terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mythos - Hermes Trimegisto: identificação, representações e discurso

O texto de hoje foi uma sugestão do leitor e amigo Leandro. Ele sugeriu um texto sobre Hermes Trimegisto, e é sobre ele que vamos conversar hoje. Esta é uma figura um tanto quanto controversa. Há quem diga que realmente existiu. Outros dizem ser uma face do deus grego Hermes ou do deus egípcio Toth, ambos relacionados à comunicação, cultura e civilização. Por isso hoje, ao invés de explorar um mito ou deus como de costume, vamos fazer um breve estudo de mitologia comparada.

Hermes, por Astrosket - DeviantArt.
Talvez você esteja se perguntando que história é essa de sincretizar dois deuses de culturas tão diferentes. Assim como acontece hoje, no mundo antigo muitos povos se comunicavam. E nessa comunicação, fosse pacífica ou não, trocas aconteciam, sobretudo trocas culturais. Podemos imaginar que um grego antigo que cultuava Hermes provavelmente sentisse algo especial ao notar que um povo tão diferente como o povo egípcio tinha um deus tão parecido com seu querido Hermes. Talvez esse sentimento o fizesse começar a ver os egípcios com menos estranhamento, de forma mais próxima e familiar. O nome desse sentimento especial é empatia. Isso quer dizer que conseguimos reconhecer sentimentos e características nossas em outras pessoas, grupos sociais ou mesmo em outros povos e, ao acontecer esse reconhecimento, um processo de identificação com o outro acontece. É a empatia que nos permite ver a realidade aos olhos do outro e compreender sua forma de perceber e lidar com a realidade. Quanto a essa identificação empática entre deuses, ou melhor, entre devotos e deuses,  ela acontecia mais do que imaginamos. O culto à deusa egípcia Ísis, por exemplo, atravessou as fronteiras do Egito, cruzou o Mediterrâneo e chegou a diversos territórios da Grécia e de Roma, logo se estendendo para algumas outras regiões da Europa. Algumas vezes, vista como Ísis (sempre aos olhos estrangeiros, bem diferente da visão de um nativo), outras vezes tendo seu mito mesclado a deusas semelhantes, mas sempre transformando os mitos, ritos e cultos das duas culturas de maneira tocante.

Vamos investigar um pouquinho esses dois deuses, Hermes e Toth, antes de prosseguir com Hermes Trimegisto. Hermes é um deus grego, geralmente descrito como um homem jovem, com asas nos pés (ou que calçava sandálias com asas). É o deus da comunicação, quando nasceu, foi colocado no vão de um salgueiro, o que simboliza que ele tem livre acesso entre os diferentes mundos (é um dos poucos a poder entrar no mundo dos mortos de Hades, por exemplo). É muito rápido, e é o mensageiro dos deuses. A Hermes são atribuídas algumas invenções importantes, como o alfabeto e os números, além da corrida a pé.

O deus egípcio Toth.
Toth, representado como um homem com cabeça de íbis, era considerado um dos mais importantes deuses do panteão egípcio. Um fato curioso: durante a era greco-romana, a cidade onde se localizava o templo de Toth se chamava Hermópolis Magna (Hermópolis claramente remetendo a Hermes, enquanto Magna significa grande, tal como Trimegisto significa três vezes grande). Os papéis de Toth enquanto deus são muitos. Ele é o mediador entre o bem e o mal, e garante o equilíbrio, sem que um prevaleça demais sobre o outro. Como dissemos antes, Toth também era ligado à linguagem, inventou diversos alfabetos e ensinou o ser humano a escrever, para que pudesse manter uma organização social e registrar sua história. Contam os mitos que Toth assumiu o governo dos seres humanos quando Rá, o deus sol e líder dos deuses, precisou de sua ajuda. E ao fazer isso, Toth ensinou a humanidade a governar a si mesma, ensinando-lhes também a medicina, estudos de matemática e geometria, botânica, astronomia e astrologia, magia, e diversos outros conhecimentos. Ele sempre dizia as palavras que simbolizavam o desejo de Rá.

Perceba que os dois deuses têm muitas semelhanças, mas também têm diferenças e a maior delas, no meu ponto de vista, está na maneira como lidam com as responsabilidades. Toth já foi responsável pela humanidade na ausência de Rá. Representou-o assumindo seu lugar e agindo por ele, ensinando o ser humano a ser responsável por si mesmo. Já Hermes nunca assumiu o posto de Zeus ou de qualquer outra deidade. Sua responsabilidade está em representá-los de outra forma: levando o discurso/mensagem deles aos destinatários. Por favor, não encarem essas mensagens como uma mensagem de celular que qualquer um pode enviar a um amigo falando sobre o jogo que transmitiram na TV ou combinando a saída do sábado. Mensagens de deuses, quando não podiam ser entregues por eles mesmos, eram urgentes e fundamentais, poderiam mudar o destino de outros deuses, de uma cidade-estado e até de toda a humanidade. Hermes era o detentor desses discursos/ações, dessa linguagem carregada de símbolos e das transformações que a mensagem causaria.


