sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ágora - Conversando sobre aborto

Olá Bia, não me importo de ser identificada, sou a Jéssica.
Na semana passada uma amiga minha de 19 anos "sofreu" um aborto, e para mim a palavra sofrer cabe muito bem na situação.

A questão é que sempre me posicionei como feminista, a favor do direito da mulher fazer o que bem quiser com o próprio corpo, mas essa semana me veio um trecho de uma música na cabeça e com ele um esquema de novas questões. Só para não ficar muito no ar, o trecho é esse: "Eu quero ficar perto de tudo que acho certo até um dia eu mudar de opinião." ~ Coisas que eu Sei - Dani Carlos.

Essa minha amiga só tinha o meu apoio e de mais duas outras amigas para ter os bebês, que ela até o momento queria, o namorado e a família não os queriam e depois de quase 6 meses de gestação ela "perdeu" os bebês.

Eu fiquei a flor da pele, irritadíssima, senti que meu universo estava violado e as pessoas a minha volta até estranharam essa minha reação até porque a gravidez sequer era minha.

Desde então percebi muitas mudanças na minha maneira de pensar e queria muito que você falasse um pouco mais a respeito de aborto na sua página.
Eu estudei um pouco sobre gestação no meu curso e me lembro que uma coisa que chamou muito a minha atenção foi uma informação de que até mais ou menos os 6 meses o feto não poderia sentir dor. Para mim isso foi interessante, significava que um aborto feito até os 5 meses não causaria dor ao bebê. Mas penso se esses bebês não sentiram dor, penso no que poderia ser pior, e se esses bebês, caso nascessem, crescessem, se iriam gostar ou não de viver (sim entrei até na questão sobre pessoas que cometem auto extermínio). Sei que não adianta nada ficar pensando o que não foi, mas confesso que as vezes eu faço mesmo isso.
Queria opinião de pessoas diferentes, vou ler cada comentário (caso haja algum).
De acordo com minha religiosidade eu até fiz um ritual para os bebês que minha amiga perdeu, pedindo que o espírito deles encontrem seu caminho e paz. Ela as vezes chora, mas não muito e eu controlo minha reações perto dela sabe. 
Bom, era só isso tudo. Quando e se puder falar um pouco sobre alguma dessas questões eu ficarei grata.
Beijo

Jessica - Belo Horizonte, MG


Olá, Jessica.

Entendo bem como você se sente. Falar sobre gravidez e aborto é sempre uma situação muito delicada, principalmente quando envolve pessoas queridas. Como este é um tema polêmico, é bom começar esta conversa dizendo que independente da opinião pessoal de cada um sobre o aborto, não podemos exigir que a nossa opinião sobre o tema (ou sobre qualquer outro) seja válida para todas as pessoas. Tentarei me manter o mais neutra possível ao discutir este tema, pois a ideia aqui é que os leitores possam se informar e chegar às próprias opiniões. Muitas pessoas que defendem o aborto talvez não se submetessem a um, mas são maduras o suficiente para respeitar a escolha dos outros e compreender que seu ponto de vista pessoal não pode servir para toda a humanidade. Acho importante ter isso em mente. Como o tema é amplo, decidi percorrer o seguinte caminho na nossa conversa: vamos começar falando um pouquinho sobre aborto, seguir com a possível dor sentida pelo feto, e vamos abordar também a síndrome pós-aborto, que pode estar relacionada com as reações da sua amiga que te deixam tão desconsertada.

Vamos começar com uma informação que talvez surpreenda algumas pessoas. Quando feito com segurança e higiene, o aborto é um dos procedimentos mais seguros da medicina atual. O problema começa quando nos deparamos com esta estatística: apenas 40% das mulheres em todo o mundo têm acesso em seus países a um aborto legal e seguro. Quando feito de maneira segura, o aborto até a 21a semana de gestação é mais seguro que o parto. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de morte materna por aborto é de 0,6 morte a cada 100.000 abortos, em contraste com o parto, cuja taxa de mortalidade materna é de 8,8 mortes para cada 100.000. Assim, os números mostram que um parto é 14 vezes menos seguro que um aborto (feito em condições adequadas). Ainda assim, em boa parte dos países os médicos são obrigados a dizer às pacientes que o aborto é um procedimento de altíssimo risco, mesmo em países e situações em que o aborto é legalizado. O cenário é bem diferente sem as condições adequadas de higiene e segurança: a cada ano, 70 mil mulheres morrem e 5 milhões ficam com sequelas devido a abortos feitos sem segurança ao redor do mundo. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS), e os interessados podem ler o documento emitido por eles clicando aqui. Como eu disse antes, independente de ser pessoalmente contra ou a favor do aborto (isso é irrelevante!), o fato é que são muitas pessoas morrendo ou ficando com sequelas graves devido a procedimentos descuidados. Isso é um problema de saúde pública e precisa, sim, de atenção.

