quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O poder das palavras e do pensamento

"A vida de um homem é o que seus pensamentos constroem." - Marcus Aurelius (121-180), filósofo e imperador romano.

Sei que muitas pessoas olham com suspeita quando se fala sobre o poder que nosso pensamento tem sobre a nossa realidade, por isso quero deixar claro no início sobre o que não estamos falando: não é aquela coisa infantilizada de "eu quero e por isso vai acontecer", nem aquele pensamento meio "mágico". Este é um artigo sobre afinar nossas metas à linguagem que usamos e aos temas que passam com frequência pela nossa mente, com o objetivo de transformar a nossa realidade a partir da nossa própria transformação interior, de um jeito bem prático e objetivo: mudando a linguagem que usamos.

Psicologicamente falando, somos seres feitos de linguagem e movidos pela linguagem. É a comunicação que nos permite agir e interagir no mundo, planejar, criar laços e mostrar quem somos. É o nosso discurso, por assim dizer, que diz quem somos, para os outros e também para nós mesmos. Como eu disse antes, não quero que este seja um artigo cheio de teorias que caiam num vazio, por isso vamos continuar daqui explorando cenas do dia a dia e pensando em atividades práticas.

Você cria sua própria realidade a partir de suas palavras (ditas ou pensadas).

1- As críticas vazias:
Já notou como algumas pessoas adoram criticar? Criticam "os outros", o colega descolado, o chefe, os professores, os políticos, os médicos, a própria família, o desconhecido no metrô, só não criticam a si mesmos! Claro que não há problemas em criticar, aliás, acho que é justamente criticando e refletindo sobre as diversas situações que podemos nos conhecer melhor e aprender com as atitudes dos outros. Mas é preciso diferenciar os tipos de crítica. Existem as construtivas, que buscam uma melhora, como o estudante que diz ao professor que o esquema de aula dele está difícil de ser acompanhado para que, juntos, busquem soluções em ambas as partes. Existem as críticas destrutivas, onde alguém aponta as falhas e conflitos do outro de forma dura, sem pensar em soluções ou transformações, mas em destacar supostos erros do outro por pura vaidade, fazendo aquele que critica parecer (ou se sentir) "melhor" que o criticado. Existem as críticas que trazem crescimento, mesmo quando não se chega a uma solução. Fulana tem problemas de relacionamentos, e falar ou pensar sobre os problemas dela me ajuda a reconhecer e transformar os conflitos nos meus próprios relacionamentos. Houve um crescimento. De outro lado, existem as críticas vazias, em que Fulana é criticada sem que isso traga nenhuma solução ou crescimento para ninguém, apenas para mostrar como ela é supostamente inadequada ou como os que criticam são melhores, não há uma reflexão, apenas um discurso vazio que supre a necessidade do momento de encontrar um "bode expiatório" para certos problemas, sem que se faça nada para mudá-los.

Na prática - Gostaria que você observasse as críticas que costuma fazer. Elas são construtivas ou destrutivas? Trazem crescimento ou são vazias? Vamos além! Quem são os maiores alvos das suas críticas, em especial as vazias e destrutivas? O que há em comum entre essas pessoas ou situações? São seus superiores (professores, diretores, o Estado, o sistema)? São seus subordinados? São pessoas com quem você tem laços emocionais fortes? Busque o que há em comum entre eles, o que simbolizam na sua vida, pois quase nunca esses alvos são simples desconhecidos, e mesmo quando são, nós os enxergamos como representantes daquilo que criticamos (a autoridade, a rigidez, a aparente despreocupação, etc.). Como você lida com aquilo que seus alvos representam? Provavelmente é aí que está o seu conflito.


2- Reclamações que não transformam:
Pior que as críticas, são as reclamações, pois se a crítica, no mínimo, promove certa reflexão (ou deveria), as reclamações, quando não são transformadoras, servem apenas para reforçar para nós mesmos um discurso negativista, de que a vida não é boa, o mundo é um lugar ruim e precisamos sempre desconfiar de tudo e todos. Sim, precisamos ter cuidado, mas a vida não é por aí. Existem sim pessoas em quem se pode confiar, o mundo pode ser um lugar que nos agrade se criarmos nossa realidade desta maneira, o que não está bom, pode ser mudado. O problema não são aquelas reclamações justas e que visam melhorias: sobre a dificuldade de relacionamento com a família, sobre abusos de poder, sobre injustiças e negligências que infelizmente acontecem. O problema são aquelas reclamações sem nexo, aquela "ladainha" que algumas pessoas insistem em repetir o dia todo (em voz alta ou pior, em pensamento), mas nunca faz nada para buscar transformações ou apontar soluções. No popular, falo aqui dos "reclamões" de plantão. Como criar para si uma realidade que vai ao encontro do que nos faz sentir felizes e realizados se reforçamos com nossas palavras o tempo todo o quanto somos miseráveis e azarados, o quanto Fulano é folgado e Beltrano nunca colabora? Não dá. Porque quanto mais reclamamos nesse sentido, mais reforçamos para nós mesmos que a vida é essa aí e que não há nada a se fazer para melhorar.

