quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Falando sobre a morte: as perdas e o luto

"Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte." - Sêneca (04 a.C. - 65d.C.), jurista, intelectual e escritor romano.

Como já comentei na página do Facebook, nesta semana temos diversas comemorações de diferentes povos em honra aos mortos e aos antepassados. Por isso resolvi dedicar as postagens da semana a este tema, e hoje o artigo é sobre morte e luto. Aliás, sobre as grandes perdas em geral. O luto é uma forma de superar uma perda grave, que pode ou não ser a morte de uma pessoa querida. Vamos começar falando um pouco sobre o que é o luto, as características mais comuns e os diferentes estágios. Vamos, depois, falar um pouco sobre a saída do luto e a importância de vivenciar com liberdade esse momento para a superação de uma grande perda.

Já comentei diversas vezes que hoje em dia vivemos num mundo muito pobre em ritos de passagem. E com a morte não é diferente. A morte deixou de ser vista como uma das maiores passagens da vida para se tornar algo frio e distante. Pouca gente tem a sorte de morrer em casa, cercado de pessoas queridas. A maioria morre nos hospitais, cheio de tubos e aparelhos. Ou, pior, nas ruas! Morre de repente, sem ter tido tempo de dizer algo que quisesse dizer ou mesmo de se despedir. Hoje as pessoas morrem como se nunca tivessem existido. Como se a vida não valesse nada. Ao mesmo tempo, a morte foi distanciada de nós ao ser relegada aos hospitais. Não somos ensinados a pensar sobre ela ou a celebrá-la, muito menos a lidar com ela. Em face a isso, o luto muitas vezes é visto como doença, mesmo sendo, até certo ponto, uma reação normal e saudável às perdas.

Quando a morte tem nossa permissão para ser celebrada (seja num funeral, seja relembrando momentos especiais que vivemos com aquele que se foi, seja em rituais religiosos), ela ganha o status de rito de passagem. Com isso, passa a ser vista de forma mais leve, pois a morte enquanto a maior das passagens se integra à vida e faz com que o todo ganhe sentido. Todos caminhamos para a nossa morte. Toda semente precisa conhecer a escuridão da terra para se tornar uma árvore forte. Também nós, para que tenhamos uma vida completa e integrada, precisamos do contato com a morte, precisamos lidar com ela e conhecê-la sem medos ou preconceitos.

A psiquiatra suíça Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004) estudou profundamente a morte e o luto e, no final de sua vida, coletou e estudou relatos de experiências de vida após a morte. Ela desenvolveu um modelo com cinco fases do luto que é muito usado em psicologia e possibilita diferenciar o luto normal do luto patológico. Vamos a essas fases:

1- Negação: Parece que é mentira. Mesmo sabendo o que houve, mesmo que a gente tenha um atestado de óbito em mãos ou veja o corpo. Apenas parece mentira, não dá para acreditar que realmente aconteceu. A dor da perda é grande demais para parecer real.

2- Raiva: Surge o sentimento de injustiça. Por que foi acontecer bem comigo? Podem acontecer reações de hostilidade, com raiva e inveja. A perda ainda não parece real, mas no fundo sabemos que é, e isso nos parece injusto. Qualquer palavra de conforto soará falsa para quem está nesta fase.

3- Negociação: A pessoa faz promessas e sacrifícios, seja de forma consciente ou não, esperando que a perda possa ser revertida. No caso de um paciente terminal, podem surgir pensamentos do tipo "me deixe viver só até meus filhos crescerem". O mesmo vale para familiares e pessoas próximas. A pessoa enlutada tenta driblar a morte, negociando com ela ou com divindades, ou ainda com pensamentos do tipo "e se...". Também é frequente nesta fase do luto a ideia de que a pessoa que perdemos deveria estar viva e quem ficou é que deveria ter morrido no lugar dela.

4- Depressão: a pessoa se convence de que a perda aconteceu e é impossível de ser revertida. Com isso, é normal se sentir triste e desesperançoso. A pessoa que se foi existe agora apenas nas nossas lembranças, e todas essas recordações e planos que tinham em comum ganham um novo sentido nesta fase, pois se tornam os únicos vínculos com a pessoa que perdemos.

5- Aceitação: Por fim, a pessoa aceita a perda, sem negá-la, sem tentar barganhar com a morte e sem se desesperar. É o momento em que a dor se transforma em saudade. Agora, o vazio deixado pela aceitação da perda está pronto para ser preenchido. Veja que não falo em substituir pessoas importantes, elas sempre terão seu lugar simbólico no nosso coração e nas nossas lembranças. O que digo é que aquele sentimento de perda e de vazio está pronto para ser preenchido com sentimentos mais amorosos e tranquilos.