Já Hermes Trimegisto foi uma figura muito estudada pelos alquimistas e pelos neoplatônicos na época do Renascimento. Alguns o identificam com Toth e outros com Hermes, já outros dizem ter sido um terceiro, um homem contemporâneo (às vezes referido como anterior) de Moisés. A Hermes Trimegisto é atribuído um conjunto de textos chamado Corpus Hemeticum (sendo que Hermeticum remete a Hermes e também ao termo hermético, fechado - no caso, um texto hermético é aquele que carrega um conhecimento  fechado, "para poucos"). O Corpus Hermeticum, dizem, era composto por 42 livros, divididos em seis grupos. O primeiro grupo de livros tratava da educação dos sacerdotes; o segundo, dos rituais dos templos; o terceiro conjunto abordava algumas ciências naturais, o conhecimento do mundo físico, como geologia, geografia, botânica e agricultura; o quarto conjunto tratava de matemática, arquitetura, astrologia e astronomia; o quinto trazia hinos de adoração aos deuses e também um guia de política; por fim, o sexto conjunto compilava textos de medicina. Também a Hermes Trimegisto se atribuem o Livro dos Mortos (uma coletânea de textos egípcios que traziam orações, hinos aos deuses, rituais e fórmulas mágicas, era colocado junto de cada morto com o objetivo de ajudar o espírito em sua viagem para o mundo dos mortos) e a Tábua de Esmeralda, texto muito estudado pelos alquimistas.


Questões para reflexão:

1- A empatia, que traz a identificação, surge quando nos reconhecemos no outro. Em quem você se reconhece? Vamos além das pessoas! Já que os dois deuses abordados hoje são relacionados à linguagem, vamos pensar com quais tipos de discurso nos identificamos. Quais temas, argumentos e formas de uso da linguagem tocam o seu coração? A empatia é mais do que mera identificação. Não é apenas olhar para o outro e pensar "oh, ele é como eu!". Num encontro empático, todos saem transformados. Se sabemos viver esses momentos de empatia, nos entregando à emoção que nasce, temos a oportunidade de ver de fora um lado nosso, trazendo-o para a luz da consciência e integrando-o ao nosso Eu.

2- Gostaria de conversar com vocês sobre as representações. Existem vários sentidos para essa palavra. Representar um papel (seja um ator num teatro, seja cada um de nós na vida). Representar no sentido de apresentar novamente, desempenhar outra vez um ato ou comportamento que já foi desempenhado antes, seja por nós mesmos, seja por outras pessoas. Mas hoje quero falar sobre um terceiro sentido do termo "representação": suprir algo que falta. Uma representação traz para o presente, para este tempo e lugar, algo que está ausente. Isso acontece na nossa psique, temos uma representação psíquica de tudo aquilo com que temos contato nas nossas vivências: pessoas, objetos, lugares, comportamentos e atitudes, lembranças, planos, criações... Essas representações internas são como o mapa mental da realidade em que vivemos, formam nossas referências conforme vivenciamos o mundo através delas. Por exemplo, todos conhecemos cadeiras, já vimos várias e já nos sentamos em outras tantas. Temos uma imagem mental, bem como o conceito de cadeira entre as nossas representações, e isso nos permite olhar para uma cadeira diferente, talvez refinada e com um design pouco usual, e reconhecê-la como cadeira. Quando acumulamos certa experiência de vida com cadeiras (ou com o que for), construímos nossas referências sobre o tema, com conceitos mais pessoais ou típicos do grupo em que vivemos: confortável, bonita, alta demais, de cozinha, de escritório, perigosa (se a pessoa cai de cadeiras com frequência), e por aí vai. As representações permitem que a gente conviva com as ausências conforme criamos as referências daquilo que não está aqui.

3- Outro fato sobre as representações (ainda no mesmo sentido do termo): ao trazer para o presente algo que está ausente, uma representação também nos traz a consciência do vazio, de que há algo faltando. Um exemplo. Talvez eu seja convidada para um evento importante, que não posso recusar, mas ao qual infelizmente não poderei comparecer. Se minha presença é muito necessária lá, talvez porque eu tenha um discurso a fazer para aquelas pessoas, posso mandar meu agente no meu lugar. Ele lerá o discurso que escrevi e dará minha mensagem por mim, tal como Hermes. Todos no evento sabem que meu agente não sou eu. Todos ouvem "minhas" palavras, a mensagem é entregue e, de certo modo, minha ausência é suprida, pois me fiz presente através do meu agente, mesmo que eu não estivesse lá. No entanto, o movimento contrário também ocorreu. Ao verem o agente sentado em meu lugar, todos saberão que não estou presente. A falta, o vazio, se presentificam e se fazem claras para todos. E aí cabe refletir sobre como lidamos com as faltas (emocionais) que todos temos. Suprindo-as com o que quer que seja o mais depressa possível? Pedindo que outras pessoas supram esse vazio por nós? Olhando para a lacuna e lidando com o espaço, vendo até certa beleza na imensidão vazia, quem sabe? Esse vazio tanto pode ser um grande gerador de angústia como pode ser um grande encorajador dos nossos próximos passos na vida, dependendo apenas de como lidaremos com ele.

2 comentários:

  1. Muito bem exemplificado, gosto de filosofia Hermética. Para quem se interessar pelo tema, sugiro um livro chamado " O Caibalion", ele trata de assuntos pertinentes ao tema. Um abraço.

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  2. Ótima dica, Leandro! Podemos aprender muito com estudos nessas áreas. É fundamental aos psicólogos e estudantes de psicologia se cercarem do máximo de informações que puderem, em diferentes áreas. Isso faz muita diferença, ajuda a pensar o ser humano e a sociedade como um todo mais coeso, com mais conexão. Abraço.

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