terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mythos - Os Lare: a força dos antepassados

O mito desta semana é uma homenagem ao dia de finados, comemorado no próximo sábado. Queria muito fazer esta homenagem e vinha planejando há tempos, mas qual mito usar? Depois de analisar algumas possibilidades, me decidi pelo mito que não conta a história de nenhum deus ou herói, mas sim a história das pessoas comuns. Este não é exatamente um mito, mas sim um culto, achei que poderia ser interessante explorá-lo nesta semana. Falo do mito de origem etrusca/romana dos lare, do culto aos nossos antepassados. O culto aos lare era romano, e acredita-se que tenha surgido do culto etrusco aos lase (uma lasa era um antepassado feminino). Assim, que fique claro, os lare não são deuses ou criaturas mitológicas, mas sim espíritos humanos que vieram antes de nós e que, de acordo com essas crenças, nos protegem e guiam. Sim, nossos pais, avós, bisavós... mas também aqueles antepassados que vieram muitos séculos e milênios antes de nós e que, mesmo que não façamos ideia de quem foram, também marcaram a nossa história e contribuíram para que viéssemos a existir.

Lar romano de bronze, encontrado na Espanha.
Do termo lare surgiram palavras como "lêmure" e "larva" que, no contexto romano, correspondiam à nossa ideia de espírito ou fantasma. Surgiram também palavras que ainda usamos hoje, como lar e lareira. O culto aos lare era centrado na lareira, no fogo que a animava e que nunca se extinguia, pois este era o centro da casa e da família, o lugar de honra onde as refeições eram preparadas e servidas, as conversas e decisões importantes aconteciam, as histórias eram contadas, o conhecimento era transmitido... Vejam como alguns pontos desse culto perdura, por exemplo, as conversas ao pé do fogo e as tradicionais fotos de família colocadas junto da lareira.

lar era inicialmente representado em estátuas de madeira, barro ou cera pois, ao contrário do bronze ou das rochas, esses materiais são pouco duráveis, assim como a vida humana. Com o passar do tempo, a estátua se aprimorou, passando a ser feita de outros materiais e ganhando contornos humanos mais claros, vestindo túnicas amarradas na cintura e botas leves, sempre acompanhadas por um cão, símbolo de fidelidade, aquele que conhece os caminhos (note que, no mundo grego - e os etruscos são, muitas vezes, apontados como um povo antecessor comum tanto de gregos quanto de romanos - Hecate é sempre acompanhada por cães, sendo uma deusa do mundo dos mortos, da magia, dos caminhos e encruzilhadas). Os símbolos associados aos lare era a pátera (uma taça para oferendas), a cornucópia (um cesto em formato de chifre, pleno de grãos e frutos da farta colheita, simbolizando abundância e fertilidade) e o ríton (um chifre que servia como taça de beber). As refeições eram partilhadas com os lare na forma de oferenda e na comensalidade, isto é, fazia-se as refeições na presença dos lare e esperava-se que estes a partilhassem. Quando se tinha um problema, crise ou qualquer tipo de situação difícil, era comum que se recorressem aos lare, pois eram sábios e certamente nos protegeriam e até enviariam sinais apontando a decisão ou o caminho mais conveniente.

Interessante saber: apesar do culto aos lare ser doméstico e familiar, também existiam os lare públicos (entre eles, Remo e Rômulo, os fundadores de Roma!), eram os antepassados do povo, cultuados na entrada dos templos de Vesta (a deusa do fogo e da lareira), nas encruzilhadas das estradas, nas embarcações e até na sede do império, pois havia lare protetores do imperador.

O culto aos ancestrais mantinha viva a memória deles. E quando isso acontece, nós também ficamos um pouquinho mais vivos, pois sabemos (sentimos) no fundo dos ossos que mesmo que muitos anos se passem, mesmo depois que estivermos mortos e mil anos se passem, ainda estaremos presentes na memória dos vivos, ainda seremos parte da família e da história dessas pessoas, ainda teremos o nosso lugar. Alguém honrará nossa memória. Não como algo que um dia foi, mas como alguém que ainda é, ainda existe seja na forma de lembranças e consciência, seja na representação do lar, seja na estrelinha brilhante e especial no céu. 


Questões para reflexão:

1- Você sabe quem são seus antepassados? Conhece histórias da sua família, das suas origens? Isso é fundamental, nos dá a força saber de onde viemos, saber que outros já estiveram onde estamos dando o seu melhor. Procure investigar suas origens. Pode ser através de fotografias antigas e documentos, procurando antigos objetos de uso, tudo isso conta muitas histórias quando se sabe ouvir. Outra forma bem interessante de fazer isso é visitar seus pais, seus avós e, os sortudos, visitem seus bisavós. Na certa eles vão adorar te ver e contar algumas boas histórias de família enquanto tomam um chá!

2- Não deixe o material que você coletou cair no vazio. Registre as lembranças. Pode ser escrevendo-as, criando um video com fotos, objetos e depoimentos, um álbum de fotos especiais e outras lembranças, e até criando uma árvore genealógica (existem diversos sites na internet onde você pode criar sua árvore gratuitamente e acrescentar datas, histórias, fotos...). Permita-se honrar seus ancestrais, permita que participem da sua vida.

3- O que você faz para honrar seus antepassados? Você deixa que a memória deles, os exemplos e ensinamentos que deixaram participem da sua vida? De que forma? Na Roma antiga os lare eram lembrados e trazidos para o convívio sempre que a família passava por um momento importante, como um nascimento, casamento, funeral... Mesmo no dia do aniversário, os romanos tinham o costume de agradecer aos lare. E para você, qual o papel que seus antepassados (mais próximos ou mais distantes) ocupam na sua vida?

2 comentários:

  1. Estudo também o tema da morte e achei muito interessante e proveitoso esse texto. Obrigado, Bia!

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    1. Que legal que fez sentido! Esse mito de antepassados me da muita tranquilidade, um dia todos seremos antepassados - dos nossos descendentes, do nosso povo, do nosso meio cultural.
      Bjs

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