quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Educar é um ato de amor ao próximo

"Não se pode ensinar nada a um Homem, só é possível ajudá-lo a descobrir por si mesmo". - Galileu Galilei (1564-1642), físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano.

Quando eu cursava a graduação em psicologia, minha amiga Maria José Brito estava às voltas com seu mestrado e doutorado, e algumas vezes ela me enviava emails com perguntas. Não perguntas práticas, de certo ou errado, mas daquelas que nos fazem querer pensar. E eu pensava, algumas vezes pensava por semanas. E então respondia, e discussões maravilhosas aconteciam. Certa vez ela me enviou a seguinte pergunta: "Bia, o que é educação para você?" Mesmo que já se tenham passado vários anos, na semana dos professores, me pareceu um bom tema a ser discutido aqui no blog. Antes, gostaria de deixar claro que este não é (apenas) um texto sobre professores ou escolas, pois independente da nossa profissão, idade, grau de instrução, etc. somos todos educadores e aprendizes, todos temos coisas a ensinar e a aprender.

Conhecimento nunca deveria ser algo imposto, e sim algo que se constrói juntos.
Educar vem do latim educare, que por sua vez vem de ex (fora) e ducere (guiar). A educação, portanto, vai muito além do ambiente escolar ou de cuidados com crianças, como alguns pensam, acontece sempre que alguém é guiado por outras pessoas, por alguém externo a si, através de um caminho que ainda não está confiante de percorrer por si. Anos atrás, lembro-me de ter respondido à Maria José que educação é antes de tudo um ato de amor, e explico meu ponto de vista. Tomando por base o significado latino de educar que exploramos antes, podemos pensar que só pode servir de guia (e ser um bom guia) aquele que sabe muito bem onde está pisando e para onde vai. O bom guia conhece o caminho bem o suficiente para evitar obstáculos difíceis e os perigos do caminho. Mas não basta o conhecimento. Pois o educador não precisa apenas "saber muito", precisa também guiar o outro, transmitir para outra pessoa aquilo que sabe de formas que façam sentido para ela. E isso só pode acontecer quando o educador é capaz de ver o outro, olhar para ele e ser capaz de se colocar no lugar daquela pessoa. Entender o contexto que vive e as situações que passa. Entender as dúvidas e incertezas pelo olhar do outro. E, mais do que tudo, ter a humildade de se lembrar todos os dias que, mesmo que muitos anos já tenham se passado, algum dia ele também foi só uma pessoa com dúvidas e incertezas sobre o caminho em questão (seja um caminho acadêmico, profissional, de vida, do campo das relações, um caminho espiritual, etc.).

O bom guia precisa ver o outro com olhos amorosos, pois só assim, ao sentir que alguém se importa de verdade, a pessoa aprenderá a ser seu próprio guia e a caminhar por si. Assim, o bom guia, ou o bom educador, é aquela pessoa que compartilha o que sabe com generosidade o suficiente para que o outro se torne livre e independente ou, como os psicólogos gostam de dizer, favorece a autonomia. Ser um bom guia não é apenas evitar buracos e trechos difíceis do caminho. É saber calcular os riscos e, tendo consciência de verdade de quem é aquele que é guiado, permitir que ele enfrente desafios e trechos difíceis de acordo com seu grau de capacidade no momento. Não basta ensinar, é preciso criar no outro a confiança de que ele é capaz. E para isso é preciso ter a sensibilidade e o bom senso de saber que aqueles a quem guiamos não são todos iguais, tem características e histórias diferentes. Além disso, apesar de estarem sendo guiados pela mesma pessoa e através do mesmo caminho, não vão todos para o mesmo lugar, pois cada um tem os seus planos e isso precisa ser compreendido e respeitado.

O bom guia não é aquele que caminha à frente,
mas o que é capaz de caminhar ao lado.
Uma coisa que prejudica a educação hoje em dia é que vivemos num mundo em que tudo é descartável e utilitário (precisa ter um uso prático). Para que estudar filosofia, ou sociologia, ou artes? Vejam como aumentam os cursos voltados para áreas puramente burocráticas e mercadológicas. Não que sejam desnecessários, mas vale a reflexão. Poucas pessoas aprendem para ter uma boa formação e uma educação de qualidade. Para que ensinar xadrez às crianças? Elas que desenvolvam o raciocínio com algo que "importa mais" para o mundo de hoje! Para que a arte, a música? Não querem se formar enquanto pessoas melhores, mas apenas responder com ansiedade quase patológica as demandas sociais, brigar pela aceitação de um mundo onde até nós mesmos somos descartáveis!

Há pouco tempo um jovem estudante de psicologia me escreveu dizendo que não aguenta mais o curso. Está no primeiro ano e não entende como aulas de filosofia ou de neuroanatomia poderão ajudar quando estiver face a face com seus futuros pacientes. Como alguém pode sentir que vem sendo bem guiado quando não vê sentido no caminho percorrido? Realmente, quando você tem 17 anos a vida e o dia a dia têm questões de ordem prática muito mais urgentes do que saber o que pensava Sócrates há 2500 anos, ou para que serve o tronco cerebral. A vida grita ao seu redor! O mundo explode em novos amigos, festas, paqueras... e então, quando você abre os olhos, está na clínica-escola com seu primeiro paciente. Você se lembra da voz do seu professor/guia dizendo para não se preocupar demais, pois ele estará mais ansioso que você. Você pede para ele entrar na sala e se sentar, fecha a porta e faz o mesmo. E então, num flash muito louco, todas as aulas de filosofia, neuroanatomia, conversas paralelas, festas, puxões de orelha e tudo mais passam diante dos seus olhos! E você começa a pensar que agora precisará ser um guia pelo mundo interno daquela pessoa, que tem algum problema sério e confiou em você o suficiente para entrar na sala e se sentar. Mas, outra cilada do mundo de hoje! Como ser um guia quando o mundo mal nos ensina a sermos guiados? O mundo resiste em nos deixar ver o sentido de percorrer um caminho até o fim. Muitos passos iniciais não fazem um caminho inteiro.

Educação é muito mais do que ensinar ou aprender, educação é, antes de tudo, interação. Não existe interação em que os sentimentos não estejam presentes. Seja de forma construtiva ou destrutiva. Em especial as relações mais profundas, e não há como negar que uma relação entre educador e educando (seja no contexto que for - escola, família, sociedade, saúde...) é profunda, pois passa pelos sonhos e receios do outro. Como diz a frase de Galileu com a qual abrimos o artigo de hoje, só é possível ensinar algo na medida em que guiamos o outro. E essa atitude nunca é fruto de autoritarismo ou de imposição, não se pode forçar o outro a percorrer um caminho, se pode apenas apontar perigos e atalhos, precaver das armadilhas e dar recursos para lidar com os percalços. O caminho em si, cada um precisará percorrer com as próprias pernas.

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