quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Geração Canguru - Matéria da Revista AT

Esta semana compartilho com vocês esta matéria, escrita pela jornalista Joyce Moysés, da qual participei com depoimento técnico enquanto neuropsicóloga. A matéria é sobre a adolescência, que hoje se estende pela vida adulta, e foi publicada domingo passado (15/12/2013), na Revista AT do Jornal A Tribuna, de Santos.


Geração Canguru

É polêmico! Psicólogos pregam que a adolescência agora vai até os 25 anos. E sobre o número de homens com mais de 30 anos na casa dos pais.

Um adolescente incomoda muita gente, um adulescente incomoda muito mais? Resposta complexa. De um lado, pais preocupados porque o(a) filho(a) não pretende sair de casa tão cedo nem casar, e ainda desconhece qual é seu verdadeiro talento. De outro, os próprios desabafam ao psicólogo, professor ou tio gente boa que não sabem direito o que fazer da vida e se querem formar família.

A geração canguru veio para ficar... na cola dos pais. É tendência nacional. Dados recentes do IBGE mostram que de 2002 a 2012, aumentou de 20% para 24% o número de jovens de 25 a 34 anos morando na casa de origem. Desses, 60% são homens.

Para esquentar a discussão, surge neste ano nova orientação de psicólogos britânicos para que os colegas considerem que a adolescência vai até os 25 anos. Laverne Antrobus, psicóloga infantil e juvenil da clínica Tavistock, em Londres, defende que os jovens precisam receber apoio e auxílio por mais tempo, e que os pais devem perceber que nem todos se desenvolvem no mesmo ritmo.

"A ideia de que aos 18 anos você é adulto não parece real", disse a psicóloga em entrevistas, explicando que a mudança corrige lacunas no sistema de saúde e educação e acompanha o mundo atual, tão complexo, exigindo dos jovens maior maturidade emocional, desenvolvimento hormonal e atividade cerebral.

A neurociência tem mostrado que a evolução cognitiva deles continua num estágio tardio e que a maturidade, a autoimagem e o julgamento são afetados até que o córtex pré-frontal seja totalmente formado. Por isso, a partir de agora há três estágios da adolescência: dos 12 aos 14, dos 15 aos 17 e dos 18 em diante.

Beatriz Carunchio, psicóloga e neuropsicóloga, vê aqui no Brasil a situação por dois lados. Acha bom pelo ponto de vista de que o mundo ficou mesmo complexo e exigente com os jovens, que precisam de mais estudo e preparo financeiro antes de alçarem voo. "No entanto, faz com que sejam vistos e tratados como incapazes em alguns casos, dificultando que assumam a responsabilidade por si mesmos. Certa vez uma mãe me procurou, aflita, e perguntou se eu atendia adolescentes. A idade do menino: 37 anos", ilustra ela.

"Hoje não somos mais taxativos com relação à idade de início e de final das fases do desenvolvimento humano. Cada pessoa tem um tempo próprio de maturação", pondera a psicóloga clínica Elza Aly. Vide o que a consultora de sustentabilidade Elaine Pimenta ouviu da filha de 20 anos: "Não sei por que você está preocupada; eu adorei a notícia. Vai aliviar a pressão para que a fase adulta chegue o quanto antes". Já o ator Paulo Santos relativiza: "Fiz 24 neste ano, já sou casado, com dois filhos".

Medo da independência

Para o psicólogo Frank Furedi, da Universidade de Kent, no Reino Unido, a medida vai elevar o número de jovens infantilizados. Razões econômicas lideram as justificativas para o fenômeno. Mas Frank acredita que o plano de fundo é a perda da aspiração por independência.

"Quando eu estava na universidade, ser visto com meus pais decretaria minha morte social. Agora parece que é a regra", radicaliza Frank, alertando que esse sentimento de dependência pode dificultar a construção de relacionamentos maduros.

Amadurecer requer ainda contato constante com as próprias emoções, na opinião de Antonela Trofa, terapeuta transpessoal com foco em autoconhecimento, saúde integral e qualidade de vida. "Por conta de tantos estímulos internéticos, apego a celulares, videogames, percebo aumento da dedicação ao mundo virtual em relação ao cultivo dos vínculos. Isso gera pouco tônus emocional pela falta de treino. E aí esse jovem vai para a vida adulta sabendo muito do mundo da razão e pouco das coisas do coração. Quantos, por falta de conexão com seu eu ou até pelo eco da voz dos pais vibrando dentro deles, se deixam levar pela profissão que vai dar mais dinheiro, status, etc. E pagam o preço com pouco brilho nos olhos e aquela sensação de que tudo perdeu a graça. Ou facilitando doenças físicas e emocionais, de ansiedade a depressão". A polêmica continua...

Depende do suporte financeiro

Elza nota que nas classes favorecidas, pais sonham com seus filhos bem estabelecidos, pós-graduados, então não têm pressa de que saiam de casa. São permissivos e olham mais para as necessidades individuais de cada herdeiro.

