sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Ágora - O luto em crianças

Oi Bia...
Acompanhei os artigos da semana com o tema da morte (Mythos - os Lare: a força dos antepassados e Falando sobre a morte: as perdas e o luto) e achei bem interessante. Sendo franca, é um tema que sempre evito, mas entendo quando você diz que é preciso olhar para ele mesmo sendo desagradável. O que eu queria te perguntar tem um pouquinho a ver com isso. Há três semanas perdemos a minha sogra. Meu marido e eu sofremos muito, foi muito de repente e todos nós sentimos muita falta dela, mas acho que quem mais demonstra isso é o meu filho, Pietro. Ele tem 4 aninhos e costumava ficar com a avó durante a tarde depois da escolinha, agora fica com a minha vizinha até eu chegar do serviço. Ele pergunta muito pela avó e a gente não sabe como explicar o que aconteceu de um jeito que a cabecinha dele entenda, aí a gente acaba desconversando, diz que a vovó viajou e não volta mais, que está no céu, ou que dormiu pra sempre, mas acho que ele não entende bem o que queremos dizer. Na hora optamos por não levar ele para o enterro porque achamos que ele é muito novinho e não lidaria bem com isso que já é tão dificil para nós adultos, mas começo a pensar se foi bom fazer isso. As brincadeiras dele também mudaram como você disse no artigo, ele era doce e cuidadoso e passou a quebrar brinquedos e dizer que agora estão estragados para sempre! Bia, estou muito preocupada e me dói o coração ver meu filho sofrer tanto! Ele diz que sonha com a avó e que ela abraça ele nesses sonhos, e isso me assusta um pouco, mesmo eu acreditando que a morte não pode ser o fim de tudo. O que fazer para ajudar uma criança tão pequena a superar a morte de alguém especial? Obrigada. beijos

Fátima - Registro, SP


Oi, Fátima.

Antes de tudo, sinto muito pela perda de vocês. Acho que a morte sempre nos pega de surpresa. Mesmo quando a pessoa que morre é muito velhinha ou tinha um problema de saúde grave, ainda assim a morte tende a ser vista como um acontecimento que foge ao nosso controle, foge do dia a dia comum.

Tenho certeza que seu filho deve estar sentindo muito a falta da avó, tanto pela perda ter sido recente, quanto por ter tido contato diário com a avó (e, portanto, creio que tinham um vínculo afetivo forte), por ser muito novo e ainda não ter tantos recursos interiores quanto nós, adultos, para lidar com a perda, e mesmo por não ter tido a chance de dizer adeus. Para começar, quero tranquilizar você, pois parece que o processo de luto do seu filho está andando dentro do esperado. Quebrar os brinquedos, apesar de parecer um pouco assustador quando se trata de uma criança mais tranquila, é muito positivo nessa situação, pois foi a forma como o Pietro encontrou de dizer como se sente. E, pode ter certeza, é melhor que ele diga isso (seja com palavras, desenhos, brincadeiras e mesmo comportamentos diferentes) do que seria se ele guardasse tanta dor dentro de si. Os sonhos também são muito positivos e, especialmente se não forem assustadores (pelo que você escreveu, não me pareceram), podem ser encorajados. Procure conversar com seu filho sobre esses sonhos. Sei que é difícil saber  que dizer nessas horas, mas o principal é deixar que ele fale. Perguntas como "o que a vovó contou para você no sonho?" quando o Pietro resolver falar sobre eles, podem ser muito estimulantes para que a criança reflita e supere a perda.

Sobre optarem por não levar a criança ao enterro, preciso dizer que, apesar de ser uma escolha comum hoje em dia em muitas famílias, pessoalmente eu não concordo com essa postura. O funeral é um dos poucos rituais ligados à morte que sobreviveram no mundo atual, e mesmo assim, vem se tornando cada vez mais algo frio e burocrático, sem emoção. De toda forma, ir ao funeral é uma ótima forma de aceitar a perda e começar a lidar com ela, começar a juntar os nossos cacos e a reconstruir a vida. A criança, mesmo que novinha, deve ir sim. Acho desnecessário fazer com que a criança pequena participe de todo o processo, passando a noite no velório e tudo o mais. Mas acho bastante saudável levar a criança ao finalzinho do velório e ao enterro, deixar que dê uma boa olhada no corpo se quiser, que chore se tiver vontade, que toque ou beije o morto apenas se quiser e que possa ser ouvida ao dizer como se sente. Enfim, é saudável que a criança possa participar e entender o que aconteceu quando perde alguém importante. Ah, e para a experiência ser positiva, é fundamental contar à criança o que aconteceu exatamente antes de levá-la para o funeral!

