quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Estupro e violência sexual: quando eu não sou mais eu

"Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro." - Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicanálise.

Vocês estão acostumados a me ouvir falar sobre temas de autoconhecimento, como sonhos, mandalas e mitologia... Mas o dia a dia no consultório não é apenas esse lado belo da prevenção e do autoconhecimento. Algumas vezes, coisas terríveis acontecem a pessoas que até então levavam uma vida normal. Algumas vezes a noite é tão escura que achamos que o sol nunca mais voltará a brilhar. O tema de hoje é tenso e muitas vezes evitado. Ainda assim, este é um tema muito necessário de ser trabalhado, e fico feliz da oportunidade ter surgido. Tempos atrás, diversas pessoas como a Laura, o Júlio e a Maria Inês me sugeriram abordar o tema do abuso sexual e do estupro. Semana passada a oportunidade para o texto voltou à tona de forma irrecusável, quando minha amiga Raquel e eu conversamos sobre a imagem abaixo, que vem circulando no Facebook. 

Imagem retirada do Facebook.

Isso me preocupou. Não só porque esse tipo de pensamento perpetua a nossa "cultura do estupro", mas também porque na foto original os rostos das pessoas não estavam borrados, e deu para notar que são todas adolescentes bem novinhas e que não tem a menor ideia do que estão falando. Não têm a menor ideia do que é ter uma vida sexual e das implicâncias que ela traz para a nossa vida (sejam emocionais, sociais, as responsabilidades, etc.), e muito menos têm ideia do que é passar por um estupro ou por uma situação de violência sexual. Um estuprador não é sempre uma pessoa feia e má. Se ele for bonito e agradável mas não respeitar a sua vontade, o seu "não", o ato é o mesmo, e as consequências e marcas emocionais da situação são as mesmas. Um estuprador nem sempre é um desconhecido escondido numa sombra de uma rua mais escura e perigosa da sua cidade. Muitas vezes é o seu pai, ou um amigo em quem você sempre confiou, ou até o namorado/marido/companheiro. Sim, muitas mulheres são estupradas pelos seus maridos. Muitas nunca dizem nada, seja por vergonha, seja apenas por não saber que podem sim dar queixa, que o marido não é o "dono" delas e deve sim respeitá-las. Muitas ainda não conhecem um relacionamento saudável e acham que a vida é essa, que ter uma relação sexual é só "deitar e esperar acabar", como já ouvi, que "não tiveram sorte"...

Sinceramente, fiquei muito perturbada com essa conversa aí da foto. Lembrei de outras tantas adolescentes (e até mulheres já mais velhas) que já comentaram comigo sobre o quanto gostariam de ser estupradas. Essa vontade leva a pessoa a se colocar em situações de risco (e quando coloca isso no Facebook para qualquer um ler, já se colocou em risco), sendo que essas pessoas nem sabem o que estão desejando para si mesmas! O que leva uma pessoa a achar que se submeter a uma violência (seja ela qual for) pode ser bom de alguma forma? Diante disso, preparei algumas orientações sobre como agir em casos de violência sexual. Olhando na internet, há muito material sobre como denunciar, mas senti falta de algo sobre o que fazer de prático quando acontece com a gente, com um filho... 

Abuso sexual infantil acontece mais do que se pensa, nos diferentes lugares, contextos e classes sociais.
Famílias, não basta saber com quem sua criança interage na escola ou no seu bairro,
fique atento aos amigos virtuais, chats e sites que frequenta.
Muitos pedófilos se aproveitam do ambiente virtual para conseguir informações, fotos, endereços...

O que é estupro?
A lei brasileira considera estupro apenas o ato sexual forçado ou por coação (uso de força, ameaças, chantagens), em que houve penetração vaginal. Quando a penetração vaginal não ocorre, o crime é chamado de assédio sexual (constranger alguém de forma a obter favores sexuais sem que aconteça o ato sexual em si, sendo que o abusador está em vantagem sobre a vítima devido a fatores como cargo, hierarquias, posição social, etc.), atentado violento ao pudor (ameaçar ou coagir outra pessoa com violência, ameaças ou chantagens a praticar ou permitir que pratique algum tipo de ato sexual sem que haja penetração vaginal). Lembrando que homens também podem ser vítimas de violência sexual, seja em relações homo ou heterossexuais.
Muitas vezes, situações em que não houve estupro (ou seja, houve violência sexual sem penetração vaginal), a vítima não é levada a sério por certas autoridades, por alguns profissionais e até mesmo pela família. Outras violências sexuais podem sim machucar e marcar a pessoa tanto quanto um estupro, e essa falta de apoio e acolhimento só agrava ainda mais a situação.

