terça-feira, 26 de novembro de 2013

Mythos - Tântalo: a necessidade de se sentir especial

Sabe aquelas pessoas que precisam se sentir especiais? Não digo especial da forma que todos somos, cada um em suas particularidades, mas sim sobre aquelas pessoas que exageram na dose e acabam pensando que são muito mais especiais, capazes, incríveis e "poderosas" que todas as outras pessoas juntas! Acho que todos já conheceram ou conhecem alguém assim. Este é um mito sobre Tântalo, um homem que cometeu este engano.

Tântalo era o rei de Corinto (em outras versões, de Argos). Como era filho de Zeus e de uma ninfa, muitas vezes era convidado para os banquetes do Olimpo. De tanto frequentá-los, Tântalo passou a se sentir cada vez mais aceito no grupo, cada vez mais confiante, a cada visita se achava mais parecido com os deuses, até chegar ao ponto em que começou a se achar muito mais especial e poderoso do que qualquer um deles! E nada é pior recebido por um deus do que este tipo de atitude...

Coisas desagradáveis começaram a acontecer nas ocasiões em que Tântalo estava por perto. Certa vez, ele roubou um pouco de néctar e ambrosia (que só os deuses podiam comer) e deu para humanos! Além disso, por conviver bastante com os deuses, Tântalo sabia de muitos dos segredos deles e, querendo ser admirado entre a humanidade como alguém que mantinha contato próximo com as divindades, ele espalhou esses segredos, traindo a confiança dos deuses!

Se os deuses já estavam desapontados (para ser educada!) com Tântalo, a terceira atitude dele para se mostrar superior foi a gota d'água. Ele convidou os deuses para jantar e teve coragem de servir o filho, Pélops, em pedaços. Tântalo achou que seria interessante fazer algo absurdo como isso apenas para averiguar até onde podia ir o conhecimento e os poderes dos deuses. Eles, horrorizados, notaram que os pedaços de carne eram o corpo do jovem. Na Grécia Antiga, um crime contra alguém da própria família era especialmente abominável. Isso, após a morte, era punido no tártaro, a área mais terrível do mundo dos mortos.

Reordenando o caos que se instaurou, Zeus reuniu os pedaços do corpo de Pélops e ordenou que fossem colocados no caldeirão de Cloto. Cloto era uma das três divindades que teciam o destino dos humanos, da fiação da linha da vida até o seu corte/morte. Quando saiu do caldeirão, inteiro e vivo outra vez, Pélops se tornou amante de Posídon, o deus dos mares. Quanto a Tântalo, Zeus o enviou ao mundo dos mortos, onde receberia a devida punição de Hades, deus dos mortos e rei do mundo inferior.

Aqui a história se divide. Há duas versões para a punição de Tântalo. Na primeira versão, ele teria sido condenado a passar uns bons séculos se equilibrando sobre uma pedra roliça, buscando um equilíbrio perfeito e inatingível. Na outra versão, mais cruel, Tântalo foi amarrado a uma árvore frondosa. O problema é que ele nunca receberia comida e, apesar de haver um fruto maduro e apetitoso pendendo bem próximo à cabeça dele, toda vez que Tântalo tentava morder, o galho da árvore se movia para longe dele. Além disso, o local era alagado, a água fria chegava até o pescoço dele, mas sempre que, sedento, Tântalo abaixava a cabeça para tomar um belo gole, o nível da água baixava de maneira que ele não pudesse alcançá-la. De toda forma, o castigo de Tântalo, seja ele qual for, nos fala sobre a dificuldade de não se contentar com menos que o inatingível, e as consequências terríveis que isso pode ter: perder o nosso equilíbrio, deixando de lado as nossas necessidades mais básicas enquanto tentamos mostrar que somos os deuses (que, nós mesmos sabemos, estamos bem longe de ser!).


Questões para reflexão:

1- Sobre o filho de Tântalo, o jovem Pélops. Quando ele é cortado em pedaços e servido aos deuses, ele se transforma numa oferenda, numa vítima sacrificial. Ele é o bode expiatório, ou seja, aquela pessoa sobre quem todos os "males" são projetados para que, no momento do sacrifício (que em latim significa "tornar sagrado"), todo o "mal" (em termos de energias, influências, características, etc.) seja banido. Quando fazemos um sacrifício de forma consciente, damos um sentido às nossas dores e penúrias, mesmo que no final estejamos "em pedaços" como Pélops. No final, quando ele é colocado no caldeirão de Cloto, ele recupera a si mesmo. Falamos sobre caldeirões que devolvem a vida também no mito da deusa celta Ceridwen (clique aqui para ver), e encontrar o mesmo símbolo em outra cultura nos mostra o quanto o caldeirão enquanto "útero criador e transformador" está presente de forma simbólica na nossa psique. Mas voltando a Pélops, ao recuperar a si mesmo, o jovem se torna amante de Posídon. Posídon é o deus dos mares, e pode ter emoções calmas e profundas como o oceano, mas quando se aproxima uma tempestade, pode se tornar agitado e revolto... Assim somos todos nós. Logo após uma grande crise que nos deixa em pedaços, nos reconstruímos e recuperamos a nossa integridade, e é normal nos tornarmos "amantes de Posídon", flertando com emoções ora profundas e tranquilas, ora tempestuosas.

2- Sobre a atitude de Tântalo. Ele tinha confiança em excesso, como todos notaram. É claro que é uma delícia quando nos sentimos confiantes, quando sentimos que somos capazes de algo e nos arriscamos a fazer as coisas caminharem para onde queremos. Mas todo tipo de excesso mostra um desequilíbrio. A confiança de Tântalo em si mesmo e em suas capacidades era tão excessiva que ele julgava poder superar todos os outros, até mesmo os deuses! Quando isso acontece, ficamos desprotegidos, tal como no mito. Não porque somos especiais ao ponto de ser um alvo visado, mas sim porque nós mesmos "abrimos a guarda" e deixamos de pensar nas consequências do que fazemos. Tântalo foi o causador da própria má sorte.

3- As duas versões do castigo recebido por Tântalo refletem o comportamento que ele teve: buscar uma perfeição que ninguém tem, nem mesmo os deuses! Os deuses gregos nunca prometeram perfeição à humanidade. Aliás, muitas vezes eles tem qualidades super destacadas, mas também defeitos que não apenas são dignos de nós, humanos, muitas vezes chegam a ser quase caricatos, como a infidelidade de Zeus ou as mentiras e roubos de Hermes. É fundamental que a gente conheça os nossos "defeitos" e fraquezas. Não falo daquele ponto de vista de buscar superá-los, pois acredito que toda característica pode ser usada como um problema ou como uma grande força, dependendo do ponto de vista. Mas é apenas conhecendo bem as nossas fraquezas que podemos usá-las de maneira estratégica, seja para nós mesmos, seja para a realidade em que vivemos.

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