terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mythos - Befana: colher o que foi plantado

Já que estamos em época de festas de final de ano, hoje temos mais uma personagem ligado a este momento do ano, a Befana. Quando comento sobre ela, muitas vezes as pessoas me dizem que nunca ouviram falar dessa personagem, por isso, vamos começar bem do comecinho, falando um pouco sobre o folclore italiano e os costumes acerca do Natal, para depois entrar na história da Befana enquanto deusa.

Na Itália não existe Papai Noel. Bom, com a globalização, hoje o bom velhinho já tem certa popularidade por lá... Mas quem entrega os presentes de Natal para as crianças italianas não é ele, e sim uma bruxinha do bem que se chama Befana. Outra curiosidade: os presentes são recebidos por lá no Dia de Reis (06 de janeiro). Na noite do dia 5 para o dia 6 de janeiro, a Befana pega seu saco de pano com brinquedos, doces e outras coisas, monta em sua vassoura e cruza os céus, visitando a casa de cada criança e deixando lembranças. Para as que se comportaram bem, ela deixa presentes e doces. Para as que não se comportaram tão bem assim, ela deixa um pedacinho de carvão. Aliás, mesmo quem ganha coisas boas quase sempre costuma ganhar um carvãozinho também. O carvão representa a transformação pela qual todos nós podemos (devemos!) passar, para melhorar sempre. Entre as lembrancinhas com significado "educativo", também estão as pedrinhas, ligadas à busca pela estabilidade e firmeza, assim como representam a superação dos obstáculos do caminho. A Befana é representada como uma senhora bem velhinha, de cabelos brancos e roupas remendadas.

Mas como assim uma bruxa entrega os presentes de Natal? Existem várias lendas cristãs explicando isso. A primeira conta que os três reis magos, enquanto seguiam a estrela de Belém, pararam num vilarejo para passar a noite e pedir informações. Foram muito bem recebidos pela matriarca, uma senhora sábia e acolhedora, que lhes deu de comer e lhes permitiu passar a noite em sua casa. No dia seguinte, os reis magos a convidaram para se juntar a eles na visita ao menino Jesus. Ela negou, pois não podia deixar a vila, era a matriarca e tinha muitas pessoas que dependiam dela ali. No entanto, pouco depois ela se arrependeu e resolveu procurar pelo menino Jesus para prestar-lhe homenagem. Desde então ela presenteia as crianças todos os anos no dia de Reis, lembrando que todos temos dentro de nós algo de sagrado.

Outra versão conta que a Befana visitou o menino Jesus. Ao invés de lhe oferecer presentes, ela lhe ofereceu sua reverência e respeito, e dividiu com o menino o que mais precioso tinha: as lembranças do filho, morto há algum tempo. Contou a ele como estava triste por haver perdido o único filho, e que por ser mais velha, não podia ser mãe outra vez, o que a deixava muito triste. Comovido, o menino fez dela a mãe de todas as crianças da Itália. Desde então ela cruza os céus em sua vassoura e deixa lembranças para os seus filhos nesta data especial.

Quanto aos mitos que deram origem à Befana, algumas fontes sugerem que seu nome veio da pronúncia italiana da palavra grega epiphania (algo como aparição divina). Há uma deusa sabina/romana chamada Strina. De seu nome derivam palavras como a latina strix (coruja - animal relacionado à noite, à magia, à sabedoria e aos mistérios), e a italiana strega (bruxa). Talvez daí a ideia de representar a Befana como bruxa. De acordo com os mitos desses povos, a deusa Strina era uma deusa anciã, uma velha sábia celebrada ao fim das festividades do solstício de inverno, que durava cerca de doze dias e marcava o auge do inverno - e o consequente retorno do sol, da luz do mundo. Strina trazia presentes para as pessoas: o retorno da vida na terra, da luz. Ela deixava frutas secas e pães nas casas como presentes que simbolizavam o fechamento do ciclo anterior e um recomeço, com nova vida e novas esperanças.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar analisando os presentes trazidos pela Befana. O que na sua vida precisa ser transformado? Quais foram as pedrinhas (maiores ou menores) que você enfrentou neste ano? Por fim, o que foi doce como as balas e chocolates que ela coloca nas meias das crianças?

2- Fechar um ciclo não é fácil. Porque é preciso colher tudo aquilo que foi plantado, seja bom ou ruim, e armazenar ou dar um fim útil à colheita. A colheita que fica largada nos campos logo apodrece com a umidade ou é levada por animais ou aproveitadores. É preciso estocar, limpar, cuidar. Assim são as consequências das nossas escolhas. Seja lá o que tenhamos escolhido, as consequências sempre chegarão até nós, e é apenas lidando com elas, abraçando-as como o ceifador que abraça deu facho de trigo, que podemos nos libertar. Isso se chama responsabilidade, e é apenas com ela que temos liberdade e autonomia. O novo ciclo só pode chegar e trazer renovação quando já demos conta por completo do ciclo anterior. Só assim nos abrimos de verdade para o novo. Não tenha receio. Colha, dê um fim digno à sua colheita e prepare-se para a renovação.

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