O que é pedofilia?
A lei no brasil considera pedofilia qualquer tipo de prática com intenção sexual com crianças e adolescentes abaixo dos 14 anos. Mesmo quando há consentimento, isso é um crime, pois a Justiça compreende que a criança ainda não tem maturidade para consentir com o ato sexual, isto é, emocionalmente ela ainda não sabe bem com o que está concordando. Quando um adolescente entre 14 e 17 anos é estuprado ou abusado sexualmente de alguma outra forma, o crime é chamado corrupção de menores. Um menor também pode ser acusado de cometer pedofilia, sempre que mantém algum tipo de prática sexual com outro menor contra a vontade deste ou quando tem a partir de 7 anos acima da idade da vítima.

Outro ponto importante: a Justiça entende que houve coação sempre que o ato for praticado com alguém menor de 14 anos; com pessoas que tenham algum tipo de transtorno mental que não lhes permita compreender o que se passa ou que não possam reagir/resistir por qualquer motivo (dificuldades de locomoção e fala, uma pessoa que foi sedada pelo uso de drogas ou substâncias, etc.).

O perfil do abusador:
Sim, na grande maioria das vezes eles sabem muito bem o que estão fazendo. Muitos deles já sofreram algum tipo de abuso ou violência, quase sempre quando crianças. Geralmente têm dificuldades sexuais e afetivas. Alguns tentam conquistar a vítima com presentes, promessas ou mesmo elogios. Muitas vezes são pessoas "acima de toda suspeita", sem algum comportamento estranho que chame a atenção, ao contrário, passam uma imagem de pessoa responsável, gentil e até sedutora.
Como dissemos, nem sempre a violência sexual ocorre num lugar "perigoso", com um desconhecido. Muitas vezes o abusador é uma pessoa bem próxima da vítima, como pais e familiares, professores, chefes e colegas de escola ou trabalho, companheiro, namorado, marido... Muitas vezes o perigo está dentro de casa.
Importante dizer que o abusador não pode ser apenas punido pelo crime que cometeu. Se ele chegou ao ponto de colocar seus desejos em prática contra a vontade da pessoa violentada, ele tem problemas sérios e precisa ser tratado, mesmo para que se evite a reincidência.

A violência sexual, seja contra crianças ou adultos, costuma ser vivida como uma
grande ruptura na vida da pessoa. Independente da idade ou do que aconteceu,
é preciso denunciar e buscar tratamento médico e psicológico. É possível superar, sim!

Possíveis consequências da violência sexual:

Físicas: lesões e hematomas em geral, lesões genitais e anais, gestação, doenças sexualmente transmissíveis.

Psicológicas: agressividade, reações de ordem psicossomática (dores, vômitos, problemas intestinais...), distúrbios alimentares (mudança radical no apetite, comendo muito mais ou muito menos do que costumava, anorexia, bulimia, etc.), distúrbios do sono (mais sono do que o usual, ou insônia, pesadelos, terror noturno em crianças), dificuldades nos relacionamentos afetivos, queda do rendimento no trabalho ou no estudo, distúrbios emocionais (apatia, depressão, crises de choro, desinteresse por atividades que costumava gostar, sentimento de culpa, vergonha, autodesvalorização, baixa autoestima), mudanças bruscas no comportamento e linguagem. Também pode ocorrer abuso de álcool e drogas. Se não houver apoio, a vítima pode chegar ao suicídio.
No caso de crianças, além desses sinais, também pode ocorrer um comportamento erotizado precoce; manifestação violência ou conduta sexual nas brincadeiras e quando desenha, muitas vezes retrata os órgãos sexuais de maneira exagerada ou destacada; pode demonstrar desconforto perto de alguém "de confiança" ou medo de algum lugar (quarto, banheiro, escola, casa de algum cuidador...) ou de algo do dia a dia, como medo da hora de tomar banho.


Ocorreu violência sexual, como reagir?

1- Se você suspeita que alguém está passando por isso: denuncie. Quem não denuncia um crime se torna cúmplice e pode ter de responder por isso. No Brasil, você pode denunciar através do Disque 100, de forma anônima e segura. Se a possível vítima for menor de idade, cabe informar ao Conselho Tutelar, que investigará o caso e tomará as atitudes cabíveis.

2- Se aconteceu com um menor próximo a você, como seu filho, sobrinho, neto, irmão, aluno...:
Informe aos pais ou responsáveis pelo menor de suas suspeitas e oriente-os a buscar ajuda.
Se você é o responsável pelo menor, procure antes de tudo conversar com a criança e compreender o que aconteceu, quem foi, onde foi e como foi. Esses dados são fundamentais. A vítima deve ser encaminhada a uma delegacia, onde fará o exame de corpo de delito (não limpe nem troque a roupa da criança), será feito um boletim de ocorrência e aberto um processo. É fundamental buscar ajuda médica e psicológica (para a criança e para a família) o quanto antes.
Não tenha medo ou vergonha de falar sobre isso com sua criança. Acredite, sem a sua reação de raiva, choque ou vergonha, ela já está mal o bastante... Encoraje-a a falar sobre o que aconteceu e explique a ela o que vai acontecer, o que diminui a ansiedade da criança: nós vamos procurar a polícia, ela vai precisar fazer alguns exames e contar direitinho o que aconteceu, deixe claro que a culpa é de quem abusou e não da criança.
Quando for levar ao psicólogo, prepare-a antes da consulta, explique que o profissional está lá para ouvi-la e ajudá-la, que ele não vai contar seus segredos a ninguém e que ela pode dizer o que quiser para o profissional.
Algumas vezes as crianças simplesmente não contam, seja por medo, vergonha ou por receberem ameaças. Por isso, se você desconfia de algo, pergunte; seja insistente, mas gentil; e busque ajuda.
Algumas crianças só contam o que aconteceu muito tempo depois, anos depois até. Como o caso de uma senhora que foi violentada aos 8 anos e só buscou ajuda para si depois dos 60, quando a netinha também passou pela mesma situação e as memórias voltaram. Nunca é tarde demais para curar antigas feridas. É fundamental buscar ajuda psicológica.

