terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Mythos - Atlas: carregar o mundo nas costas

Hoje temos um mito grego. Atlas é conhecido por carregar o mundo nas costas como castigo. Por isso, hoje vamos aproveitar a simbologia deste mito para falar sobre aquelas questões que nem sempre são nossas, ou sobre aqueles problemas cuja solução nem sempre está nas nossas mãos, mas que ainda assim, temos dificuldade em soltar.

Tudo começou na guerra entre deuses e titãs. Os titãs são as divindades que vieram antes dos deuses e, quase sempre, sua personalidade é menos estruturada e menos complexa que a dos deuses, pois representam elementos mais básicos da natureza, como o sol, a lua, o céu, a terra, os rios, etc; ao contrário dos deuses que, quase sempre, representam aspectos humanos e culturais como o amor, a liderança, o amadurecimento, as questões que envolvem a vida e a morte. Atlas era um titã, filho do titã Jápeto (ligado às mortes violentas, mas também às habilidades artesanais) e da ninfa Climene. Seu nome, Atlas, significa "aquele que suporta", algumas vezes interpretado também como "sofredor". Também na nossa cultura ocidental temos, em diversos idiomas, o hábito de usar a palavra "suportar" com o sentido de "aguentar" provações e dificuldades.


No início dos tempos, Cronos (o tempo) e Reia (ligada à energia da terra) deram origem aos deuses principais. No entanto, Cronos temia ser destronado pelo filho, tal como ele mesmo havia destronado o pai, Urano (o céu), anos atrás. Por isso, cada vez que Reia dava à luz um de seus filhos, ele engolia a criança! Reia, já cansada disso, certa vez deu uma pedra para que o marido engolisse e escondeu o filho caçula, Zeus. Quando o deus cresceu, uma águia lhe contou sua história e, revoltado, ele decidiu salvar os irmãos e punir o pai. E assim foi feito. Zeus libertou os irmãos, fazendo com que saíssem, já adultos, pela boca de Cronos. Juntos, os deuses entraram em guerra contra os titãs. Essa guerra durou dez anos e no fim eles prenderam Cronos e alguns outros titãs que se opuseram aos deuses e aos humanos no tártaro (a região mais profunda do mundo dos mortos). Durante a guerra, muitas coisas aconteceram. Todo tipo de criatura tomou partido de um dos lados. Os seres humanos ficaram ao lado dos deuses, matando gigantes (que estavam ao lado dos titãs) com suas flechas quando os deuses os derrubavam. Quando a guerra terminou, Zeus e seus irmãos prenderam Cronos e alguns dos outros titãs no tártaro, como dissemos antes. Entretanto, alguns dos titãs tiveram castigos diferentes. Atlas foi um deles. Numa das versões do mito, por ter se oposto e tentado destruir os deuses e os humanos, Atlas foi condenado por Zeus a carregar o mundo sobre os seus ombros pela eternidade. Em outras versões do mito, Atlas não carrega o mundo, mas sim o céu/Urano, impedindo-o de chegar à terra/Gaia e, assim, não poderiam copular e gerar mais titãs que ameaçassem os deuses.

Mais tarde, Atlas foi liberado desse castigo pois Herácles construiu pilares que passaram a sustentar o mundo.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando neste mito pelo significado do nome "Atlas". Suportar significa dar suporte, viabilizar, tornar algo viável e possível. Quem tem esse papel é a pessoa que assume a responsabilidade por aquilo ou aquele que está sendo suportado, ou seja, aquele que responde pela coisa/pessoa/local/situação/etc. em questão. Os responsáveis por uma criança ou por uma empresa, por exemplo, são aqueles que lhe dão suporte. Papel e caneta na mão para a primeira atividade! Liste tudo e todos a quem você, de algum modo, suporta (em todos os sentidos da palavra). Tenha a lista em mãos, pois ela será usada nos próximos pontos.

2- É impossível para alguém que trabalhe com saúde ler este mito e não lembrar dos pacientes com problemas e dores na coluna. Claro que cada caso é um caso, mas de forma geral, muitos deles trazem para o consultório situações bem semelhantes àquela vivida por Atlas. A coluna entorta e dói quando tentamos carregar o mundo inteiro nas costas. Aliás, nem precisamos chegar ao mundo inteiro! Os problemas começam quando "suportamos" responsabilidades que não são nossas. Sofrer não é assumir qualquer tipo de responsabilidade. Quando respondemos/nos responsabilizamos por nós mesmos, a vida flui que é uma beleza! O nome disso é autonomia ou, numa linguagem mais popular, "independência". O problema começa quando pegamos para nós problemas e tarefas que não são nossos e que, enquanto estiverem sobre os nossos ombros, além de causarem dor (física ou emocional), nunca serão solucionados, pois não somos nós quem respondemos por eles, por isso não temos como agir sobre essas situações. Releia a lista que fez no exercício anterior. Marque quais responsabilidades não te pertencem. E largue-as. Até Atlas, que era um titã e atentou contra os deuses e a humanidade mereceu sua libertação. Então, você também merece.

3- O outro pólo da questão é a pessoa que não suporta nada, nem a si mesma. Apenas podemos suportar aquilo que nos diz respeito, ao mesmo tempo em que somos os únicos com o poder de agir nas nossas vidas. Por isso, quando alguém se queixa de que a vida não caminha, as coisas não dão certo, que não deram sorte ou queixas do tipo, muitas vezes o que se percebe é uma falta de envolvimento consigo mesmo, uma certa dificuldade em assumir as responsabilidades que envolvem a própria vida, ou mesmo um sentimento de insegurança ao ter de responder por si. Você e pontos fundamentais da sua vida foram colocados na lista do primeiro exercício? Em que posição, no topo ou mais para o final, depois de todas as outras pessoas e situações? Que lugar você ocupa na sua vida?

4- Fazendo um paralelo entre o mito e o corpo humano, o pilar que sustenta o mundo seria a nossa coluna vertebral. Já o mundo seria a cabeça (sede da inteligência e racionalidade, ponto fundamental entre os antigos gregos). A cabeça está apoiada na primeira vértebra da cervical. Quando a nossa postura corporal está alinhada corretamente, evitamos uma série de dores e problemas de saúde, até mesmo o cérebro recebe mais oxigênio e pode funcionar melhor. Nada como ter o mundo apoiado sobre o pilar que lhe deve o sustento, em lugar de tê-lo jogado sobre ombros que não têm nada com isso!

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