terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mythos - Loki: as ambiguidades que formam o todo

Trabalhar com Loki foi uma sugestão da amiga e leitora Fran Kitsune. Na verdade, ela comentou que ouviu boatos sobre a sexualidade de Loki. Seria ele bissexual, como a personagem dos quadrinhos? Resolvemos averiguar essa história! No entanto, apesar de discutir a orientação sexual, preferi manter este texto com o foco nas ambiguidades que se complementam e formam um todo, pois o tema da orientação sexual e aceitação já foi discutido na coluna Ágora, quando conversamos com o JP (Homossexualidade e aceitação da família, clique para ler!). Hoje, portanto, apesar do tema ser abordado, nosso foco é mais amplo, já que Loki é um deus complexo e que nos permite pensar num contexto mais abrangente.



Quem é Loki? Este é um deus da mitologia nórdica, dos povos que viviam na Escandinávia e região. Ele não é um dos filhos de Odin (o líder dos deuses) como muitos acreditam e a mídia insiste em mostrar. Na verdade, Loki é filho de dois gigantes de gelo e, mais tarde, torna-se irmão de Odin através de um pacto de sangue. Loki também não é deus do fogo como alguns dizem, (na língua desses povos, fogo se diz Loge, mesmo nome do deus relacionado a este elemento, provavelmente a confusão se dê pela semelhança entre os nomes). Ao contrário, por sua maleabilidade, Loki é associado às águas. É o deus das trapaças, das travessuras e também tinha grandes habilidades mágicas. Ele podia transformar sua aparência conforme a própria vontade. Assim, existem diversas histórias na mitologia nórdica em que Loki se transforma em seres de aparências diversas ou em animais de todo tipo, inclusive em fêmeas. Certa vez, transformou-se numa égua branca, chegando a engravidar e a parir um filho, o cavalo de 8 patas que se tornou a montaria de Odin! Entrando no âmbito da orientação sexual, é preciso dizer que entre os antigos povos nórdicos, as relações homossexuais eram muito mal vistas, e não há referências a ela na mitologia desses povos que tenham chegado aos nossos dias. Penso que a ideia de bissexualidade possa ter sido uma jogada de marketing (bem pensada, por sinal), provavelmente inspirada pelo poder de transformar-se deste deus, não apenas no âmbito da aparência, mas também de papéis, funções e habilidades fisiológicas. Entre os nórdicos, não há (ou não chegaram aos dias de hoje) histórias sobre relações homossexuais entre deuses. O protótipo de homem era o guerreiro forte e "machão". Homens com características afeminadas ou sensíveis eram vistos como incapazes, apesar de que havia cultos em que os sacerdotes eram, obrigatoriamente homossexuais ou afeminados, como o culto ao deus Freyr, da fertilidade. Também Odin era muitas vezes mostrado como um praticante de seid, um tipo de magia reservado apenas às mulheres, e que envolvia ritos sexuais.

Mas a polêmica que envolve Loki vai além da orientação sexual. Ele era dado a pregar peças e a trapacear e, embora seus atos causassem prejuízos aos outros deuses no início, geralmente no fim das histórias eles acabavam sendo beneficiados pelas atitudes de Loki. Lembre-se, este é um deus ambíguo como o fogo com o qual tanto o confundem. O fogo tanto pode aquecer, iluminar, ajudar a cozinhar alimentos e nos proteger, como também pode fugir ao nosso controle e causar acidentes graves e desastrosos. Como dito, Loki é maleável como a água, que se adapta e toma a forma de qualquer recipiente ou reservatório onde seja armazenada. Assim, também, é Loki. Muitas vezes ele é descrito como vilão, mas é alguém de mente astuta e que usa muito bem a estratégia. Outras vezes, ele é uma entidade chave para o bom desfecho dos mitos, é ele quem recupera o martelo de Thor, e o próprio Odin já chegou a dizer que sempre que bebesse, seria na companhia de Loki, mostrando com essa atitude o papel importante deste deus. É fundamental discutir essa questão de bem e mal. Este é um conceito mais típico de povos cristãos. Quando o cristianismo chegou à Escandinávia, Loki foi comparado ao demônio cristão, tal como aconteceu com outros deuses e entidades de outras culturas (como o Exu da cultura afro ou o Anhangá dos povos indígenas do Brasil). Essa associação pode ter sido feita não apenas pela personalidade ambígua de Loki, mas também porque este deus não possuía um sistema de culto e, diziam os povos nórdicos, era melhor que não fosse invocado, pois Loki era extremamente fiel aos seus próprios desejos e necessidades, mais do que seria devotado aos humanos ou a outras motivações mais altruístas. Apesar disso, Loki era uma entidade muito presentes nos mitos e nas histórias populares com função educativa, às vezes dando exemplo do que fazer ou não fazer, outras vezes apenas divertindo as pessoas com seus embustes! Mas voltemos à questão do bem e do mal. Entre povos mais antigos, geralmente tudo e todos (até os deuses!) podiam ser ao mesmo tempo bons e maus. Não por serem deuses arcaicos ou imperfeitos como muitas pessoas dão a entender, mas porque esses opostos (os mesmos que nos formam), quando integrados de forma harmoniosa, compõem um todo pleno de sentido. Integrá-los na nossa própria psique e na nossa vida é o que nos permite aumentar nosso equilíbrio e promover transformações em nós mesmos. É na integração harmoniosa dos opostos que mora a sabedoria.


