terça-feira, 22 de outubro de 2013

Mythos - Nu Kua: criar ordem e ritmo na vida

Hoje vamos conversar sobre Nu Kua. Ela é uma deusa importante da cultura chinesa, e apesar do destaque que tem nos mitos de criação, estabelecendo a ordem do mundo, criando os seres humanos e ensinando-lhes sobre o casamento, esta é uma deusa sobre quem pouco se fala hoje em dia. Foi um grande desafio encontrar material sobre ela, mas é interessante refletir sobre os deuses pouco conhecidos, pois podem trazer informações importantes sobre nós mesmos que tendem a ficar nas sombras na medida em que pouco se fala sobre isso.

"Nu Kua", obra de Susanne Iles
Nu Kua é uma deusa chinesa relacionada à ordem e também ao casamento. Ela foi a criadora da humanidade, e é representada como metade mulher e metade serpente (em algumas versões, metade mulher, metade dragão). Essa representação, seja com a parte serpente ou a parte dragão, sugere que Nu Kua é uma deusa alquímica, uma deusa transformadora. A serpente troca sua pele com frequência, se renova. Por isso, em culturas antigas, este era um símbolo do feminino (segundo a lógica: o útero "troca sua pele" todos os meses, graças a isso as mulheres menstruam e são férteis, logo a serpente, que também troca de pele com frequência, era vista como um símbolo feminino), e também um símbolo de transformação, pois permite que aquilo que já não serve se vá para que venha o novo. Apenas mais tarde, com o advento das sociedades patriarcais, que a serpente foi reinterpretada como símbolo fálico. De todo modo, Nu Kua é metade serpente. Sendo associada à criação e à vida, ela é identificada com as águas, sejam essas águas chuvas, poças, lagos, rios ou onde quer que possam viver peixes e anfíbios.

Quando se viu no caos, no universo primitivo recém criado e cheio de lodo, Nu Kua resolveu que algo faltava naquele cenário. Não existia vida, apenas montes de lama. Ela então juntou uma boa quantidade daquele material e moldou algumas criaturas, tomando por base seu próprio corpo. Ela achou que a cauda de serpente não combinava com a criação, por isso, deu pernas às criaturas. Criar esses novos seres foi um processo muito longo, mas quando terminou, Nu Kua viu que o trabalho compensou, pois os seres humanos eram lindos! Entretanto, em pouco tempo ela percebeu que não havia pessoas o suficiente para preencher o mundo, e criou mais, desta vez mais depressa. O resultado não foi um trabalho tão fino quanto o anterior e os primeiros seres humanos protestaram. Nu Kua, no entanto, explicou que os seres menos perfeitos ficariam com o trabalho mais duro, e criou assim uma sociedade baseada em castas, um sistema mais rígido de classes sociais. Depois disso, ela inventou as relações sexuais e o casamento.

Tudo ia bem e as criações de Nu Kua prosperavam, mas em certo momento, o caos voltou. Em algumas versões, o caos foi trazido por povos que viviam no norte da China; já em outras, o caos voltou devido às lutas constantes entre dois monstros rivais, Gong-Gong e Zhu-Rong. De todo modo, as duas versões do mito levam à mesma crise e ao mesmo desfecho. Seja pelas batalhas dos monstros, seja pela invocação dos povos do norte, o caos voltou na forma de chuva, muita chuva. Um grande dilúvio se formou, aldeias e plantações foram destruídas, pessoas e animais morriam pela força das águas e pela falta de alimento. Montanhas de lodo voltavam a se acumular pelo mundo. Nu Kua precisava agir! Ela afastou o céu da terra, e trocou os pilares que antes sustentavam o céu pelas patas de uma grande tartaruga. Então foi até um rio e encontrou cristais muito brilhantes, que ela cravejou no céu/na carapaça da grande tartaruga, fazendo a chuva parar. Assim, desde então as chuvas acontecem apenas quando são necessárias e o mundo ganhou ordem e ritmo, por exemplo, nas estações de chuva e seca, e nos ciclos de plantio e colheita.


