terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mythos - O caldeirão de Ceridwen: revivendo os mortos

Hoje temos um mito celta, da deusa Ceridwen. Já encontramos esta deusa aqui na coluna Mythos há algum tempo, quando conversamos sobre Taliesin (clique aqui para ver). Como vimos no mito de Taliesin, Ceridwen era uma deusa celta ligada à magia e fertilidade, entre outros atributos. Ao mesmo tempo, era uma sábia anciã, conhecedora de histórias e mistérios da vida e da morte. Dizem que ela vive às margens do lago que leva a Avalon, ilha onde a magia fluía livre.



Sem dúvidas um dos símbolos mais marcantes de Ceridwen é seu caldeirão. No caldeirão as transformações acontecem. Conta-se que no caldeirão de Ceridwen (chamado Awen nos mitos celtas) são preparadas poções capazes de gerar sabedoria profunda ou ainda atuar como o mais letal dos venenos, curar os enfermos e até reviver os mortos. Muitas vezes associam o caldeirão de Ceridwen ao Graal, a taça usada por Cristo na última ceia e buscada incansavelmente pelo Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda. O caldeirão é o recipiente sagrado pleno de sabedoria e inspiração. Lá, material espiritual e abstrato pode ser transformado em algo concreto e palpável, capaz de habitar a nossa realidade. O caldeirão, assim como o cálice, está associado ao útero enquanto um recipiente sagrado. No entanto, enquanto o cálice apenas recebe e guarda algo, o caldeirão tem o poder de transformar, transmutar aquilo que recebe.

Apesar de ser usualmente mostrada como uma anciã, Ceridwen tem o dom de transformar-se, e em algumas ocasiões assume a forma de mulher madura ou até mesmo de uma jovem! A fertilidade de Ceridwen, enquanto um potencial para criar, vem de sua capacidade de se transformar e de transformar a realidade através daquilo que prepara no caldeirão. Ela é associada à lua, à inspiração, às profecias e poesias, à capacidade de metamorfose e transformação (em diversos sentidos - seja a aparência física da deusa, seja a capacidade de transformar a nossa realidade), também é associada à sabedoria e ao conhecimento. É a deusa da vida e da morte, pois para os celtas, esses dois opostos formavam um todo pleno de sentido, que coloria o mundo. Aliás, todos os opostos se encontram e se harmonizam no caldeirão de Ceridwen. Ela une a paz ao caos das guerras, a vida e a morte, a saúde e a doença, os inícios aos fins. Isso porque em sua sabedoria, Ceridwen nos ensina que é justamente a harmonia entre esses opostos que faz com que algo transformador tenha a nossa permissão para acontecer na nossa realidade (interior e exterior). A vida antecede a morte, uma não pode existir sem a outra, pois é o pólo oposto que dá a razão de cada uma delas existir. Além disso, não se pode integrar opostos enquanto eles forem vistos como realidades separadas, a morte se mostra na vida todos os dias, ao mesmo tempo que existe vida na morte.


Questões para reflexão:

1- O caldeirão de Ceridwen é capaz de dar forma a muitos tipos de energia espiritual, ou seja, traz para o mundo concreto aquilo que existe apenas no mundo abstrato. Quais aspectos da sua vida precisam ser revitalizados? Ou quais estão como que adormecidos e precisam ser ativados?

2- Para os psicanalistas, o termo "fantasma" significa fantasia. Isso não tem nada a ver com o sentido popular do termo, sendo mais clara, não falo aqui sobre espíritos dos mortos ou coisas "sobrenaturais". Falo sobre as fantasias, sonhos e devaneios comuns, que todos temos, e aos quais, talvez pela correria da vida, nem sempre damos a devida atenção. Essas fantasias, ou melhor, esses fantasmas ficam na nossa psique, e enquanto não forem trabalhados, continuarão a nos assombrar! Conheça bem os seus fantasmas. Você pode percebê-los nos seus sonhos, nas intuições, sintomas ou até nas ideias que chegam "de repente". Faça as pazes com seus fantasmas. Eles podem ser a causa do nosso mal estar ou grandes aliados, só depende de como iremos lidar com eles!

3- Vamos para a cozinha! É hora de mexer o caldeirão de Ceridwen! Separe uma receita que goste, mas tem que ser algo que você pode preparar mexendo com uma colher, como uma massa de bolo (não use batedeira ou liquidificador, faça tudo à mão!), um manjar, uma boa sopa... Se não conhecer nenhuma receita, a internet está cheia delas! Com a receita em mãos, comece a preparar. Enquanto cozinha, especialmente enquanto mexe, imagine seus planos e sonhos que só existem na imaginação chegando ao mundo concreto. Enquanto você mexe, aquilo que era apenas um fantasma, ou aquela área da vida que andava meio "morta" ganha vida e contornos mais claros. Aproveite o prato que você preparou e celebre a vida!

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