quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Você cabe na forma? - Atitudes que dificultam a nossa formação

"Os pais só podem dar bons conselhos e indicar bons caminhos, mas a formação final do caráter de uma pessoa está em suas próprias mãos." - Anne Frank (1929-1945), adolescente alemã de origem judaica vítima do holocausto, que deixou um diário contando suas experiências.

Há algum tempo um estudante me escreveu contando o quanto estava decepcionado com a universidade. "Parece uma continuação sem graça do Ensino Médio", dizia ele. Na conversa que se seguiu ficou claro que o que mais o incomodava era a forma como os estudantes eram encorajados a seguir um padrão em lugar de ter uma formação mais aberta, não eram encorajados a ir atrás dos temas de interesse ou a refletir mais profundamente sobre os temas estudados.

Que história é essa de "enformar"?
Não importa o que você estuda, nem se está na escola, na universidade, num curso livre ou apenas lendo sobre algo do seu interesse em casa. Você tem uma escolha: formar-se ou "enformar-se". Formar-se é unir diversas informações, de diferentes áreas de estudo, aprofundando o conteúdo no seu ritmo, questionando, enfim, quem está em processo de formação está construindo a si mesmo de uma maneira que faz sentido no próprio ponto de vista. Já quem se "enforma", tenta se encaixar em uma forma. Pense numa massa de bolo. Ela é líquida e você pode assá-la numa forma retangular, ou redonda, ou de coração... e quando pronto, o bolo será aquilo que a forma fez com que ele se tornasse! O problema começa porque nós não somos uma massa líquida e sem forma definida... Quando começamos a estudar, mesmo que ainda crianças no primeiro ano do Ensino Fundamental, já somos alguém. Temos uma história, temos sonhos, temos nossas preferências e nosso jeito de ser. E dói ter de abrir mão de quem somos para caber numa forma apertada e sem graça. No final do processo, especialmente se você frequenta um curso (sobre o tema que for, no grau que for), todos os que cumprirem as exigências de maneira satisfatória receberão o mesmo tipo de diploma. A diferença não está no mundo concreto e burocrático dos papéis e títulos. A diferença entre formar-se e "enformar-se" está na forma como nos apropriamos dos conteúdos aprendidos, na maneira como absorvemos e lidamos com as informações.

A partir do momento em que nos percebemos como sujeitos separados do mundo e dos outros, precisamos assumir a responsabilidade por nós mesmos. Conhecer os nossos desejos, o que nos faz bem e o que nos faz mal, conhecer os nossos limites (em especial, saber quando é hora de respeitá-los e quando é o momento de superá-los). Na nossa formação (seja ela profissional, pessoal, espiritual, etc.) não é diferente. Mesmo que você tenha professores excelentes, mestres sábios e tutores preocupados, a responsabilidade é sua. No mínimo, você precisa querer aprender e ir além. Precisa refletir sobre as informações que chegam até você e buscar aquelas que poderiam complementá-las. A seguir, veja alguns comportamentos e atitudes que levam a pessoa a desistir da formação e se conformar em ter de caber na forma...


Não se perceber como um sujeito ativo e responsável por si:
É fácil dizer que a educação pública é ruim, ou que você não pode fazer o curso tal, ou que não conhece alguém para te ensinar tal coisa... Mas, pergunto, e o nosso papel enquanto sujeitos ativos no processo de aprendizagem? Hoje em dia, a internet facilita muito a busca por todo o tipo de informação. Isso além das livrarias e bibliotecas, das próprias pessoas que têm boa vontade em passar informações a diante. Mas é preciso querer essas informações, e a realidade é que muita gente não quer...

Não saber lidar com as frustrações:
É mais fácil suportar a dor e o tédio de ter de se encaixar numa forminha apertada do que enfrentar os desafios e incertezas que a verdadeira formação nos traz. Pouca gente tem tolerância à frustração o suficiente para se envolver num processo sincero de formação, em que a pessoa estuda, pensa, critica, questiona, tem suas verdades e certezas o tempo todo colocadas à prova e transformadas.

Não se envolver:
Para as coisas darem certo, precisamos nos envolver com elas. Pouco importa se falamos sobre a formação universitária, um caminho espiritual, um relacionamento, o planejamento daquela viagem especial... Quando a gente não se envolve a meta dificilmente é alcançada. Porque com esse tipo de atitude dizemos a nós mesmos (e aos outros) que a formação é algo pouco importante, que está em segundo, terceiro, quarto plano na nossa vida.

Não questionar:
Questione tudo. Analise tudo com crítica. Não importa se você leu naquele livro clássico e super bem conceituado ou se quem te passou a informação foi uma pessoa experiente e confiável. Todos somos passíveis de erros. Mas do que isso, é apenas questionando e analisando com crítica que nos apropriamos de verdade das informações, pois é neste processo que elas encontram eco no nosso mundo interno.

Pensar apenas nos "direitos":
Sim, todos temos direitos. Mas também temos deveres... E enquanto não assumirmos a responsabilidade pelos nossos deveres (por nós mesmos), a liberdade de ação e de pensamento sempre parecerá algo distante e até ilusório. Não existe autonomia, "liberdade", quando pensamos apenas em direitos e ignoramos os deveres. Eles não se fazem sozinhos. E são, sim, responsabilidade nossa!

Querer tudo pronto:
As coisas dão trabalho. Ninguém nasceu pronto, por isso todos nós tivemos (temos!) que ir atrás daquilo que nos tornamos e/ou pensamos em nos tornar. E isso pode doer. Dá trabalho. Leva tempo. Exige alguns sacrifícios. E algumas pessoas apenas não aceitam isso, preferem que a coisa toda já venha pronta e gostosinha, como num fast food mal acabado. Entrar na forma com certeza daria menos trabalho. Bem menos trabalho... Mas provavelmente traria perdas e exigiria o preço de nos tornarmos algo que não faz sentido para nós. E, acredite, as consequências a médio e longo prazo não serão agradáveis.

Querer tudo agora:
Respeite os ritmos. Sei que vivemos num mundo imediatista e exigente, mas as coisas têm o seu próprio tempo, doa a quem doer. Formar-se não é só acumular conhecimentos. É principalmente dar sentido a essas informações e habituar-se a agir/existir nos novos papéis com naturalidade. E isso leva tempo. A vida tem um ritmo. Nosso processo de aprendizagem, de construção de nós mesmos, também tem um ritmo próprio, diferente para cada pessoa, e isso precisa ser respeitado, em especial por nós mesmos.

2 comentários:

  1. Tudo que eu precisava ler/aprender nesse momento.
    Agradecido pelo belo artigo.

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    Respostas
    1. Olá Felipe! Eu que agradeço pelo comentário.
      Que legal que o artigo foi útil!
      bjs

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