terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mythos - Hefesto: rejeição e compulsão por trabalho

Há algumas semanas conversei sobre este mito grego com alguns amigos, já pensando em colocar aqui no blog. Hefesto, apesar de estar entre os principais deuses gregos, é menos conhecido que muitos outros. E isso é interessante, pois mesmo entre os deuses, em seus mitos, Hefesto tem diversas histórias relacionadas à rejeição, que é um dos pontos que vamos trabalhar hoje.

Vulcano - Guillaume Coustou, 1742.
Em algumas versões do mito, Hefesto é filho de Zeus e Hera, os reis dos deuses. Em outras versões, ele é filho apenas de Hera, que o concebeu inalando o perfume de uma flor (isso é parte da memória de povos mais antigos, antes de saber como a mulher engravidava, o ser humano fantasiava que isso acontecia cheirando flores, comendo algo diferente ou até se expondo ao brilho da lua!). Nesta segunda versão, Hera queria se vingar de Zeus, pois o marido teve uma filha sozinho, Atena, a deusa da sabedoria, que saltou da cabeça do pai já adulta e armada! (na verdade não foi exatamente sozinho, ele havia engolido a ex mulher, Métis, a razão, que estava grávida, por medo de ser destronado pelo filho, mas esta história fica para outro dia). Quem conhece o mito do nascimento de Atena pode estranhar a vingança de Hera, pois na versão mais comum, Zeus tinha uma forte dor de cabeça e Hefesto, que é um deus ferreiro/artista, deu uma machadada na cabeça do líder dos deuses, libertando a jovem Atena. Como ele poderia ter nascido depois dela? Simples! Quando estudamos mitologias, precisamos pensar na lógica do inconsciente (aquela mesma dos sonhos), que é atemporal, não segue um tempo linear como estamos acostumados na nossa realidade comum. Passado, presente e futuro se mesclam, se repetem e se interpõem.

Enfim, Hera queria se vingar do marido por ele ter tido uma filha sem ela e resolveu que também teria um filho sem ele! Mas quando Hefesto nasceu, o menino era feio! Zeus teve, sem a esposa, uma filha que era a deusa mais genial, e ela teve o deus mais feio! Muito envergonhada, Hera jogou a criança do alto do Olimpo. Isso pode soar terrível para nós, mas é preciso olhar para o mito com os olhos dos antigos gregos, e na Grécia Antiga, bem como entre outros povos, era comum sacrificar crianças que nasciam com algum tipo de problema ou deficiência.

Na versão em que Hefesto é filho de Hera e de Zeus, ele se mostra um rapaz muito apegado à mãe, que era bastante exigente e o rejeitava com frequência. Hefesto sempre tentava apaziguar as brigas constantes do tumultuado casamento de seus pais, até o dia em que Zeus se irritou além do limite e jogou o filho do alto do Olimpo.

E aqui as duas versões da história se unem. Hefesto caiu por nove dias, até chegar ao mar. Dizem que ele tem as pernas tortas devido à queda, mas em algumas versões, ele já nasceu com os pés tortos. Ele foi resgatado e levado para a terra firme de uma pequena ilha deserta na costa grega. Lá havia uma gruta, e Hefesto passou a isolar-se com muita frequência nessa gruta, onde ele criou sua oficina. Ele trabalhava como um ferreiro e artesão, fazia as armas mais precisas e fortes para os deuses, fazia ainda objetos de arte e outros utensílios. Certa vez fez um trono de ouro para Hera para se vingar por ela tê-lo jogado do Olimpo, e o trono era tão perfeito que quando sua mãe sentou, o corpo dela encaixou-se tão bem ao trono que ela não conseguia mais se levantar. Mas esta história fica para outro dia!


Questões para reflexão:

1- Na versão em que Hefesto é filho apenas de Hera, podemos pensar que isso simboliza alguém com apego extremo à mãe. Se isso já seria por si só uma situação problemática (nada ao extremo é bom), a rejeição dessa mãe apenas agrava a delicadeza do problema, pois quanto mais é rejeitado, mais se esforçará para ter a aceitação da mãe. É difícil ter um apego muito grande e a pessoa querer nosso mal. Você já passou por isso (com sua mãe ou com outras pessoas)? Hefesto reagiu à situação de rejeição e abandono refugiando-se em sua ilha deserta, fechando-se em sua gruta e descontando os sentimentos no trabalho. Ele trabalhava incansavelmente e era o melhor ferreiro de que se tem notícia. Como você se defende deste tipo de situação? Qual é a sua ilha, a sua gruta? 

2- Outro ponto importante: Hefesto representa o arquétipo do rejeitado, mas também o compulsivo por trabalho, aquela pessoa que desconta no trabalho excessivo suas frustrações e amarguras (no caso de Hefesto, é fácil pensar que ele busca ser o melhor dos ferreiros para conseguir algum amor de sua mãe...). Diante disso, cabe ainda refletir sobre o papel que o trabalho ocupa na sua vida. O que ele é para você? Uma válvula de escape, uma fonte de criatividade e realização, a única fonte de realização e satisfação ou apenas uma forma de ganhar a vida?

3- Ser jogado do alto do Olimpo pelos pais é mais do que uma simples rejeição. É ser banido do convívio com os iguais. Apesar do Monte Olimpo ser relativamente baixo (2917 metros - não é tanto assim pensando que lá viviam os deuses, supostamente afastados do convívio com os seres humanos), Hefesto cai por nove dias não pela distância entre o topo e o mar, mas sim pelo abismo que existe entre a condição de deus e algo abaixo da humanidade (ele cai no mar grego habitado por toda sorte de criaturas fantásticas e é deixado numa ilha deserta, não numa cidade ou num campo). Isso retrata bem as quedas simbólicas que vez ou outra todos sofremos na vida, seja uma queda de status, uma grande perda, etc. Quais "quedas" você já sofreu? As feridas estão curadas ou, como Hefesto, você ficou com as pernas tortas, caminhando com insegurança?

4- Por outro lado, quando os pais lançam Hefesto do alto do Olimpo, eles o lançam ao próprio caminho. É graças a ter sido jogado do alto do Olimpo pelos pais (forte simbolismo emocional) que Hefesto pode deixar de se preocupar com o casamento torto dos pais e se tornar o maior dos ferreiros. Algumas vezes nosso "azar" pode ser nossa maior sorte. Algumas vezes as maiores crises que enfrentamos são justamente nossa maior oportunidade de transformar completamente a nossa vida.

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