra o tempo, contra tudo e todos na expectativa de cumprir tarefas, de atender as expectativas dos outros (ou aquilo que imaginam que sejam as expectativas dos outros). E cumprir tarefa não é viver, é empurrar o tempo de vida com a barriga!

Durante o meu mestrado na PUC-SP, tive a oportunidade de conversar com diversos peregrinos e colher seus depoimentos sobre a peregrinação que fizeram e sobre suas trajetórias de vida. Um fato que me chamou a atenção, foram os conselhos que guardaram da experiência da peregrinação, e que podem ser estendidos para a vida. Neste momento, eu destacaria dois desses conselhos. O primeiro, é nunca carregar mais do que você aguenta. Carregar peso demais numa caminhada longa pode machucar, na vida, carregar mais do que a gente aguenta (emocionalmente) machuca tanto quanto. Ser forte também é saber dizer "não" e reconhecer nossos limites. Para que "carregar" um corredor cheio de insetos quando minha felicidade com o dinossauro é tanta que fez todos ao meu redor sorrirem também? Qual o sentido disso? Crianças de 5 anos vêem insetos todos os dias. Correm atrás de borboletas, espantam moscas, pisam em formigas, caçam mosquitos. Qual o sentido de ver insetos mortos quando tenho algo incrível como um dinossauro bem na minha frente? O segundo conselho dos peregrinos, muito sábio é: ande sempre no seu ritmo. Ir mais devagar ou mais depressa machuca, o corpo perde sua dança no ritmo que lhe seria natural e precisa se esforçar para acompanhar ritmos que lhe são estranhos. Respeite o seu tempo para procurar botões no elevador ou acenar para uma desconhecida, se é isso o que te faz sorrir.

Caminhar no seu tempo é respeitar seu ritmo, suas necessidades e desejos. Durante alguns dias, faça uma avaliação da sua rotina. Viva-a da forma como está acostumado, mas mantendo o foco na questão: estou me respeitando? O que me impede de caminhar no meu ritmo e de me dar o meu tempo? Por mais ocupada que seja uma pessoa, por mais cheia que seja sua agenda, é fundamental ter os "tempinhos de respiro" entre uma atividade e outra. Isso não é luxo, isso é parte do respeito com que tratamos a nós mesmos. Depois de alguns dias, faça um balanço, separe o seu dinossauro dos insetos do seu pai, separe o que faz sentido ser vivido e o que você está apenas atravessando numa dança meio arrastada que não é sua.

No fim, o que dói mais não é viver uma vida que não escolhemos. Sim, isso dói bastante. Mas dói ainda mais perceber que, ao fazermos isso, nós não nos respeitamos. Ora, se nem nós mesmos respeitamos os nossos limites, como esperar que as outras pessoas respeitem? Não respeitam. Porque quando a gente não coloca nossos limites de forma clara, passamos para as pessoas a imagem de que somos "ilimitados", e aí eles podem ir até onde quiserem, não precisam nos tratar como gente! Não somos ilimitados, ninguém é. Por isso, permita-se caminhar no seu ritmo, descobrir os seus próprios ritmos e as suas danças. Apenas assim, conhecendo-se e reconhecendo-se, você perceberá quais são os seus limites e o que te faz sorrir.

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