3- Se você passou por isso:
É horrível, eu sei bem. A gente se sente um lixo, como se não valesse nem o ar que respira. A gente acha que ninguém nunca vai amar a gente de verdade, que nunca mais vamos ser respeitadas. Bem, isso não é verdade. Podemos sim superar o que aconteceu e voltar a ter uma vida amorosa e sexual felizes.
Se acabou de acontecer, proceda como no ítem anterior, vá à delegacia mais próxima e faça o exame de corpo de delito (não se limpe nem troque de roupa, apenas vá!) e um boletim de ocorrência para que seja aberto um processo. Você tem direito a receber a pílula do dia seguinte, evitando uma gravidez indesejada.
Busque atendimento médico e psicológico o quanto antes.
Se você é menor de idade e passou por isso, não deixe de dizer aos seus pais ou responsáveis. Não tenha medo ou vergonha. Se por algum motivo não puder dizer a eles, conte a algum outro adulto de sua confiança que possa te ajudar, como alguém da sua família, sua professora ou alguém em quem você confie.

Abuso sexual não é apenas estupro. Vai muito além.
Ocorre sempre que pessoas fazem algo, insinuam, "brincam", tocam em você de formas que você não permitiu, e continuam mesmo que você peça que parem. No campo da sexualidade, ninguém é obrigado a fazer nada que não queira. Também é abuso quando você se submete a coisas que não quer por não ter como reagir ou dizer "não" a pessoas que de algum modo estão em vantagem sobre você. Não se cale!

Algumas observações:

Violência sexual, seja do tipo que for, não é bobagem. As marcas ficam, a história da pessoa será para sempre marcada pelo que aconteceu. Podemos mudar a forma de olhar para essa história, mas nunca poderemos mudar os fatos. Muitas vezes a vítima é levada a acreditar que a culpa pela violência é dela. Não, não é. Mesmo que esteja com roupa curta, mesmo que esteja bêbada ou drogada, mesmo que esteja sozinha em algum lugar "perigoso", mesmo que quem a violentou foi o cônjuge. A culpa nunca é da vítima, ninguém "provoca" e muito menos "pede" para ser estuprada.

Por isso, um alerta para pessoas que dizem que gostariam de ser estupradas se o abusador fosse bonitão: vocês não têm a menor ideia do que estão falando! Vale a reflexão. Por que se submeter a uma violência? Por que ver o "bonitão" ou o "cara rico" como superior? Esses status sociais não dão a ninguém o direito de te fazer passar por algo que não quer (e, se considerariam um estupro se o abusador fosse feio, já deixaram implícito que não querem). Ser "escolhida" por um estuprador bonito não é uma honra, traz consequências tão fortes para a vítima quanto se o estuprador for menos bonito, ou menos rico, ou o que for. Estupro é estupro, pouco importa como a pessoa que te violentou era. Sugestão a quem nutre esse desejo: procure informação e tratamento psicológico. Ok, a sexualidade é um campo variado, mas não é saudável se colocar em posições de risco e desejar sofrer uma violência. Você merece coisa muito melhor do que isso.

Quando uma pessoa sofre um trauma profundo, uma das coisas mais doloridas é que o acontecimento marca a vida da pessoa como uma ruptura, interrompe o dia a dia que antes seguia normalmente. De repente, tudo é medo, dor e escuridão. Às vezes apenas é mais fácil se fechar e parar de sentir... Mas ninguém sobrevive por muito tempo como uma concha vazia. A superação acontece quando a pessoa enfrenta uma escolha dolorosa, mas fundamental, uma escolha entre vida e morte (simbólica). A superação está em escolher juntar os cacos e continuar a viver, permitindo-se sentir outra vez. Claro que sentirá a dor. Ela existe e é real. Mas, escolhendo viver, também será capaz de sentir esperança, amor e alegria, fundamentais para que ocorra a transformação.

ATENÇÃO: Se você leu o artigo e se identificou como um possível estuprador, seja sentindo atração sexual por crianças, seja tendo dificuldade em refrear seus impulsos, busque atendimento psicológico. Você também precisa de ajuda para rever essa postura. Você também merece uma vida melhor.

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