Na prática - Antes de tudo, corte essas reclamações vazias da sua vida! Sim, é difícil, mas sempre que perceber que está embarcando nessa, pare e pense algo como "deleta, deleta, deleta!". Isso provavelmente já abrirá um belo espaço vazio na nossa mente e na nossa vida. Por que não preencher esse espaço com pensamentos e ações que nos fazem crescer? E com isso entramos na segunda parte desta prática, que é trazer o foco para si. Muito provavelmente, o responsável pela vida estar da forma como está é você mesmo, pois é o único que pode agir na sua realidade. O que exatamente te incomoda? Garanto que isso passa muito longe da vida dos outros, esses outros são apenas um espelho que encontramos para não ver em nós mesmos as características ou problemas que tanto repudiamos. Mas é apenas ao encontrá-las em nós mesmos que ganhamos o poder de transformá-las. Traga o foco para si. O que você pode fazer para mudar o que tanto te incomoda? Busque ajuda profissional, se necessário. Lembre-se que "os outros" nunca nos ofendem ou nos colocam para baixo, eles apenas agem. Quem se ofende e se põe para baixo é o próprio sujeito, quando seu foco está "nos outros" e na vida deles!


3- Pare de focar o que não quer!
É muito triste o que vou dizer, mas é uma realidade que observo na prática clínica e na minha vida pessoal. Acredito que todos embarquem nesse hábito algumas vezes, mesmo que sem perceber. É o costume de agir por evitação. Vamos fazer isso deste jeito para não ter problemas com Fulano, ele é muito grosseiro!  É a pessoa que inicia um relacionamento esperando não se machucar demais quando o outro a desapontar. Ou o profissional que inicia um novo projeto esperando que a equipe não tenha grandes conflitos ou que os resultados falhos possam ser contornados logo. Ou quem faz o que for apenas esperando não ter tantos contratempos. Olhando de relance, parecem até boas intenções, mas vou explicar porque não são. Todas essas pessoas focaram o que não querem! Não seria mais harmonioso focar o que se quer? Espero que o novo relacionamento seja feliz e que traga crescimento para nós dois. Espero que, no novo projeto profissional, a equipe seja bem integrada e envolvida, e que os resultados sejam excelentes. O que quer que eu faça, espero que tudo dê certo e que eu possa agir com autenticidade e eficácia caso as situações me surpreendam, que eu possa sempre me superar e fazer o meu melhor. Perceba como o ânimo frente às situações é outro! E, com isso, a realidade que criamos para nós baseada no nosso discurso (falado ou pensado) também é outra! O mundo deixa de ser um mar de catástrofes em que eu preciso me proteger e me desdobrar em mil para suprir todas as demandas e passa a ser algo mais aberto, que me permite agir e interagir conforme minhas escolhas e meus próprios valores.

Na prática - Agir por busca e não por evitação. Manter o foco naquilo que esperamos, e não no que não esperamos. Quando fazemos isso, a realidade interna que criamos nos leva a pensar sobre o que exatamente queremos, sobre onde pretendemos chegar. Isso nos abre a possibilidade de sonhar com os pés no chão, ou seja, de planejar. Para ter um planejamento viável e bem feito, delimite sua meta da forma mais precisa possível, inclusive colocando um prazo. Veja (se possível, liste) o que você já tem para a realização da meta (documentos, habilidades e conhecimentos, redes de contatos, recursos de todos os tipos, referências de sucesso...). Depois, divida a meta em várias pequenas ações, estabelecendo prioridades e criando estratégias de ação (isto é, pensar o "como?").

E agora, de posse dos mapas e planos, é como dizem os peregrinos: "bom caminho"!

4 comentários:

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    1. Sem propagandas não autorizadas por aqui, ok? Obrigada.

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  2. BRILHANTE...basta a pessoa ler e aplicar. Sua didática me encanta. Parabéns!!! só não emerge quem não se esforça.

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    1. Muito obrigada, Abigail! Fico feliz de saber que gostou. Realmente, para tudo na vida tem jeito! bjs

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