 A questão do feto sentir ou não sentir dor, ou melhor, a partir de que idade gestacional o feto sente dor, é um tema de grande interesse hoje em dia nos campos da medicina, ética e política. Alguns defendem que o feto sente dor desde a sétima semana, quando os transmissores de dor da pele já estão formados. Outros defendem que apenas entre o segundo e terceiro trimestre o feto terá aparatos neurológicos e químicos adequados para sentir dor. De todo modo, os receptores de dor se formam na sétima semana, o hipotálamo (estrutura cerebral que recebe os sinais do sistema nervoso - por exemplo, os sinais de dor) já está formado na quinta semana. No entanto, não se pode dizer apenas com base nisso que o feto sente dor, pois a dor será interpretada como tal (ou seja, "sentida") no córtex cerebral, e a ligação entre o tálamo e o córtex só termina de se formar na 23a semana. Em geral, os especialistas concordam que só há dor a partir da 26a semana de gestação, quando esses sistemas e as ligações entre eles já estão mais maduros. Em alguns países, são usados anestésicos no feto para minimizar a dor durante o aborto. Na maioria dos países onde o aborto é legalizado, ele pode ser feito por escolha da mulher durante as 10-12 primeiras semanas de gestação e por orientação médica até a 21a semana. Quando se fala sobre legalizar o aborto, não se pretende abortar bebês já formados, em final de gestação, mas sim embriões nas primeiras semanas de gravidez. É bom frisar também que o aborto pode sim acontecer de forma espontânea (por exemplo, quando o feto não está bem "preso" à parede do útero). Isso não é "culpa" da mulher, algumas vezes a gravidez tem esse risco de aborto aumentado por diversos fatores que vão da condição de saúde da mulher, estilo de vida, histórico clínico, até as características do próprio embrião.

Hoje em dia, muitas vezes o aborto induzido é colocado como um direito de escolha da mulher. Direito sobre a própria vida e o próprio corpo. Isso levanta questões éticas, como até que ponto alguém pode ter algum direito sobre outra vida. E aí, surge outra questão, ética e científica: em que momento a vida começa? São questões que não têm uma só resposta correta, há diversos posicionamentos coerentes e que diferem de forma radical uns dos outros. Independente de pensar o aborto como algo "certo" ou "errado", legal ou ilegal, como uma simples escolha ou como um grande erro, o fato é que muitas vidas estão em risco, e sempre estarão enquanto o aborto for visto como um crime ou ainda como "método contraceptivo" (acredito que, caso se opte por fazê-lo, seja qual for o motivo, este deveria ser sempre o último recurso, não a maior forma de se evitar filhos, como pessoas menos informadas sobre o tema gostam de dar a entender!). Uma conduta ideal e acessível seria a prevenção da gravidez indesejada, que pode ser feita com métodos contraceptivos acessíveis a todos (como a camisinha ou a pílula anticoncepcional, que no Brasil são distribuídos gratuitamente no serviço público de saúde), políticas públicas (como campanhas informativas), planejamento familiar de qualidade (e isso vai - ou deveria ir -  muito além de "obrigar" pessoas a se submeterem a vasectomias ou laqueaduras, deveria envolver todo um preparo econômico, psicológico e médico). Principalmente, é fundamental que exista a educação sexual, na mídia, nas escolas, em casa... As famílias precisam superar os falsos moralismos e ter o hábito de falar sobre sexualidade com seus jovens e mesmo com suas crianças (claro, respeitando a maturidade emocional de cada um), permitindo que se expressem nesse sentido e que tirem suas dúvidas em todos os momentos, e não apenas quando já estão na adolescência e, muitas vezes, com a vida sexual iniciada.

Um detalhe pouco divulgado é que, após passar por um aborto (seja por escolha, por motivo de saúde ou o que for), a mulher precisa receber cuidados psicológicos. A síndrome pós-aborto é um conjunto de sintomas muito semelhantes ao estresse pós-traumático (comum em ex combatentes de guerras e em pessoas que passam por grandes traumas). Algumas pessoas argumentam que a síndrome não é causada pelo aborto em si, mas sim por ideias e conceitos que temos sobre este tema, que nos são passados muito sutilmente (ou nem tanto) no convívio social. Não há dúvidas de que nossas ideias, crenças e sentimentos sobre uma situação interferem na forma como lidaremos com ela depois que acontece. Entretanto, independente das causas, este é um problema sério e que necessita atenção. Alguns sintomas comuns da síndrome pós-aborto: sentimento de culpa (percebido em frases como "é uma marca/lembrança que sempre vou carregar"); ansiedade; alheamento (a pessoa parece não estar, de fato, presente aqui e agora, como se as questões da própria vida não a afetassem mais); depressão (que pode vir a ser grave, com tendências suicidas); distúrbios alimentares (da anorexia e bulimia à compulsão alimentar); abuso de álcool e drogas; comportamentos de auto-punição; bloqueio para estabelecer laços afetivos com crianças, mesmo muitos anos depois; grandes dificuldades afetivas; pode ocorrer ainda uma psicose reativa (após o procedimento, geralmente de curta duração).

Jéssica, tanto as suas reações como as da sua amiga são comuns. Legal ou ilegal, natural ou provocado, um aborto dificilmente é visto como um fato corriqueiro do dia a dia. Especialmente em sociedades de valores mais tradicionais, judaico-cristãos, como a nossa, é comum que o aborto (nosso ou dos outros) seja visto e vivido como uma grande ruptura, por mais feminista e mente aberta que a pessoa seja. Essas ideias estão muito arraigadas na mente de todos nós. Especialmente quando vivemos ou acompanhamos bem de perto situações assim, quando nos envolvemos, sempre cabe a reflexão sobre os diversos pontos de vista, pois é assim que encontramos um sentido maior para o que aconteceu.

Espero ter contribuído para a discussão.
beijos,
Bia


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2 comentários:

  1. Obrigada Bia!
    Principalmente a questão da dor me ajudou muito agora.
    Também concordo com a necessidade de acompanhamento psicológico pós aborto, e acho que voltei a encontrar minha posição a favor do direito da mulher decidir sobre seu corpo, só espero que não demoram tanto e que essa idéia do anestesico propague...
    Obrigada mesmo.
    Baixei o arquivo para ler. ^^
    Beijo.

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    Respostas
    1. Fico feliz de ter ajudado, Jessica! Acho que essa discussão sobre aborto e temas afins precisam muito estar na pauta da conversa diária de todos. É assim que se rompe preconceitos e se chega a novas possibilidades. bjs

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