Questões para reflexão:

1- Faça uma lista das suas principais características. Não se preocupe em saber se são boas ou ruins, pois como conversamos, somos seres ambíguos como Loki. Tente escrever pelo menos 10 características da sua personalidade ou jeito de ser. Agora, ao lado de cada uma delas, escreva o que você consideraria a característica oposta a cada uma delas. Por exemplo, posso escrever que sou calma e colocar como oposto ansiosa ou nervosa, ou o que quer que eu considere o oposto disso. Feito isso, você terá 20 características (suas 10 e os opostos). As que você não identifica em si, provavelmente estão na sua sombra, adormecidas nas profundezas da psique e esperando o momento de despertar. Pense em si com as características que não reconhece ou que te desagradam. Provavelmente você se recordará de momentos em que elas se mostraram, ou até de pessoas com essa característica que insistem em "aparecer" na sua vida, mostrando que somos, todos nós, jogos de opostos-complementares.

2- Um exercício bem parecido com o anterior. Pense em algumas pessoas muito diferentes de você (quanto à personalidade, "jeito", comportamento...). Por exemplo, considero meu irmão uma pessoa competitiva (no sentido equilibrado e maduro da palavra, alguém que busca sempre se superar e fazer tudo "melhor" do que costuma ver por aí). Acho essa característica bem diferente das que tenho, pois sou muito calma e adepta da ideia que o mais importante é a gente se sentir bem consigo mesmo e com o que faz, independente de "melhor" ou "pior" que os outros. Qual forma de ser é a melhor? Nenhuma! São apenas formas diferentes/opostas de funcionar! E como todo oposto, existe neste par uma complementariedade, o que significa que juntos podemos unir essas características e isso provavelmente será transformador e trará crescimento para ambos. No popular, um aprende com o outro. A ideia aqui é essa, pensar nas pessoas com características diferentes e complementares às nossas. Com algumas delas identificadas, o passo seguinte é refletir no tipo de relacionamento que temos com essas pessoas ou com esses "tipos" de pessoas. É tenso e tumultuado? Ou apesar de muito diferentes, as coisas entre vocês fluem bem e existe o sentimento de que se complementam? Quando nossa interação com essas pessoas é permeada pela abertura e aceitação, ambos crescem. Já quando a interação é mais difícil, isso demonstra certa resistência por parte dos dois em integrar esse par de opostos, enterrando-o cada vez mais fundo na psique. Quando isso acontece, quando nos recusamos a ver o oposto de forma objetiva (em nós mesmos, nos outros, nos sonhos, etc.), a sombra se mostra de forma destrutiva, fazendo com que surjam os sintomas, de forma bem simbólica - como a típica pessoa com dores ou um corpo extremamente rígido que não aceita que precisa se tornar alguém um pouco mais maleável e flexível, se "movimentar" melhor pela vida.

3- Transforme-se como Loki! Experimente ser de outro jeito. Escolha uma dessas características que você não reconhece em si e tente pensar em si mesmo como se essa fosse sua maior característica. Imagine como você e sua vida seriam com aquela característica em destaque. Faça isso com algumas características, até que possa sentir que somos ambíguos como Loki, somos uma massa maleável e pronta para nos tornar aquilo que tivermos vontade de fazer de nós mesmos!

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