Questões para reflexão:

1- No mito que acabamos de ler o caos se manifesta no mundo na forma de desequilíbrio e falta de vida, seja por chuvas excessivas, montes de lodo, ou um mundo vazio e sem vida. Como o caos se manifesta em você? Observe e sinta com atenção. Talvez seja na forma de trabalho excessivo e tarefas se acumulando. Talvez os relacionamentos estejam tumultuados e carentes de amor. Talvez a vida pareça sempre culminar para o pior, num ciclo de autossabotagem que parece não ter fim. Talvez isso se mostre na falta de recursos (financeiros, emocionais, racionais, etc.). Fique atento também se o caos não vem de maneira inversa: algumas pessoas criam para si mesmas uma "ordem", ou melhor, uma rotina tão rígida que as faz sofrer e adoecer. Apenas observando o caos é que se pode restaurar a ordem.

2- O mito nos ensina que nós é que criamos nosso próprio caos. Sim, o grande dilúvio começou pelas batalhas entre os monstros, ou pela invocação dos povos do norte. A variação de motivos ensinam que os motivos externos, aparentes, pouco importam. O que interessa é a nossa reação. Nu Kua é associada às águas, inclusive águas da chuva, e o caos trouxe chuvas! O caos externo, na realidade, só se realizou enquanto caos por haver despertado o próprio caos interno de Nu Kua (ou a face destrutiva/caótica da deusa). Da mesma forma, algumas vezes acontecem situações na vida que parecem fugir ao nosso controle - e fogem mesmo! Mas o verdadeiro caos que sentimos e que interfere na nossa vida de forma mais duradoura, marcando nossa história, é o caos que vem de nós mesmos, a forma como lidamos e reagimos a essas situações incontroláveis, ou ainda o caos vindo das nossas próprias escolhas impensadas e emoções tumultuadas. Quando temos consciência de como o nosso caos geralmente se manifesta, como sugerido no ponto 1, podemos percebê-lo se aproximar antes que se manifeste por completo. Assim, é possível reagir antes mesmo do acontecimento, agindo de forma preventiva para que nossas reações se mostrem de forma não destrutiva.

3- Nu Kua é uma deusa ligada ao criar, ao "fazer". Você se sente bem e realizado apenas no "fazer" ou se permite a realização em outras esferas da vida, como no "ser", no "sentir", no "pensar"...? Geralmente, quando a pessoa se sente realizada (apenas ou principalmente) no fazer, tende a se esforçar mais que o necessário para o bom cumprimento de uma tarefa. Isso resulta em tarefas e criações primorosas, mas também num elevado nível de estresse e autocobrança. Se este for o seu caso, é interessante refletir até que ponto você deixa de lado necessidades suas que tende a ver como "menos importantes" que a realização da tarefa. É importante suprir essas necessidades, mesmo que pareçam sem propósito ou que "não levariam a nada", pois somos seres que vivem em diferentes realidades ao mesmo tempo, e cada uma delas tem seus desafios e necessidades.

4- Nu Kua cravejou o céu de cristais brilhantes e com isso restaurou a ordem do mundo. Cristais podem ser interpretados simbolicamente como elementos transformadores, ou que aceleram um processo/transformação (catalizadores). Quais são os seus "cristais"? O que ordena a sua realidade e permite que sua vida ganhe coerência e sentido? Não encontre apenas um elemento, lembre-se de Nu Kua: o céu está cheio de cristais.

5-  Para terminar, um exercício prático! Crie algo sem se preocupar com o resultado final. Pode ser qualquer tipo de criação: um desenho, modelar barro como Nu Kua, criar um novo visual com as suas roupas ou com maquiagem, criar uma nova receita na cozinha, escrever um poema, tirar um som do violão... Não se preocupe aonde sua criação te levará, apenas tenha coragem e se entregue ao processo de criar. Ouse seguir seu caminho.

2 comentários:

  1. Eu AMEI a forma como você nos trouxe informações sobre essa DEUSA.
    Gratidão por compartilhar os eu conhecimento de forma tão linda <3

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  2. Gratidão infinita por esse texto <3

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