sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ágora - Por que não consigo um relacionamento estável?

Olá Bia, como vai?
Primeiramente gostaria de lhe dar os parabéns pelos textos que você escreve, eu os adoro e me ajudam muito. 
Estou escrevendo para você na esperança de encontrar um pontinho de luz lá no fim desse túnel. O túnel das relações amorosas.
Não tenho muita sorte no amor Bia. Apesar de não ser a mulher mais linda do mundo, também não sou a mais feia... rsrs. Sou inteligente, madura, carinhosa, compreensiva, paciente, não sou ciumenta, não sou de pegar no pé, sei dar carinho e atenção sem parecer que estou desesperada, tenho senso de humor... enfim... Tenho todas as qualidades que os homens costumam dizer que gostam em uma mulher.
Mesmo assim é muito, muito difícil mesmo que alguém se apaixone por mim. Não tenho dificuldades para conseguir um "ficante", isso é fácil. Mas não consigo criar uma relação mais estável, é sempre só sexo, e quando tenho certeza de que não vai passar disso me sinto mal, acabo por não querer mais ver o cara. 
Não estou à procura de casamento, gosto de ser independente, mas procuro um companheiro e não um homem que apenas queria fazer sexo e nada mais.
Não sei onde estou errando Bia. 
Sei que o que estou lhe dizendo é pouco, mas quem sabe você consiga me ajudar pelo menos um bucadinho.
Desde já lhe agradeço.
Ah... Gostaria de me manter anônima se possível.
F.


Olá, F.

Fico feliz que esteja gostando do blog. Antes da gente entrar na sua questão, gostaria que você soubesse que a sua queixa é a mesma de muitas mulheres e homens no mundo de hoje. Logo, o "erro" provavelmente não é (apenas) seu, precisa ser visto como algo típico do momento histórico e social que vivemos hoje em dia.

Vivemos num mundo extremamente imediatista e individualista. Dizer isso significa que dificilmente paramos para olhar para os outros enquanto sujeitos. Na melhor das hipóteses, o ser humano de hoje tende a ver seus semelhantes como "atores coadjuvantes" de suas próprias vidas. Ou então, como simples objetos, usados da forma como for conveniente no momento. De todo modo, independente de como olhamos para o outro, o foco está sempre no Eu. Nesse cenário, crescemos sendo levados a acreditar que somos muito mais especiais que as outras pessoas, e isso não é bem verdade... Na esfera dos relacionamentos amorosos não é muito diferente. Grande parte das pessoas quer apenas alguém que supra aquela solidão momentânea, que dê conta dos momentos de carência, sem precisar lidar com os conflitos e com as diferenças que inevitavelmente surgem em qualquer relacionamento mais estável, seja um namoro, um casamento ou aquela pessoa fixa com quem sai sempre. Querem o aconchego do envolvimento com o outro, mas ao mesmo tempo a liberdade completa da pessoa que não mantém relacionamentos profundos. É mais fácil apenas "ficar", sair com alguém sem compromisso, do que ter de se envolver com os desejos mais profundos, medos, planos, anseios e inseguranças do outro (e com as nossas próprias, pois nos relacionamentos, um atua como espelho do outro). O maior problema disso é o vazio que esse tipo de relacionamento passageiro deixa na pessoa. Quem não tem ninguém, já sabe que não tem ninguém, sabe bem com o que contar e com o que não contar. Quem busca gosta do estilo de relacionamento mais solto, também está bem, pois sabe onde está pisando, o que esperar e o que não esperar do relacionamento mais aberto. Mas quem tem "ficantes" ao mesmo tempo em que deseja um relacionamento mais estável, acaba se iludindo, pensa que até tem alguém, que desta vez vai ser diferente, que ele vai mudar, que vai descobrir que nos ama e se envolver... mesmo sabendo, no fundo do coração, que é apenas mais um romance ocasional.

