terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mythos - Quetzalcóatl: sacrificar-se pelo outro

Hoje vamos conversar sobre um deus dos povos da América Central, muito presente entre os astecas e toltecas. Quetzalcóatl é considerado por alguns pesquisadores como um dos principais deuses desses povos. Alguns dizem que ele era representado como um homem branco, de barba e olhos claros. Mas há poucas fontes para essa teoria. Mesmo porque seu nome significa "serpente emplumada", por isso muitas vezes ele também é representado como um homem coberto de ornamentos de plumas. No entanto, "quetzal" também significa "preciosidade" e "coatl", "coisa". Portanto, outra tradução possível seria "coisa preciosa".

Quetzalcóatl é um deus de vida e morte. Essa dualidade é muito frequente na cultura asteca. Ele é o criador das artes e da manufatura, por isso muitas vezes é visto como alguém que contribui para a vida do ser humano. Por outro lado, ele também é visto como terrível, para quem se fazia até mesmo sacrifícios humanos (sacrificavam um escravo comprado 40 dias antes de sua festa, cujo corpo seria comido pelos participantes de classe mais alta, ritualisticamente). Quetzalcóatl simboliza as energias que emergem da terra, daí a ideia da serpente emplumada. Nesse aspecto representa a abundância da terra (vegetação, recursos e a produção agrícola), pois é ele quem dá ao ser humano tudo aquilo que precisa para viver.

Quetzalcóatl, escultura asteca.
Um mito muito simbólico que envolve este deus é o da criação dos seres humanos. Entre os astecas, o mundo foi criado e recriado incontáveis vezes, pois sempre era destruído por cataclismos. Na última vez em que ocorreu a criação, Quetzalcóatl desceu ao mundo dos mortos (talvez simbolizando que mesmo os deuses enfrentem a morte), recolheu ossos humanos e verteu sobre eles seu próprio sangue, criando a humanidade novamente. Este trecho mostra a importância dos sacrifícios humanos na prática religiosa dos astecas, bem como a relevância do sangue enquanto substância carregada de energia vital. De forma reversa ao mito, os sacrifícios humanos serviam, entre este povo, para manter os deuses vivos, alimentando-os com a energia vital humana.


Questões para reflexão:

1- Pelo que você se sacrifica? Muitas vezes ouvimos esse termo "sacrificar" com ouvidos preconceituosos, como algo ruim e até lembrando a ideia da morte. Não é nada disso! "Sacrifício" é "tornar sagrado". E tudo o que é sagrado ocupa uma posição de destaque na nossa realidade. Em tempo: nada é sagrado por si só. Nem imagens religiosas, nem a vida humana, nem a natureza, nada. Somos nós, seres humanos, de posse da nossa capacidade de exercitar a religiosidade e espiritualidade (no sentido de ligar-mo-nos a algo que vai além de nós mesmos - deuses, ideologias, esperanças num mundo melhor, os outros, etc.), tornamos certos elementos da nossa realidade sagrados através da nossa crença. Isso quer dizer que somos nós mesmos quem criamos o sagrado conforme atribuímos um sentido de sagrado a determinadas coisas e valores. O que você torna sagrado, ou pelo que você se sacrifica? Quais são seus maiores valores? O que vale o seu sangue, a sua vitalidade?

2- Já comentei outras vezes o quanto as dualidades são ricas. Se bem integradas, elas não geram conflito algum, ao contrário, se unem e se transformam numa terceira coisa, muito maior que a soma de suas partes. A dualidade mais bela neste mito é a criação. Quetzalcóatl criou a humanidade envolvendo ossos mortos com seu sangue, com a parte mais nobre e viva de si mesmo. Em retorno, o ser humano mantém o deus vivo com sua vida, com seu sangue, reafirmando a sacralidade a cada sacrifício (com o perdão do jogo de palavras!). Esteja atento a quais dualidades existem em você e na sua vida. Conheça-as. Mais do que isso, perceba como você relaciona os lados dessas dualidades: de forma conflituosa, equilibrada ou ainda integrada a ponto de orientarem e "sacralizarem" sua vida?

3- Tudo na nossa realidade e todo momento da nossa vida tem o potencial de ser sagrado se assim quisermos. Os povos mais antigos tinham o costume de ritualizar a vida, suas passagens e ciclos, a realidade... Hoje em dia perdemos muito disso, os rituais, que deveriam ser, por excelência, um mito/discurso "encenado", se tornaram produtos de consumo, ou pior, um teatrinho mal feito. Com isso, o ritual (religioso ou não religioso - casamentos, formaturas, aniversários de todo tipo, mudanças na nossa vida...) mal encenado é "pior" do que ritual nenhum. Porque o rito existiu, mas não cumpriu seu papel. Não chegamos a nos envolver e aí os símbolos poderosos de transformação não nos tocam o coração. Reflita sobre os rituais que existem no seu dia a dia. Você chega a perceber que são rituais? Que fique claro: não falo de pompas e frufrus, mas sim de envolvimento! Perceba como você se prepara para os rituais do dia a dia (refeições, hora de dormir, banho, chegadas e partidas, encontros e reencontros...). Como você os encena? Com pressa e sem dar grande importância ou com o devido envolvimento? Apenas quando a gente se envolve com essas pequenas coisas, tornamos nossa vida e nosso dia a dia sagrados para nós mesmos. É no envolvimento que mora o "colorido" da vida.

5 comentários:

  1. Essa lenda ainda vai longeee...longeee... uma verdadeira viagem! Super vale a pena tomar esse estudo adiante (sobre Quetzalcóatl e deuses dessa cultura).
    Parabéns Bia!! (de novo, novamente, e.. e sempre auhauahauha)

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    1. A cultura asteca e de outros povos das Américas é mesmo fascinante! Quero muito me aprofundar nisso, adoro esse jogo de vida-morte-vida, sempre muito simbólico e cheio de sentidos especiais.
      bjs

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  2. Adorei o texto. Parabéns...isso é leitura de qualidade.

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  3. Respostas
    1. Sirley, muito obrigada pelo elogio. Fico muito feliz de saber que gostou e que o texto fez sentido.
      beijos

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