quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Veja o outro como ele é: uma questão de identidade

"Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil." - Leon Tolstoi (1828-1910), escritor russo

Podemos olhar para uma pessoa através de muitas lentes e de ângulos muito diferentes. E dependendo da lente e do ângulo que escolhermos (ou que se apresentam disponíveis para nós), estabeleceremos um tipo diferente de relacionamento com a pessoa em questão. Vamos começar pensando nas identidades. A identidade de alguém não se baseia apenas em quem a pessoa acredita que é. Ninguém vive só. Por menos pessoas que tenha a sua volta, mesmo que se considere pouco sociável, todos estamos inseridos em algum tipo de grupo, sendo o mais básico o que podemos pensar como esta época, lugar e meio cultural. Esses grupos (e outros, como a família, os amigos, os colegas da escola ou do trabalho, o grupo religioso, etc.) nos ajudam a definir nossa identidade. Como todos sabem, não somos sempre os mesmos, mudamos e nos transformamos ao longo da vida, em cada pequeno momento do nosso dia a dia. Assim, diz Ciampa, psicólogo brasileiro de grande destaque no estudo da identidade, nossa identidade é um processo constante de transformação, a qual ele chama de "metamorfose". Identidade é metamorfose, e não algo estanque que se forma e em dado momento termina. A identidade só termina com a morte. Talvez nem com ela, pois os que ficam mantém viva a memória e a identidade do que se foi...

Mas voltando ao tema! Hoje não vamos conversar sobre a sua identidade, e sim sobre a identidade dos outros. Quem é o outro? Antes mesmo de falar com a pessoa, já se começa a ter ideias sobre a identidade dela. Onde a encontramos? O que ela faz? Como se veste? Como caminha, como se move? São elementos simples mas que, mesmo que a gente não queira, começam a nos fazer pensar sobre quem ela é. Algumas pessoas podem achar que daí é que surgem os preconceitos... e elas estão certas! Vemos o outro com lentes preconceituosas sempre que supomos coisas sobre a pessoa que não sabemos ao certo se são verdadeiras. Nem todos que estão de terno trabalham em cargos de comando. Nem sempre a moça bonitona é fútil. Nem todas as pessoas tatuadas, ou com cabelos coloridos, ou com roupas fora do convencional são mau caráter. Nem todo morador de rua é ladrão ou preguiçoso. Mas, independente de querermos ou não, criamos conceitos sobre os outros quando olhamos para eles, e esses conceitos têm base nos nossos valores e nos valores exaltados pelo meio cultural, época e local em que vivemos. Isso é o que Ciampa chama de identidade pressuposta. "Pré-supomos" coisas sobre o outro antes mesmo de conhecê-los, e iniciamos a interação com base nessas suposições e preconceitos.

Relacionamentos sinceros acontecem
quando nos permitimos ver o outro
como ele é e, ao mesmo tempo,
nos damos a conhecer com sinceridade.
 Depois, conforme um contato se inicia, surge a identidade posta. Como o outro se apresenta? Como se mostra para nós? Veja bem que não estamos falando sobre como ele realmente é, mas sim sobre como nós o percebemos num primeiro contato. Fatores que contribuem para que se comece a ampliar a identidade do outro para algo mais concreto, para algo posto: a linguagem que a pessoa usa, tom de voz e ritmo de fala, a forma como olha (ou não olha) para nós, expressões faciais, postura corporal, gestos que utiliza, sobre o que se fala, como se comporta, como é o humor... Ele é ranzinza ou só está tendo um dia difícil? Ela é sempre tão sociável assim ou quer alguma coisa? Esse menino deve ser hiperativo, por que não se senta? E os pais, por que não dizem nada? Perceba como a pessoa começa a ficar mais delineada. Saímos das suposições tão gerais e vagas, entramos no campo das possíveis características de personalidade, começamos a pensar que conhecemos os possíveis valores desse outro.