"Agora, se esses jovens vão cursar faculdade longe de casa, amadurecem mais rápido, pois precisam achar a solução para seus problemas sozinhos", compara a psicóloga, que não observa o mesmo em seu trabalho em ONGs.

"Nas famílias de baixa renda, não há espaço físico, emocional e financeiro para tutelar os jovens por muito tempo. As etapas são aceleradas, e eles saem de casa por volta dos 18 anos. Poucos vão para as universidades. A maioria trabalha desde cedo e, muitas vezes, é para manter todo o clã", analisa.

Outras motivações

A violência é um grande sintoma do nosso tempo, mas muitas vezes o que está por trás da superproteção é alguma questão emocional dos pais (receio de envelhecerem ou da solidão são motivos bem atuais) ou pela própria dinâmica da relação (insegurança de permitir que o outro vá...), na visão de Beatriz. "Há ainda a questão do consumo: interessa ao mercado, pois o adolescente é um dos grupos que mais consome, tendo a retaguarda financeira da família", completa a neuropsicóloga.

E como sabemos quando atingimos a vida adulta?

"Não podemos nos basear só no desenvolvimento corporal", avisa Beatriz. "Os britânicos alegam que a adolescência foi aumentada porque o cérebro se desenvolve por completo aos 25 anos em média. Mas existe a plasticidade neuronal: ele está sempre em movimento e transformação, pois a cada dia criamos novas sinapses e nascem novos neurônios, mesmo quando somos mais velhos... Nesse aspecto, o desenvolvimento nunca termina".

Um panda não pode ser pato

Antonela alerta aos pais que atentem para as projeções e altas expectativas com relação ao filho, pressionando-o a agir apenas para agradá-los. São aqueles que repetem que se sacrificam tanto por ele... Esse peso emocional desgasta a todos.

Fazendo uma analogia com o filme Kung Fu Panda, a terapeuta lembra que a função dos cuidadores é contribuir e orientar o panda a ser o melhor panda que ele desejar ser, em vez de fazê-lo acreditar que, sendo filho de pato (pai adotivo do personagem), certamente será um... pato. Devem deixar que o coração e os sonhos do próprio indivíduo o conduzam nas escolhas e no seu caminhar na vida. "O universo perde quando não expressamos o que está inscrito em nossa essência".

Pratique o CHA

Claudio Behr, professor há 21 anos e coach para pré-vestibulandos, acrescenta: "os pais devem se tornar gradativamente desnecessários. Para isso, o conceito CHA é útil. Percebo tantas famílias e escolas focando muito na letra C (conhecimento ou competência) e pouco na letra A (atitude, ligada à competência)! Conhecimento é um saber infinito, mas hoje disponível na internet. E vejo que a atitude dos pais vem bloqueando a dos filhos. Dependendo de como protegem, mantêm numa bolha e capengas de H e A. Se acham que o conhecimento vai resolver a vida deles, só preparam para a melhor faculdade e o melhor cargo. E o resto? É comum que façam um monte de cursos. E a gente sabe que muitos perdem o emprego por falta de A", opina Claudio.

Já viu adolescente índio?

Beatriz ressalta que não temos ritos de passagem claros que marquem a mudança de fase. "Com isso, aquela que seria um breve momento de transição se alonga cada vez mais". Nas comunidades indígenas, é diferente. "Ou o garoto passa a noite na floresta de olhos vendados ou precisa caçar um bicho...", exemplifica Claudio, avisando que nossa cultura perdeu um pouco isso.

Ele vê hoje os rituais importantes para nós: o primeiro vestibular (muitas vezes é quando o garoto conhece a frustração) e o primeiro casamento ou nascimento do filho (quando não dá mais para fugir das responsabilidades). "O vestibular exige balancear o CHA assim como o trabalho, o casamento, a paternidade... Até quando viver as coisas boas da vida adulta (bebida, sexo, viagens com os amigos...), mas recorrer aos pais na hora do sufoco?

Uma bússola interna

Morar com eles traz vários benefícios, mas deve existir uma data de validade. Tudo na vida implica em ganhos e perdas, obrigações e direitos, dor e alegria. E as perdas (do colo materno, por exemplo), são importantes para o amadurecimento emocional, potencializam o processo de aprendizagem.

"É melhor ter escolhas do que não tê-las, mas quando são muitas... A gente fica perdido. Aconselho um trabalho de autoconhecimento e que pais e professores passem conceitos de propósito, valores para afastarem estereótipos do que trará mais felicidade", finaliza o coach.


Matéria de Joyce Moyses, publicada no jornal A Tribuna, no dia 15/12/2013, em Santos, SP.

Joyce Moyses é jornalista e escreve na Revista AT (Jornal A Tribuna), além de dar palestras sobre as transformações trazidas pela mulher no mercado de trabalho, sociedade e cultura.


Email da autora - joyce@joycemoyses.com.br

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