Mas o que fazer quando vivemos neste cenário? Penso que o primeiro passo é deixar as coisas claras. Sim, deixar claro para os outros o que espera de um relacionamento, mas também (principalmente) deixar claro para nós mesmas. Como imagino um relacionamento que me faça feliz? O que o companheiro precisa ser/fazer/ter? O que eu mesma preciso ser/fazer/ter para que a coisa funcione? Uma questão importante, mas que poucas pessoas refletem sobre ela: cabe alguém assim na minha vida, do jeito que ela está agora? Tenho espaço-tempo para uma relação estável? Um relacionamento estável, por mais aberto e livre que seja, exige de nós certas atitudes. É preciso se dedicar ao relacionamento para que ele funcione bem, seja abrindo espaços no dia a dia para estar com o outro, seja deixando de fazer apenas a sua própria vontade para que a outra pessoa também tenha seus momentos de escolha (aquele velho exemplo simples: se amo macarronada e meu companheiro prefere churrasco, em algum momento um dos dois precisará ceder, é preciso haver acordos), seja lidando de alguma forma com o fato de que esse outro agora faz parte da nossa vida.

O mundo de hoje nos dá um grande tiro no pé quando nos ensina que somos muito mais especiais que todas as outras pessoas, que precisamos sempre sair no lucro e agir de maneira completamente livre e independente... mas além de não nos ensinar a lidar emocionalmente com tamanha independência, nunca nos conta que somos nós mesmos os responsáveis pelas nossas escolhas, ou seja, que nós respondemos por elas... ao mesmo tempo, apesar das mudanças desse mundo pós-moderno, o sujeito de hoje continua a ser cobrado pelas mesmas coisas que as gerações bem mais antigas que a nossa, entre elas, um relacionamento estável, naquele velho modelinho tradicional... E aí, a sonhada independência se torna apenas um abandono de si mesmo, uma falta de referências, pois ao mesmo tempo que somos encorajados a essa independência e liberdade, não fomos ensinados a lidar com ela (emocionalmente). Olhamos para o mundo e nem sempre sabemos como agir ou o que esperar, não sabemos por  que as coisas não estão "da forma como deveriam", pois também não sabemos como é que elas deveriam estar! 

Cabe questionar: o modelo de relacionamento buscado é o que nos deixará satisfeitos e felizes? Somos mesmo tão "especiais", lindos e perfeitos a ponto de ninguém mais ser bom o suficiente? (não sei se é o caso, mas é algo muito comum hoje). Mas uma coisa é certa, fica muito complicado um modelo de relacionamento em que um mantém a liberdade total do mundo de hoje e o outro supre a estabilidade do mundo tradicional... porque essa segunda pessoa logo começará a se sentir usada. O que queremos, exatamente? Não apenas que tipo de relacionamento, mas que tipo de pessoa (alguém de muita beleza, alguém que compartilhe da sua visão de mundo, alguém que te motive e te desafie intelectualmente, enfim, qual é o ponto fundamental para você?). Que momento de vida estamos atravessando? Cabe um relacionamento "sério" nessa fase ou estamos tão voltados para outras esferas da vida que preferimos nos dedicar a outras coisas por enquanto? Veja bem que isso não tem a ver com a sua idade, tanto faz se você é adolescente, jovem ou uma pessoa mais madura, mas sim em que momento emocional você está. Tendo isso claro, onde estão as pessoas que almejam o mesmo estilo de vida que nós? Estamos procurando nos lugares certos?

Acima de tudo, não coloque suas esperanças de felicidade em uma relação, pois esta responsabilidade é nossa, não é do relacionamento e muito menos da outra pessoa. Divirta-se. Saia para dançar ou para caminhar ou vá ao cinema se isso te faz feliz. Envolva-se com atividades e projetos que te fazem sorrir, pois além de se comprometer com a sua própria felicidade, as pessoas que conhecemos nas atividades que gostamos provavelmente têm preferências em comum com a gente. Conheça-se. Não adianta nada ter as características que os homens em geral dizem que buscam, um relacionamento sincero não se faz com base em máscaras, mas sim com base em pessoas reais, com suas próprias características, pontos fortes e pontos fracos. Ocupe-se de se conhecer e também de conhecer as outras pessoas de verdade. Para terminar, tenha a certeza de que um relacionamento não garante a nossa felicidade, da mesma forma que uma vida sem um relacionamento não é necessariamente uma vida infeliz. Permita-se ter o seu tempo, viva o seu momento sem se cobrar tanto nesse sentido. Permita-se ser você.

beijos,
Bia

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