Um ponto importante, Kübler-Ross afirma que esse modelo de fases do luto é válido não apenas para mortes, mas para toda grande perda, de acordo com aquilo que a pessoa valoriza. Podem acontecer, por exemplo, após um divórcio, a perda de um emprego, perdas materiais, catástrofes, problemas com a Justiça, uma situação de falência, aposentadoria, ou até com o fim de uma fase da vida...

Essas fases não têm um tempo certo de duração. Não somos máquinas rígidas, cada pessoa é uma pessoa, e cada vínculo que se cria entre duas pessoas é único. Em geral, a fase da depressão é a mais demorada, pois é quando realmente tomamos consciência do que houve e lidamos com a perda dando a ela um sentido mais construtivo ao invés de vê-la como uma injustiça ou a maior catástrofe do mundo. Perdas doem, mas acontecem na vida de todas as pessoas, não é algo pessoal contra nós. De forma geral, a psicologia entende que um processo elaboração do luto leva, em média, 6 meses. Se estiver durando muito mais do que isso, com sofrimento intenso e desinteresse pelas coisas que antes gostava, entende-se que o luto se tornou patológico, é importante que a pessoa busque a ajuda de um profissional para superar a perda e se reorganizar.

Em crianças pequenas, o luto também pode ser observado, mesmo antes que aprendam a falar. É possível passar pelo luto desde o momento em que podemos criar laços de apego, pois estamos todos sujeitos a perder aqueles a quem somos apegados e, claro, sofremos com a perda. Nas crianças o processo de luto é observado nos desenhos e brincadeiras, temas como morte, doença, acidentes graves passam a ser muito presentes, de forma bastante realista e detalhada. Também pode acontecer da criança brincar de quebrar ou destruir de alguma forma os brinquedos, demonstrando como se sente "em pedaços". Até certo ponto, isso é saudável, pois a brincadeira e o desenho são meios que a criança tem para se expressar. Já nos adolescentes, pode ser comum a reação de raiva e revolta. É importante que essas reações sejam acolhidas com amor, por mais difícil que seja, pois isso ajudará o adolescente a se sentir seguro para expressar o que sente de formas menos destrutivas. O próprio início da adolescência é um processo de luto pela perda da infância (do corpo infantil, das atenções que recebia, da simplicidade da vida de criança com a ausência de responsabilidades...). Por isso, nesta fase a pessoa já está um pouco mais insegura emocionalmente, e é normal ter reações diferentes das de um adulto frente à morte ou à uma grande perda. O adulto já tem vivências e recursos internos para lidar com essas perdas, enquanto o adolescente geralmente não. Logo a forma de demonstrar o que sente nem sempre é a mesma.

Qual o lugar dos seus mortos na sua vida?
De que forma você permite (ou não permite)
que estejam presentes?
É interessante saber que o luto é um fenômeno ao mesmo tempo psicológico e social. Cada sociedade e cultura vivencia o luto de uma forma, pois em cada cultura se dá um olhar diferente para a morte. A morte vista como um castigo ou ainda um fim desencadeia sentimentos bem diferentes da morte vista como uma passagem ou um renascimento para outra forma de existir. Claro que isso também passa pelo pessoal, e é obvio que quando perdemos alguém querido sempre sentimos falta, vivenciamos a perda de alguma forma. O que muda é a forma como expressamos esse sentimento de perda. No ocidente, é comum que se expresse tristeza e choro. Na Rússia, é comum que se faça um memorial, em que se bebe em honra ao morto, lembrando momentos alegres e especiais da vida dele. Na aldeia de onde vieram meus pais, no interior da Itália, era tradição que quando alguém sabia que estava para morrer (por alguma doença ou por idade já avançada, ou ainda - conta minha avó - por ter recebido algum tipo de aviso místico), preparava para si um saquinho com uma moeda, um toco de vela para iluminar o caminho, uma troca de roupa e outras coisinhas que ajudariam o morto em sua jornada pelo outro mundo. Em grande contraste com a nossa cultura, existem alguns locais do oriente onde a morte é vista com alegria, como um passo na nossa evolução. Enfim, cada povo tem seu próprio jeito de lidar com a morte e com o sentimento de vazio que ela pode deixar nos vivos. Para refletir um pouco mais sobre o papel dos nossos antepassados, clique aqui e veja a coluna Mythos desta semana, em que trabalhamos com os Lare.