E por falar sobre contar o que aconteceu, Fátima, pelo que você diz, o Pietro ainda não entendeu muito bem o que houve com a avó. Meias palavras não funcionam com crianças pequenas, aliás, muitas delas passam a ter problemas de sono ou mesmo medo de dormir quando os pais usam expressões como "ela está dormindo e não vai mais acordar". Vocês precisam conversar com ele de forma clara e franca, e sim, será uma conversa difícil. É normal que surjam perguntas e, apesar de chocarem algumas famílias, é importante que sejam respondidas com sinceridade. Caso a família tenha algum tipo de crença religiosa ou espiritual, essa visão da morte pode ser confortante para a criança quando as perguntas se tornam mais abstratas como "para onde foi a vovó?", caso não tenham esse tipo de crença, uma boa resposta é o simples e sincero "não sei". No caso de perguntas mais concretas, comuns na idade do Pietro, é indicado, sempre, a franqueza, e nunca dar mais informação do que a criança pede, limitando-se a responder as perguntas dela. Sim, todos nós um dia vamos morrer, mas normalmente isso acontece depois que já somos bem velhinhos. Sim, o papai e a mamãe também vão morrer um dia, mas provavelmente nós já seremos velhinhos e até lá você já vai ser crescido. Não, infelizmente a vovó não vai mais voltar, nós também sentimos saudade dela. Sim, que sorte que a gente teve de conviver com ela por esses anos, que sorte que temos tantas lembranças bonitas guardadas no coração e que nós a amamos tanto.

O Pietro vai precisar de muita compreensão por parte de vocês e de muitos abraços. Ele precisa se sentir acolhido para ter forças e superar essa perda tão dura. Aos quatro anos, ele ainda não tem recursos para lidar com isso, mas nós, adultos, temos e podemos emprestá-los a ele. Por mais que doa e que vocês também sofram com a perda recente, é fundamental ter abertura para falar sobre a morte com a criança. Para que a criança lide bem com a perda, é importante que os adultos ao seu redor lidem com a morte de forma tranquila (não, por isso, menos dolorida), então pode ser conveniente que você e o seu marido conversem sozinhos sobre o tema e sobre a perda que tiveram antes de convidar o Pietro para uma conversa. Uma boa ideia para matar as saudades que ele sente da avó é ver fotos ou videos e lembrar as histórias especiais que viveram juntos. Muitas famílias escondem as fotos e apenas deixam de falar sobre a pessoa que se foi, na falsa esperança de que a criança apenas "esqueça". Bem, isso não acontece, Fátima. Aliás, é ainda mais dolorido perder alguém e ser "proibido" de falar ou pensar sobre a pessoa. Deixe que seu filho manifeste o que sente nesse momento tão intenso. Incentive o Pietro a desenhar sobre esses sentimentos, isso ajuda muito a criança a se reorganizar. Caso achem pertinente, podem visitar o túmulo da avó com ele e levar flores, dizer alguma coisa ou levar até lá um desenho especial do Pietro para ela. Permitam que ele vivencie a perda e aprenda a lidar com ela, claro, sempre apoiando e confortando a criança.

Nunca mais somos os mesmos depois de enfrentar a morte (seja a possibilidade da nossa própria morte, seja a perda de alguém especial). Lidar com a morte é uma das experiências mais intensas e transformadoras que podemos ter na vida. Olhar para a morte com naturalidade não é deixar de sofrer ou não se abalar. Isso é aridez emocional. Lidar com a morte naturalmente é aceitar que ela é outra face da vida, desta mesma vida que estamos levando no nosso dia a dia, quando trabalhamos, ou passeamos no parque, ou tomamos sorvete. Não falo sobre aceitar a morte no sentido místico ou religioso (sem desmerecer em nada essa visão, sei que quem segue alguma religião pode encontrar muito conforto nela ao lidar com as perdas, e acho isso saudável). Falo sobre ver a morte como algo muito íntimo e próximo a nós, algo pertinente a este mundo e a esta vida comum que vivemos todos os dias. Apenas aceitando a morte - a nossa própria morte que algum dia virá e com a qual nos deparamos sempre ao lidar com a morte dos outros - é que estamos prontos para verdadeiramente aceitar a vida. É dizendo sim à nossa morte que podemos fazer escolhas acertadas na vida, pois compreendemos que não ficaremos aqui para sempre e que os momentos existem para serem vividos ao máximo. Aceitando a nossa morte, deixamos de viver num eterno presente e ganhamos a dimensão do tempo, a vida passa a ter um sentido e assim ganha profundidade, pois passa a caminhar rumo a um grande desfecho. E assim, apesar de ser algo duro e sofrido, passamos a ver a beleza que existe na morte, pois compreendemos que apenas ela pode dar algum sentido à nossa vida, como a grande passagem que é.

Espero que superem este momento delicado, fortalecendo os laços de amor entre familiares e amigos.
beijos para todos vocês, e um abraço muito carinhoso para o Pietro.
Bia

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