Mas o que isso tem a ver com relacionamentos? Numa interação, ou pelo menos numa interação minimamente saudável, precisamos perceber o outro. Quando essa percepção do outro não acontece, temos uma pessoa com grandes dificuldades de relacionamento, seja pelo egocentrismo, seja por transtornos do desenvolvimento (por exemplo, pessoas com autismo têm dificuldade em perceber os outros), seja apenas por uma necessidade de "desembaçar as lentes" e olhar para o outro sem medo. Mas, pensando em pessoas que percebem o outro, noto que muitos dos conflitos dos relacionamentos surgem porque a percepção para por aqui. Viu a identidade pressuposta, deu uma olhadinha na identidade posta e fim! O outro é isso. Tão previsível! E, quando a pessoa menos espera, o outro muda! Fica frio, ou ao contrário, se aproxima com intenções bem diferentes das nossas. Ou só fingia ser nosso amigo e na verdade é um falso! Reparem quantas pessoas reclamam da falsidade dos outros... E aí fica a pergunta: existe mesmo tanta gente falsa e mau caráter no mundo ou existem pessoas que não se dão ao trabalho de ver o outro como é? De conhecer o outro de verdade?

Ninguém muda da noite para o dia. Mudanças, em especial as mudanças marcantes e duradouras, ocorrem num processo gradual, de dentro para fora. Nem sempre olhamos para o outro, mas mesmo assim, o outro sempre se mostra para nós, ainda que não se queira ver. Certa vez, quando eu era recém formada, atendi um casal em crise, estavam juntos há oito anos. Contando a história deles, comentaram que se conheceram num ponto de ônibus e foram morar juntos na semana seguinte. É claro que em algum momento surgiria um conflito. Não só porque todo relacionamento, em algum ponto, tem suas tensões, mas por não se permitirem olhar para o outro da forma como são, não chegaram a se envolver de verdade com a pessoa do outro. Ambos alegaram que não mudaram, e ambos tinham razão. O que acontecia é que nenhum dos dois aceitava perceber o outro, apenas porque é muito mais confortável ficar com aquela impressão inicial do que conhecer o outro de verdade. Para encurtar a história, o casal continuou junto, depois de passar por um processo muito bonito de conhecimento mútuo.

Como conhecer o outro de verdade, diminuindo conflitos desnecessários nos relacionamentos? Observando, ouvindo, sentindo, mas também se dando a conhecer. O outro não é um objeto frio e distante, por isso só o conhecemos na interação sincera, na convivência. Muitos dos "falsos" na verdade apenas não foram devidamente conhecidos. Muitas características até são vistas mas, no início do relacionamento, tentamos manter a ilusão. Ah, ele vai mudar... Ela trata mal os pais, que independente!! Ele não é ciumento demais e nem controlador, só se preocupa comigo! Algumas vezes somos nós mesmos os responsáveis pela "falsidade" do outro, pois resistimos a deixar ir embora a fase das aparências e do encantamento. Tentamos mantê-las a todo custo. Mas vale a pena?

Claro que olhar além das aparências algumas vezes pode doer. É o preço de um relacionamento sincero. Alguns conflitos podem surgir, pois a imagem que criamos do outro com base nas identidades pressuposta e posta se choca com a forma como o outro é. No entanto, se os possíveis conflitos são superados com maturidade, há um grande crescimento para ambos e um grande amadurecimento da relação. Surge a cumplicidade e o envolvimento. Não estou dizendo que precisamos aceitar o outro seja ele como for. Apenas precisamos olhar para ele. Sim, ele é ciumento e controlador e quando a relação ficar mais séria ele não vai mudar isso. Sim, ela trata mal a família dela e, na certa, fará o mesmo com você quando se envolverem um pouco mais. Não, eles não vão mudar a não ser que queiram e trabalhem para que isso aconteça.

O que fazer com o que viu? Avaliar bem se é o que você busca num relacionamento. E, com tudo às claras, dar os passos seguintes, sejam eles quais forem, mas sempre conhecendo a situação e consciente do que escolheu. O outro pode escolher ser verdadeiro ou mostrar-se de forma falsa mas, mesmo que a pessoa realmente seja "falsa", sempre acaba por mostrar quem é nos pequenos detalhes. A nós, por outro lado, cabe decidir se queremos ver o outro como ele realmente é, se estamos prontos para aceitar a realidade ou se queremos manter a máscara. 

2 comentários:

  1. Bia, vc devia dar aulas e escrever mais, no mínimo, uns dois livros... sério!

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    1. hahaha, muito obrigada!! aproveitando pra avisar... vem novidade por aí! :)

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