O trabalho com pacientes em processo de luto pode ser difícil, mas geralmente leva a processos terapêuticos muito ricos e belos. O olhar que se dá à vida depois de um luto bem vivenciado e superado é marcado por grande reflexão e novos valores, mais aprofundados e amadurecidos que os de antes. Enfrentar e superar o luto é um processo de "descer ao mundo dos mortos" e voltar fortalecido, é um renascer, um recriar de si mesmo. Toda semente, antes de brotar e dar frutos, desce às profundezas da terra. Assim, também, somos nós.

7 comentários:

  1. Ainda não li este livro, mas agora vejo que terei de lê-lo com certa urgência. Esse texto é muito proveitoso e um excelente comentário sobre o tema morte/luto.

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    1. Muito obrigada, Fábio! A morte é um tema especial para mim, tenho grande paixão, então sou suspeita para dizer, mas leia sim, o material é ótimo! Bjs

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  2. Oi, Bia.
    Seu artigo é muito pertinente para esse momento que venho passando. Temos um gatinho que está com um tumor e desenganado. Por conta dessa situação, falamos a verdade ao meu filho de 4 anos e ele tomou consciência da morte, de que todos os seres, nós, ele, um dia iremos morrer. A partir do momento que soube que o gato poderá morrer foi a cada dia questionando a morte, até chegar nessa verdade, da morte de todos nós. Nesse dia começou a chorar muito, a gritar que não quer morrer. Lemos algumas historinhas com ele, tem um livro da Bia Bedran que se chama "A menina e a concha" que compramos, e aos poucos parece que ele foi aceitando. Acredito que a vida continue, que retornamos muitas e muitas vezes, mas não consigo expressar isso para ele. Onde posso encontrar material que possa me ajudar a falar sobre esse retorno (reencarnação) com uma criança de 4 anos? Agradeço desde já sua ajuda!

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    1. Olá Clarissa. Existem materiais que ajudam a falar sobre a morte com crianças, tem um livrinho muito lindo chamado "A história de uma folha", do Leo Buscaglia, conta a história da folha desde a primavera até a queda, no inverno, mostrando bem essa relação entre vida e morte e os sentimentos que ela traz. É uma história bonita para as crianças e mesmo para os adultos quando perderam ou estão perdendo alguém especial. Sobre reencarnação, já fugimos do campo da psicologia, não conheço um material para indicar. Sugiro conversar com o seu filho, com calma e de um jeito simples, e contar a ele sobre as crenças da família. beijos

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  3. Olá. Gosto muito dos seus textos. no momento estou passando pelo luto.Uma grande amiga que elegi como irmã há mais de vinte anos atrais faleceu de repente de mal súbito.Isso tem duas semanas. Já passei pelo luto muitas vezes na vida, mas nunca é fácil.Me identifiquei com os processos. Aceito bem a morte mas acho que é necessário passar pelas fases e dou atenção a todas. bjs

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  4. Olá Bia.Estou passando pela aceitação da perda de uma amiga que há vinte anos elegi como irmã, ela faleceu tem duas semanas de mal súbito.Perdas doem, mas acontecem na vida de todos, Já tive muitas perdas na vida e acho que esse processo de fases já é minha velha conhecida. Tento passar por elas intensamente pq assim é mais rápido. não levo seis meses de luto.Aceito a morte, mas é muito doloroso não poder estar com pessoas que amamos.O que me dá animo é que tenho certeza que um dia voltaremos a nos encontrar.Bjs

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    1. Olá Cristina. De fato, as perdas nunca são fáceis e nem agradáveis. Principalmente quando perdemos pessoas com quem convivemos mais intensamente e por muitos anos. É como se um pedacinho da nossa história, vivências, ideias, sentimentos e mesmo as confidências trocadas morressem um pouquinho também. Claro, isso dói. Mas apesar da dor, existe uma beleza nas mortes. Mesmo naquelas mortes que, para nós, parecem "injustas" ou antes da hora. A beleza está em olhar para a morte (seja a morte do outro, a nossa morte ou "apenas" uma morte simbólica) como um desfecho da vida, que em um segundo carrega o todo de significado. O início é bem difícil mesmo, mas quando nos permitimos viver esse luto, a dor logo se torna saudade. E se temos saudade, somos sortudos. Porque nada do que passou foi em vão, tivemos a sorte de ter uma vida cheia de amor e momentos de alegria. Força. bjs

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