sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ágora - Intolerância religiosa, bullying e discriminação

Eu queria perguntar na Ágora, mas não põe meu nome que tenho vergonha ta? Sou de uma cidade pequena no interior do Paraná e sofro preconceito porque não sou cristão. Minha avó é "mãe de santo" e minha família toda frequenta o candomblé. Eu amo minha religião e espero crescer muito nela. Não somos pessoas ruins como dizem, nossa crença prega o bem e o amor mas só que os outros não entendem isso. Na escola me xingam e me chamam de tudo que é nome, macumbeiro, falam que sou do diabo e mais outras coisa piores que não vou repetir por respeito a você e quem ta lendo o blog. Também se recusam a falar normal comigo sem ser pra me xingar, a sentar perto e a fazer os trabalhos. Sair com o pessoal então é uma coisa que nunca aconteceu, eu não sou bem vindo. Fico muito mal. É que isso é muito chato em casa me falam pra deixar pra la mas nao aguento mais. Queria que parassem já tentei conversar e explicar para os meus colegas que candomble não é nada daquilo que eles acham, já tentei resolver com conversas e parece que nada funciona. Outro dia eu estava muito triste com isso e fui falar com a diretora, mas ela me falou que não era um problema da escola e que ela sente muito mas não pode fazer nada pra me tirar dessa. Ainda bem que ano que vem já vai ser o ultimo e vou terminar a escola e sair de la. Espero que as coisas melhorem logo. Queria saber o que vc acha dessa situação. Obrigado.
V. - Paraná


Bom dia, V.

Isso é mesmo muito desagradável. Só quem já sofreu preconceito (por crença, etnia, lugar de origem, etc.) sabe o quanto é desesperador lutar para ser aceito entre pessoas de mente estreita, que não conseguem entender que antes de tudo somos todos humanos. Aliás, eu não acho só que isso é muito chato. Isso também é crime. Inclusive, no Brasil o crime de discriminação pode ser punido com cadeia, pelo que vi no site do Governo Federal (clique aqui para conferir a lei 9459, contra diversos tipos de preconceito). 

O Brasil é um Estado laico. Isso significa que não existe uma religião "oficial" na qual as leis e a conduta do povo se baseiam. Assim, a diversidade religiosa é permitida. O problema é que, apesar da liberdade ter sido dada, as pessoas não foram ensinadas a lidar com ela. E demonstram isso arrumando problemas! Infelizmente a discriminação não acontece apenas em escolas ou entre adolescentes, V. Isso acontece na sociedade, no mundo. E é digno de muita preocupação, pois se as pessoas não podem nem sequer respeitar quem pensa diferente, como podem ter a esperança sincera de serem respeitadas e viver num mundo com mais paz e menos violência? Não dá.

Aliás, se isso acontece (também) dentro da escola, não é apenas discriminação ou intolerância religiosa. O que seus colegas fazem com você ao xingar, excluir e dar apelidos pejorativos se chama bullying e, ao contrário do que a diretora te falou, é um problema da escola, sim. Precisa de intervenções, precisa ser pensado e discutido entre todos, não só para que pare de acontecer com você, mas também para prevenir que aconteça a outros alunos. Seria interessante voltar a conversar com ela, sabendo dessas informações para que, juntos, vocês pensem em como contornar o problema. Muitas vezes atitudes simples fazem toda a diferença. Algumas escolas chegam a fazer uma "roda das religiões", em que cada aluno pode apresentar a sua para o grupo e todos podem perguntar as curiosidades e conhecer melhor o estilo de vida dos colegas. Preconceito se vence com informação. Ah, V., acho importante que você não vá sozinho ter essa conversa com a direção da escola. Leve a sua família junto na hora de ter essa conversa, ou pelo menos um dos seus responsáveis. Isso, além de fazer com que a direção perceba a seriedade da situação (porque parece que muita gente ainda teima em não levar menores de idade a sério), isso significa ter mais alguém com você, ter testemunhas e também ter alguém ao seu lado ajudando a pensar e argumentar com clareza num momento delicado. Se a direção da escola não quiser ouvir, vale lembrá-los sobre a lei contra preconceito religioso e mesmo contra o bullying (discriminação, ameaças, coações...), que você encontra no Estatuto da Criança e do Adolescente (clique para ver). Apesar do termo "bullying" não ser mencionado lá, fala-se de discriminação, preconceito e intolerância, que é o que vem acontecendo com você, inclusive dentro da escola. Geralmente medidas simples, como ajudar seus colegas a conhecer aquilo que tanto temem e ver que não é nada demais costuma dar bons resultados. A ideia não é "converter" ninguém, e sim ajudá-los a conhecer e a conviver com as diferenças de forma respeitosa. Claro que não basta você falar, é preciso o apoio da família, o respaldo da escola, enfim, é preciso que todos se envolvam e façam desta situação uma grande oportunidade para ampliar a visão de mundo de muitas pessoas. Repito: preconceito se vence com informação.

Nunca se envergonhe por ser quem você é, V., e nem se sinta inferior por causa da ignorância das pessoas.
beijo,
Bia


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2 comentários:

  1. Já sofri discriminação por ser evangélica, gostei muito do que disse no final:
    Nunca se envergonhe por ser quem você é, V., e nem se sinta inferior por causa da ignorância das pessoas.
    Espero que V. - Paraná fique bem.

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    1. Que chato, Patrícia. Basta estar no meio de pessoas que não aceitam as diferenças para ser vítima de preconceito, porque querendo ou não, todos temos algo que nos diferencia dos demais. Não se deixe abalar, se a sua fé te faz se sentir bem, então os outros não têm nada com isso!
      Também espero que tudo termine bem para o V.
      beijo

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